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Divergência entre Michelle e filhos de Bolsonaro no Ceará pode respingar em aliança com Azambuja em MS

‘Racha’ na família sobre a união com Ciro Gomes (PSDB) pode se repetir com Reinaldo Azambuja e casamento com PL pode acabar sem “final feliz” para o ex-tucano

O que antes era exibido como uma família monolítica sob a bandeira do bolsonarismo transformou-se, em poucos meses, num campo de batalha aberto. O confronto público entre Michelle Bolsonaro e os quatro filhos do ex-presidente não é apenas um drama doméstico: é a luta sem disfarces pelo controle do único ativo que ainda sobrou da direita brasileira após a prisão e a inelegível de Jair Bolsonaro — seu capital político.

Com o patriarca fora de combate, o espólio está sendo disputado palmo a palmo, e o preço já aparece: alianças estratégicas congeladas, estados-chave em parafuso e um efeito dominó que ameaça transformar a oposição de 2026 num arquipélago de feudos em guerra. O terremoto começou no Ceará, mas os abalos secundários já sacodem Mato Grosso do Sul e prometem alcançar o país inteiro.

Em Fortaleza, Michelle subiu ao palanque e detonou publicamente a negociação que o PL vinha costurando com Ciro Gomes (PSDB) uma alinaça para Governo e Senado. Classificou a aliança de “precipitada”, lembrou que Ciro chamou Bolsonaro de genocida e comparou o acordo a “trocar Stalin por Lenin”. “Jamais negociarei meus valores”, sentenciou. A resposta dos filhos foi instantânea e feroz: Flávio disse que ela “atropelou” o próprio marido, que havia autorizado as conversas; Eduardo chamou a atitude de “injusta e desrespeitosa” com o articulador da aliança, André Fernandes; Carlos e Jair Renan engrossaram o coro. Resultado: o PL recuou humilhantemente em público, enterrando a negociação. Uma única voz familiar, quando dissonante, bastou para impor veto à estratégia do partido.

O episódio cearense não foi acidente; foi ensaio geral. Em Mato Grosso do Sul, o roteiro se repete com precisão cirúrgica. De um lado, a ala pragmática quer acolher o ex-governador Reinaldo Azambuja (ex-PSDB), político tradicional com estrutura e votos. Do outro, a ala ideológica, liderada pelo deputado federal Marcos Pollon — elogiado abertamente por Michelle e Eduardo —, trata a aproximação como traição imperdoável. Pollon já chamou publicamente os articuladores da aliança de “canalhas” e disse que o PL-MS “se vendeu para a porcaria do PSDB”. Ele próprio quer ser candidato ao governo.

O deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) durante discurso no caminhão de som utilizado no ato político.

No Senado, outra bomba-relógio, Bolsonaro, antes de ser preso, indicou a vice-prefeita de Dourados, Giani Nogueira, como sua candidata a vaga do Senado. Além do nome de Gianni, outro nome que vem se pondo como potencial candidato ao Senado Federal, é do ex-Deputado Estadual, Capitão Contar, que na tarde desta terça-feira (2) foi filiado ao PL em evento que contou com a presença do presidente nacional da sigla, Valdemar da Costa Neto, e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A vinda de Contar pode por em risco a vaga para o Senado outrora dada como certa a Reinaldo Azambuja, entretanto, após o “racha familiar” nem mesmo o mais otimistas dos governistas do Estado, acredita na certeza de tal afirmação.

PL recebe oficialmente Contar em cerimônia com “filho 01” de Bolsonaro.

O estrago nacional é devastador. Michelle posiciona-se como guardiã intransigente do legado ideológico; os filhos (especialmente Flávio e Eduardo) correm para construir suas próprias bases regionais de poder. Neste cenário, a situação em Mato Grosso do Sul tem sinalizado para um confronto que pode ser idêntico ao do Ceará — e com o mesmo poder de paralisia.

Em síntese, a suspensão da aliança com Ciro Gomes no Ceará foi o primeiro sinal de que o sobrenome Bolsonaro deixou de ser um comando unificado para se tornar um campo de batalha. Se o mesmo padrão se consumar em Mato Grosso do Sul — e tudo indica que sim —, deve jogar “água no chopp” do ex-Governador Reinaldo Azambuja que pode ter depositado suas fichas muito cedo ao Partido Liberal.