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Alinhamento com Moraes e atuação contra Bolsonaro fazem Gonet perder apoio no Senado

Em um clima de tensão palpável no Congresso Nacional, o procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, garantiu nesta quarta-feira (12 de novembro de 2025) sua recondução ao comando do Ministério Público Federal (MPF) por mais dois anos, mas a vitória veio com um custo alto: uma erosão drástica de apoio no Senado, especialmente entre os bolsonaristas e a direita conservadora. Aprovado por 45 votos a 26 no plenário da Casa — o placar mais apertado para um PGR desde a redemocratização em 1988 —, Gonet viu seu respaldo cair de 65 votos favoráveis em 2023 para uma margem mínima de apenas quatro acima do necessário. O que explica essa guinada? Seu suposto alinhamento com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a atuação implacável contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados, vistos como uma traição aos ideais que o impulsionaram inicialmente ao cargo.

A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que precedeu a votação, transformou-se em um ringue político. Senadores da oposição, liderados por figuras como Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Jorge Seif (PL-SC), despejaram críticas ferinas sobre Gonet. “O senhor aceitou passivamente o Ministério Público Federal ser esculhambado. Foi ignorado em vários momentos pelo ministro Alexandre de Moraes e sequer consultava o MPF para tomar alguma iniciativa”, disparou Flávio, filho do ex-presidente, em um discurso carregado de emoção e acusações. Ele chegou a questionar a consciência de Gonet: “O senhor consegue chegar em casa, olhar nos olhos da sua esposa e ficar com a consciência tranquila?”. Seif, por sua vez, acusou o procurador de promover um “silêncio ensurdecedor” diante dos supostos abusos de Moraes, como a concentração de poderes em inquéritos sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Outros, como o senador Márcio Bittar (União-AC), que havia apoiado Gonet em 2023, anunciaram a mudança de voto: “O meu voto dessa vez o senhor não vai ter”.

No centro das controvérsias está a denúncia movida pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro, que resultou em sua condenação a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Gonet, que como vice-procurador-geral eleitoral já havia defendido a inelegibilidade do ex-presidente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é acusado de conivência com Moraes — relator de ações sensíveis no STF — em um “conluio” para perseguir adversários políticos. Críticos apontam uma “convergência alta” entre as manifestações da PGR e as decisões do ministro, sugerindo que o MPF se tornou uma mera “validadora” de inquéritos tidos como abusivos, motivados por “espírito de vingança” e parcialidade. A oposição também questionou a omissão de Gonet em apurar denúncias contra Moraes, como mensagens vazadas de seu ex-assessor Eduardo Tagliaferro, que expunham supostas irregularidades.

Gonet, católico devoto e conhecido por sua discrição, tentou navegar pelo furacão com respostas técnicas e institucionais, evitando mergulhos em casos concretos. “Não há alinhamento político com o ministro Moraes. Nossos contatos são administrativos, não jurisdicionais”, rebateu ele, reforçando a independência do MPF e sua admiração pela “idoneidade e dedicação” dos ministros do STF. Sobre a trama golpista, defendeu que a PGR atuou com “direito civilizado”, manifestando-se apenas nos autos para preservar a presunção de inocência, sem vazamentos. Questionado sobre a anistia aos condenados do 8 de janeiro, posicionou-se contra, argumentando que o perdão seria incompatível com a Constituição. E, em um aceno à oposição, prometeu não interferir em outros Poderes nem criminalizar a política, citando filósofos como Aristóteles e Tomás de Aquino para enfatizar a moralidade pública.

A recondução de Gonet, indicada pelo presidente Lula em 2023 com aval de Moraes e Gilmar Mendes, reflete o quanto o cenário político mudou em dois anos. Na época, sua imagem de “ultracatólico” e moderado em pautas de costumes conquistou a direita, que via nele um contrapeso ao progressismo. Hoje, porém, as denúncias contra Bolsonaro e a percepção de submissão ao STF viraram o jogo. Senadores do Centrão e da base governista, como o presidente da CCJ Otto Alencar (PSD-BA), defenderam o procurador como garante de “estabilidade institucional”, repreendendo excessos na oposição. Ainda assim, o episódio expõe fissuras profundas: a PGR, outrora símbolo de autonomia, é vista por bolsonaristas como engrenagem de uma “perseguição judicial”.

Enquanto Gonet assume o novo mandato até 2027, o episódio sinaliza um Senado mais polarizado, onde lealdades ideológicas pesam mais que indicações presidenciais. Para a oposição, a votação foi uma vitória moral, um grito contra o que chamam de “judicialização da política”. Para o governo, um alívio apertado, mas que reforça a necessidade de costurar alianças frágeis. Resta saber se Gonet, agora sob escrutínio redobrado, conseguirá reconquistar terreno ou se o desgaste o transformará em alvo permanente de uma guerra que vai além das urnas.