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Selic em 15%: BC deve manter juros no maior patamar desde 2006 em meio a incertezas econômicas e tarifaço dos EUA

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central inicia nesta terça-feira (29) sua quinta reunião de 2025, sob a sombra de um cenário externo cada vez mais imprevisível e um contexto doméstico ainda marcado por juros em níveis historicamente elevados. O encontro ocorre com forte expectativa de manutenção da taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas, conforme já amplamente antecipado por analistas e agentes do mercado financeiro.

A confirmação oficial da decisão virá na quarta-feira (30), mas já é tratado como certo, entre as principais casas de análise, que o BC não alterará a Selic neste momento. O Brasil, assim, seguirá com uma política monetária “significativamente contracionista”, como a própria autoridade monetária tem classificado nos últimos comunicados.

Em sua reunião anterior, realizada em junho, o Copom encerrou o ciclo de alta que vinha promovendo desde 2024, justamente ao alcançar a marca dos 15%. Na ocasião, indicou que manteria os juros em patamar elevado por tempo prolongado, como forma de assegurar o controle inflacionário e ancorar as expectativas para 2026.

Inflação em desaceleração reforça cautela do Banco Central

De lá para cá, os indicadores econômicos internos mostraram sinais positivos. As últimas leituras do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), principal termômetro da inflação no país, vieram dentro ou abaixo das projeções do mercado, o que indica um arrefecimento das pressões inflacionárias. No atacado, houve deflação em diversos segmentos, o que, com o tempo, tende a se refletir nos preços ao consumidor.

Além disso, embora a atividade econômica siga relativamente aquecida em alguns setores, há sinais crescentes de desaceleração, especialmente no consumo das famílias e na concessão de crédito. Esse conjunto de fatores levou analistas a avaliarem que o atual nível de juros é, de fato, suficientemente contracionista para continuar promovendo a desaceleração da inflação rumo à meta de 3% estipulada pelo Conselho Monetário Nacional.

“Os dados desde a última reunião do Copom foram, em geral, benignos. Isso fortalece a leitura de que a taxa Selic já atingiu um nível adequado para cumprir sua função de combate à inflação”, aponta relatório da XP Investimentos.

Ainda assim, a instituição financeira destaca que o momento exige vigilância redobrada, e o motivo está além das fronteiras brasileiras.

Tarifaço de Trump reacende riscos cambiais e pressões externas

A nova variável que começa a preocupar o mercado e o próprio Copom é o ambiente externo, mais especificamente as ameaças de restrições comerciais vindas dos Estados Unidos. Donald Trump, favorito nas pesquisas para as eleições presidenciais de novembro, tem prometido impor uma série de tarifas contra produtos brasileiros, o que reacende o temor de uma guerra comercial com impactos diretos sobre o câmbio, a inflação e o desempenho da balança comercial.

De um lado, a imposição de tarifas pode reduzir a demanda externa por produtos brasileiros, principalmente os agrícolas e industrializados, o que tende a aumentar a oferta interna e, assim, ter um efeito desinflacionário. De outro, há riscos relevantes associados à reação do mercado e às possíveis medidas de retaliação do governo brasileiro.

Caso o Brasil decida responder com aumento de tarifas para produtos importados dos EUA, como alguns setores da indústria já pressionam, a consequência pode ser oposta: aumento de preços e novo risco inflacionário. Além disso, um cenário de crise diplomática com os Estados Unidos poderia levar à desvalorização do real, com impacto imediato sobre os preços de combustíveis, alimentos e bens duráveis.

Essas possibilidades ainda estão no campo especulativo, mas já são suficientes para colocar o Copom em alerta. O comitê costuma considerar variáveis como a taxa de câmbio e a conjuntura internacional em suas projeções de inflação futura, o que pode fazer com que os juros fiquem elevados por mais tempo do que o previsto anteriormente.

Impacto no dia a dia: crédito caro e economia mais lenta

A decisão de manter a Selic em 15% tem efeitos diretos no cotidiano de empresas e consumidores. O crédito continua escasso e caro, o que freia investimentos e dificulta o acesso ao financiamento para consumo ou expansão de negócios. Com isso, o crescimento econômico tende a perder força, especialmente em setores dependentes de crédito, como construção civil, varejo e indústria.

Por outro lado, essa política tem contribuído para conter a inflação, que havia voltado a preocupar entre o fim de 2023 e o início de 2024. Agora, o desafio do Banco Central é equilibrar o controle de preços com a preservação da atividade econômica e, mais recentemente, com a necessidade de reagir a eventos internacionais que estão fora de seu controle direto.