Mais de 200 agentes atuam em operação que investiga contrabando, lavagem de dinheiro e corrupção; bens bloqueados chegam a R$ 40 milhões
A região central de Campo Grande amanheceu sob forte presença policial nesta quarta-feira (18), com o fechamento completo do Camelódromo durante a deflagração da Operação Iscariotes, conduzida pela Polícia Federal em conjunto com a Receita Federal.
A ação, coordenada pela Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários (Delefaz/MS), tem como objetivo desarticular uma organização criminosa especializada na importação irregular de eletrônicos de alto valor, que ingressavam no país sem documentação fiscal e à margem dos controles aduaneiros.
O cenário no local foi de isolamento total. Com mais de 15 viaturas posicionadas, acessos bloqueados e presença de equipes descaracterizadas, a quadra onde funciona o centro comercial foi interditada. Apenas pessoas diretamente ligadas aos estabelecimentos alvo tiveram acesso liberado.

Durante o cumprimento dos mandados, agentes realizaram apreensão de mercadorias, celulares e equipamentos, além de vistoria em lojas situadas dentro e no entorno do Camelódromo. Uma empresa ligada a uma mesma família teve quatro estabelecimentos interditados.
Segundo as investigações, o esquema operava de forma estruturada. Após a entrada ilegal no país, os produtos eram fracionados e distribuídos, muitas vezes ocultos em meio a cargas lícitas, com destino a Mato Grosso do Sul e também a cidades de Minas Gerais, como Belo Horizonte, Vespasiano e Montes Claros.
Para viabilizar o transporte, o grupo utilizava veículos adaptados com compartimentos ocultos, estratégia recorrente em operações de descaminho e contrabando em larga escala.
Além disso, há indícios de que os recursos obtidos eram submetidos a processos de ocultação e dissimulação, caracterizando lavagem de dinheiro.
Ao todo, a Justiça Federal expediu cerca de 90 ordens judiciais, incluindo:
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31 mandados de busca e apreensão
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4 prisões preventivas
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bloqueio de aproximadamente R$ 40 milhões
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sequestro de imóveis e veículos
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suspensão de atividades empresariais
Mais de 200 agentes participam da operação, que conta ainda com apoio de corregedorias e forças estaduais.

Quando o aparato de segurança passa a operar a favor do crime
Um dos pontos mais sensíveis revelados pela Operação Iscariotes é a participação direta de agentes de segurança pública no funcionamento da organização criminosa.
Foram presos preventivamente os policiais civis Célio Rodrigues Monteiro, conhecido como “Manga Rosa”, e Edivaldo Quevedo da Fonseca. Os mandados foram cumpridos em residências e também em unidades policiais.
De acordo com a apuração, os agentes não apenas tinham conhecimento das atividades ilícitas, mas atuavam de forma ativa, incluindo:
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acesso e repasse de informações sigilosas de sistemas policiais
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monitoramento de ações de fiscalização
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apoio logístico no transporte de mercadorias
A presença de agentes públicos confere ao esquema um grau de proteção e previsibilidade que dificulta a atuação repressiva.
No caso de “Manga Rosa”, chama atenção o histórico. O investigador já havia sido alvo de operações anteriores, como a Omertà, em 2020, e a Snow, em 2024, ambas relacionadas a organizações criminosas. Ainda assim, permanecia na ativa, com remuneração superior a R$ 14 mil.
Além das prisões, a Justiça determinou:
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afastamento de servidores públicos
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suspensão de porte de arma
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uso de tornozeleira eletrônica em investigados
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bloqueio de bens de pessoas físicas e jurídicas
As investigações também apontam que policiais — inclusive aposentados — eram recrutados para fornecer suporte estratégico ao grupo, ampliando a capacidade de atuação da organização.
A atuação das corregedorias foi acionada, mas até o momento não houve manifestação oficial detalhada sobre os casos.
A conta invisível que recai sobre o contribuinte
Embora a imagem mais visível da Operação Iscariotes seja o fechamento do Camelódromo e a apreensão de mercadorias, o impacto mais profundo ocorre fora das câmeras.
O modelo de negócio identificado — importar sem tributar, distribuir sem controle e vender com alta margem — cria uma economia paralela que compromete diretamente o mercado formal.
Empresas que operam dentro da legalidade enfrentam:
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carga tributária elevada
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custos regulatórios
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fiscalização constante
Já organizações criminosas ampliam competitividade justamente por ignorar essas exigências.
O resultado é um ambiente de concorrência desleal, onde o produto ilegal chega ao consumidor com preços mais baixos, pressionando comerciantes regulares e desestimulando a formalização.
Além disso, há perda direta de arrecadação, afetando a capacidade do Estado de investir em serviços públicos.
A presença de agentes públicos no esquema agrava ainda mais o cenário. Não se trata apenas de omissão, mas de participação ativa na sustentação da atividade criminosa.
Outro ponto relevante é o padrão observado: estruturas desse porte não surgem de forma repentina. Elas se consolidam ao longo do tempo, explorando brechas, falhas de fiscalização e, em alguns casos, proteção institucional.
Quando a resposta estatal ocorre, como agora, o dano já está disseminado.