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PF investiga sindicato de irmão de Lula em nova fase de operação

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (9) uma nova etapa da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de fraudes bilionárias envolvendo descontos associativos indevidos em aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Entre os alvos das 66 buscas e apreensões realizadas em oito estados, está a sede do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), em São Paulo, entidade na qual José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico e irmão mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ocupa o cargo de vice-presidente. Apesar da conexão familiar, Frei Chico não figura como investigado no inquérito, e as ações policiais concentraram-se na residência do presidente do sindicato, Milton Baptista de Souza Filho, e em endereços de diretores da instituição.

A operação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), busca aprofundar as apurações sobre crimes como inserção de dados falsos em sistemas oficiais, formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O esquema, revelado em abril de 2025 na primeira fase da investigação, já é estimado em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024, com quase 64% dos valores – R$ 4,1 bilhões – ocorrendo nos dois primeiros anos do governo Lula. Relatórios da PF e da Controladoria-Geral da União (CGU) apontam que sindicatos e associações, como o Sindnapi, realizavam descontos não autorizados nos contracheques de aposentados, muitas vezes com assinaturas falsificadas ou filiações irregulares, sem o cumprimento de requisitos como validação biométrica facial exigida pela Dataprev, estatal responsável pelos dados previdenciários.

O Sindnapi, filiado à Força Sindical, destaca-se como recordista em repasses: em 2024, recebeu o dobro do valor apontado inicialmente pela CGU, totalizando cerca de R$ 200 milhões em descontos associativos. Dados do INSS revelam um boom de filiações – mais de 100 mil em poucos anos –, seguido de 68 mil desligamentos entre 2022 e 2024, o que levanta suspeitas de “filiações fantasmas” para maximizar os repasses. A entidade rebate as acusações em nota oficial, manifestando “surpresa” com as buscas e afirmando que comprovará a “lisura e legalidade” de suas operações. O sindicato alega possuir um sistema avançado de filiação, com biometria facial e assinatura digital auditada por terceiros, validando 97% dos cadastros, e nega qualquer favorecimento governamental, apesar de o INSS ter dispensado temporariamente a exigência de biometria para a entidade em 2024.

Frei Chico, sindicalista histórico e aposentado pernambucano de 81 anos, ingressou no Sindnapi há mais de uma década, ascendendo de militante a vice-presidente sem, segundo a entidade, interferência de Lula. Em entrevistas anteriores, ele se disse “tranquilo” com as investigações, defendendo que elas atinjam “entidades picaretas” e negando irregularidades. Centrais sindicais, como a Força Sindical, saíram em sua defesa, atribuindo os “ataques” a motivações políticas para desgastar o governo. No Congresso, o partido Novo acionou o Tribunal de Contas da União (TCU) para suspender repasses ao Sindnapi e cobrar devoluções, enquanto uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre as fraudes no INSS ouve depoimentos, incluindo o de Milton Baptista ainda hoje.

O caso expõe fragilidades no sistema de descontos do INSS, que beneficiou 11 entidades no total, mas reacende debates sobre nepotismo e influência familiar no Planalto. A cúpula do INSS, incluindo o ex-presidente Alessandro Stefanutto, já foi afastada na fase inicial, e lobistas como Antônio Carlos Camilo, o “careca do INSS”, são figuras centrais na trama. Para o governo, o timing – em ano pré-eleitoral – amplifica o impacto político, com a oposição capitalizando o episódio para questionar a gestão fiscal e a transparência. A PF estima que as fraudes afetaram milhares de aposentados vulneráveis, desviando recursos destinados a serviços como saúde e seguros. Resta aguardar os desdobramentos das apreensões para esclarecer se o Sindnapi foi mero coadjuvante ou peça-chave no rombo previdenciário, enquanto o eleitorado observa se isso abalará ainda mais a imagem de um governo que prometia combater a corrupção.