Pelo segundo mês consecutivo, o adiantamento salarial dos motoristas do transporte coletivo de Campo Grande não foi pago na data prevista. O Consórcio Guaicurus, responsável pelo sistema, voltou a informar ao sindicato que não dispõe de recursos para efetuar o depósito do chamado “vale”, normalmente creditado até o dia 20 de cada mês. A situação acendeu o sinal de alerta entre os trabalhadores, que agora temem que o atraso se estenda para a primeira parcela do 13º salário, prevista para ser paga até sexta-feira (28).
O presidente do STTCU-CG (Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande), Demétrio Freitas, disse que recebeu promessa de que o pagamento poderia sair ainda nesta terça-feira (25).
“Conversei com a empresa ontem, e a orientação foi para aguardarmos até hoje”, relatou. Segundo Freitas, a direção do consórcio voltou a justificar a falta de pagamento alegando insuficiência financeira.
Em novembro, o sindicato tolerou alguns dias além da data de costume por causa do feriado nacional de 20 de novembro, seguido do fim de semana. Mesmo assim, nenhum depósito foi feito até a manhã de segunda-feira (24), o que levou o sindicato a procurar novamente o Consórcio.
Freitas alerta que a situação preocupa diretamente o pagamento do 13º salário:
“Se o vale já está atrasado, existe o risco de prejudicar a parcela do 13º que vence na sexta-feira. A empresa sinalizou que também não tem dinheiro. O cenário é muito delicado”, afirmou.
Diante da instabilidade, o sindicato admite que uma nova paralisação pode ocorrer caso o pagamento não seja efetuado. “Se não cair, a chance de greve é real. Não vamos esperar por tempo indeterminado”, reforçou o presidente da entidade.
Um histórico de atrasos e desequilíbrio financeiro
Os problemas relacionados ao adiantamento salarial não são novos. Em outubro, o vale também foi pago com atraso — só caiu no dia 27, depois de um episódio controverso que ficou conhecido como “greve fake”, quando os terminais de ônibus amanheceram fechados por cerca de três horas.
Na ocasião, denúncias de ex-motoristas apontaram que a paralisação teria sido usada como mecanismo de pressão para que a Prefeitura liberasse novos repasses ao Consórcio. De fato, secretários municipais confirmaram que a administração adiantou R$ 2,3 milhões ao grupo no mesmo dia do incidente. Mesmo assim, os salários atrasados só foram pagos uma semana depois.
Levantamentos mostram que, apesar das alegações de falta de caixa, o Consórcio Guaicurus possui um contrato de operação válido até 2042 e movimentou cerca de R$ 1,8 bilhão entre 2013 e 2024 — uma média de R$ 180 milhões por ano, conforme perícia técnica realizada pelo Ibec Brasil no ano passado, a pedido dos próprios empresários.
Além disso, a empresa acumula quase R$ 7 milhões em débitos de ISS não repassados ao município ao longo dos últimos anos. O setor ainda é beneficiado por um regime de isenção do imposto desde 2022, mecanismo que vem sendo prorrogado desde 2013. Para 2025, a projeção é de que a prefeitura deixe de arrecadar R$ 9,5 milhões por causa dessa isenção.