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Direita organiza estratégia de resistência contra a indicação de Messias ao STF

A indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF) tem gerado um dos embates políticos mais intensos de 2025. Anunciada oficialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 16 de outubro, a escolha de Messias, um evangélico de 45 anos com sólida formação jurídica e proximidade com o Planalto, representa não apenas um aceno ao eleitorado religioso, mas também um movimento estratégico para fortalecer a ala petista na Corte. No entanto, a decisão esbarra em uma coalizão improvável: a direita bolsonarista, aliada à resistência do Centrão no Senado, que aposta em sua influência para barrar o nome e impor uma alternativa mais alinhada aos interesses do Congresso.

Messias, nascido em Recife e doutor em Direito pela Universidade de Brasília, construiu uma carreira exemplar como procurador da Fazenda Nacional desde 2007. Sua atuação na Advocacia-Geral da União (AGU) o tornou conhecido por defender pautas progressistas, como os direitos de minorias, e por um protagonismo institucional que ganhou elogios até de setores da oposição. Lula vê nele um homem de confiança, capaz de se manter por até 30 anos no STF, garantindo longevidade à agenda governista. Além disso, a indicação é interpretada como uma ponte para reconquistar o eleitorado evangélico, onde o PT enfrenta forte rejeição desde as eleições de 2022. Pesquisas recentes, como a Genial/Quaest de 12 de outubro, revelam que o grupo religioso se inclina majoritariamente para a direita, especialmente ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o que torna Messias uma aposta arriscada, mas calculada, para diluir essa polarização.

A reação da oposição não demorou a surgir. O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), classificou Messias como um “esquerdista evangélico” que não representa os valores da religião, sinalizando uma campanha de desqualificação ideológica. A direita, articulada em torno de figuras bolsonaristas, enxerga na indicação uma oportunidade de desgaste para o governo, especialmente após derrotas recentes, como a desidratação da MP fiscal na Câmara, onde o Centrão e aliados de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) impuseram um rombo bilionário às contas públicas. Essa vitória recente emboldena a oposição a pressionar pelo veto a Messias, argumentando que sua nomeação seria um “prêmio” ao PT em meio a crises de governabilidade.

O calcanhar de Aquiles da indicação, porém, reside no Senado, onde o processo de sabatina e aprovação é controlado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). Alcolumbre, em plena campanha para emplacar o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) na vaga, tem mobilizado lideranças do Centrão – o bloco de partidos de centro-direita que dita o ritmo das votações – para fechar questão contra qualquer nome que não seja o de Pacheco. Fontes reservadas revelam que o senador já advertiu: “Se vier qualquer outro nome, o Senado rejeita no dia seguinte”. Pacheco, jurista e ex-presidente do Senado, é visto como uma opção consensual, próxima a figuras como Gilmar Mendes e Renan Calheiros, e que abriria espaço para negociações no Tribunal de Contas da União (TCU). Essa articulação reflete o poder do Centrão, que, apesar de aliado tático do governo em pautas econômicas, resiste a concessões que fortaleçam o Executivo no Judiciário.

A divisão se aprofunda na própria bancada evangélica do Congresso, tradicional reduto bolsonarista. Pelo menos 28 deputados protestantes, como Silas Câmara (Republicanos-PR) e Cezinha de Madureira (PSD-SP), apoiam Messias por sua postura conservadora em temas como descriminalização de drogas e homotransfobia, comparando-o a surpresas positivas como o ministro Cristiano Zanin. No entanto, a ala mais radical, influenciada pelo bolsonarismo, o acusa de ser uma “peça do projeto petista”, temendo que ele dilua a influência religiosa na Corte. Líderes como Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) tentam mediar, elogiando Messias como um “servidor exemplar com convicções cristãs”, mas o racha expõe a fragilidade da estratégia lulista.

Em um cenário de erosão política, onde o governo enfrenta pressões fiscais e promessas eleitoreiras recicladas para 2026, a direita aposta alto na resistência do Centrão. Uma rejeição a Messias não só humilharia Lula, mas também sinalizaria o enfraquecimento de sua capacidade de barganha com o Legislativo. Enquanto isso, o Planalto mantém discrição, com Messias evitando agendas públicas e focando em contatos com líderes religiosos, como nas edições da Marcha para Jesus. O desfecho da sabatina, prevista para as próximas semanas, definirá não apenas o futuro da vaga no STF, mas o equilíbrio de forças em um Congresso cada vez mais fragmentado. Para a oposição, é a chance de transformar uma indicação em um turning point contra o petismo; para Lula, um teste de resiliência em tempos de crise.