Em um depoimento de mais de três horas prestado ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta terça-feira, 10, o ex-presidente Jair Bolsonaro fez uma série de declarações que voltaram a agitar o cenário político nacional. Ao se defender das acusações de envolvimento em uma suposta tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro negou ilegalidades, criticou decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), citou outros políticos que questionaram o sistema eleitoral e reafirmou sua intenção de voltar à Presidência.
Críticas ao sistema eleitoral e citações a Dino e Lupi
Durante seu interrogatório, Bolsonaro buscou relativizar as críticas que fez às urnas eletrônicas, afirmando que não foi o único a levantar questionamentos sobre o sistema. Citou, entre outros, o atual ministro do STF e ex-governador do Maranhão, Flávio Dino. Segundo ele, Dino teria feito críticas semelhantes após uma derrota eleitoral em 2010 ou 2012. “Hoje eu tive oportunidade de ser vítima de um processo que precisa ser aprimorado… o sistema das urnas eletrônicas”, teria dito Dino à época.
Também mencionou declarações do ex-ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e usou como exemplo uma antiga publicação no Facebook de um advogado, segundo a qual “sem a impressão do voto, não há possibilidade de recontagem. Sem recontagem, a fraude impera”.
Reunião com embaixadores é ‘prerrogativa de chefe de Estado’
Um dos principais pontos da investigação envolve a reunião realizada por Bolsonaro com embaixadores em julho de 2022, na qual ele atacou o sistema eleitoral brasileiro. O ex-presidente defendeu a legitimidade do encontro, afirmando que “reuniões com embaixadores são prerrogativa do chefe de Estado”. Segundo ele, a exposição de suas preocupações sobre a segurança das urnas foi legítima e pública.
Negativa de golpe e defesa das Forças Armadas
Bolsonaro negou qualquer tentativa ou planejamento de golpe. “Da minha parte ou de comandantes, nunca se falou em golpe”, afirmou. Também destacou que, em nenhum momento, foi ameaçado de prisão e que as Forças Armadas não aceitariam cumprir ordens ilegais. “As Forças Armadas têm missão legal. Missão ilegal não é cumprida”, declarou.
Explicações sobre não ter passado a faixa presidencial a Lula
Questionado sobre sua ausência na cerimônia de posse de Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro explicou que decidiu não passar a faixa presidencial por não reconhecer o processo eleitoral. “Foi uma decisão política, não jurídica”, teria dito, reafirmando sua posição crítica sobre as eleições de 2022.
Propina, TSE e restrições durante a campanha
Sobre a polêmica fala gravada em que mencionava propina de ministros do STF, Bolsonaro alegou que se tratava de um desabafo retórico, sem intenção de acusar. “Não tem indício nenhum, seu ministro. Tanto é que era para não ser gravada, um desabafo, uma retórica”, disse, pedindo desculpas.
Também criticou duramente decisões do TSE que, segundo ele, o prejudicaram durante a campanha. Reclamou de ter sido impedido de usar imagens do 7 de Setembro, da ONU, do funeral da rainha Elizabeth II e até de realizar lives no Palácio da Alvorada. “Cheguei a fazer live na casa de um conhecido porque fui impedido de usar minha residência oficial”, afirmou.
8 de janeiro e apoiadores ‘malucos’
Bolsonaro voltou a negar qualquer incentivo aos atos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. “Tem os malucos que ficam com essa ideia de AI-5, de intervenção militar… os chefes das Forças Armadas jamais iam embarcar nessa só porque o pessoal estava pedindo ali”, comentou.
‘Quero te convidar para ser meu vice’, diz a Moraes
Em tom irônico, Bolsonaro relatou ter feito uma brincadeira durante o depoimento ao ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito no STF: “Quero te convidar para ser meu vice”, disse. A declaração foi interpretada por muitos como uma provocação ao magistrado.
Rumo a 2026?
Ao final do dia, Bolsonaro fez uma declaração pública em tom de campanha:
“Hoje, saio do tribunal tranquilo e mais confiante de que serei o próximo Presidente da República para ajudar a tirar nosso país dessa bagunça.”
Apesar de estar inelegível até 2030 por decisão do TSE, Bolsonaro tenta se manter como principal liderança da oposição e aposta na mobilização popular para tentar reverter sua condição jurídica — ou manter influência sobre o pleito de 2026.