Na mesma semana, dois episódios de trânsito chocaram — ou deveriam chocar — a cidade. Protagonistas diferentes, mas com o mesmo sobrenome blindado. De um lado, uma senhora de mais de 60 anos, do outro, seu neto. O elo entre ambos vai além do sangue: são parentes de um poderoso do Estado. E, como não poderia deixar de ser, continuam impunes.
O primeiro ato dessa tragédia foi protagonizado pela avó. Dirigindo enquanto mexia no celular, ela invadiu a contramão e atropelou uma professora. O acidente não deixou apenas marcas no asfalto: deixou uma família órfã de mãe, de esposa, de filha. A fatalidade tirou a vida de uma mulher que dedicava seus dias à sala de aula, enquanto a autora do atropelamento segue livre, blindada pelo sobrenome e pelo silêncio. Não houve sequer uma condolência pública, nem sinal de que a família poderosa cogitou prestar qualquer apoio aos entes queridos da vítima. A única coisa que sobrou foi a sensação de que a vida da professora vale menos que a influência política.
Dias depois, foi a vez do neto engrossar o histórico familiar. Embriagado, atropelou estrangeiros que circulavam pela cidade. Levou as vítimas a uma unidade de saúde — mas não por espírito de responsabilidade. Foi lá, nos corredores, que o espetáculo da impunidade ficou ainda mais nítido. Profissionais da saúde que atenderam os feridos relataram a esta redação a fala do pai do rapaz, filho da senhora do primeiro atropelamento: “Não vai dar em nada. São estrangeiros.”
Eis a lógica perversa de quem tem parentesco com poderoso do Estado: vidas viram estatística, tragédias viram rodapé, e a lei se curva ao peso de um sobrenome. Uma professora morta, estrangeiros atropelados, famílias dilaceradas — e do outro lado, a tranquilidade de quem sabe que o máximo que sofrerá é a indiscrição das conversas de esquina.
No fim das contas, a verdadeira contramão não foi apenas no trânsito. Foi também na Justiça, na moral e na consciência coletiva. E se há algo que une avó e neto, além do sangue, é a certeza de que, em certas famílias, a impunidade é hereditária.