Filho de paraguaios, radialista e advogado, Bernal derrotou em 2012 um poderoso arco político liderado pelo então governador André Puccinelli e pelo prefeito Nelsinho Trad. Poucos meses depois, passou a enfrentar sucessivos embates com a Câmara Municipal, Tribunal de Contas, Ministério Público e setores do Judiciário, em uma crise que culminaria na primeira cassação de um prefeito da Capital.
A morte de Alcides Bernal, na madrugada desta segunda-feira (13), aos 60 anos, faz Campo Grande revisitar uma das eleições mais emblemáticas e uma das crises políticas mais marcantes de sua história. Muito antes da cassação que dividiu opiniões e da investigação da Operação Coffee Break, o ex-prefeito protagonizou uma vitória considerada improvável ao derrotar um dos grupos políticos mais poderosos de Mato Grosso do Sul e romper uma hegemonia que dominava a Capital havia décadas.
Quando Alcides Bernal venceu a eleição para prefeito de Campo Grande, em 2012, poucos imaginavam que aquele resultado marcaria uma das maiores rupturas políticas da história recente da Capital. Radialista, apresentador de televisão, advogado, vereador por dois mandatos e deputado estadual, Bernal chegou ao comando do Executivo municipal como um candidato considerado “fora do sistema”, derrotando uma estrutura política consolidada havia décadas.
Filho de paraguaios e nascido em Corumbá, Bernal construiu sua carreira na comunicação antes de ingressar definitivamente na política. O estilo popular, aliado ao discurso de enfrentamento aos grupos tradicionais, fez dele uma das figuras públicas mais conhecidas da Capital.
Na disputa pela Prefeitura, enfrentou Edson Giroto, candidato apoiado por uma das maiores estruturas políticas já montadas em Mato Grosso do Sul. Giroto tinha ao seu lado o então governador André Puccinelli (MDB), o então prefeito Nelsinho Trad (MDB) e um amplo arco de alianças partidárias que reunia legendas de diferentes espectros ideológicos.
Mesmo diante desse cenário, Bernal venceu o segundo turno com cerca de 63% dos votos válidos, protagonizando uma das maiores vitórias eleitorais da história de Campo Grande.
A eleição representou muito mais do que uma simples alternância de poder. Para muitos analistas políticos da época, simbolizou o rompimento de uma hegemonia construída ao longo de décadas pelos grupos tradicionais que comandavam a política da Capital.
Mas a estabilidade do novo governo duraria pouco.
As primeiras resistências
Ainda antes da posse, Bernal já enfrentava dificuldades impostas pelo Legislativo. A Câmara Municipal aprovou medidas que congelaram o valor do IPTU e reduziram de 30% para apenas 5% a margem de suplementação orçamentária da Prefeitura, diminuindo significativamente a capacidade de gestão financeira da nova administração.
Nos meses seguintes, segundo o próprio Bernal relataria anos depois, começaram as primeiras pressões políticas.
O ex-prefeito dizia que passou a receber aquilo que chamava de “propostas indecentes” para acomodar interesses políticos dentro da administração municipal. Também afirmava ter percebido movimentações do então vice-prefeito Gilmar Olarte, que, segundo sua versão, já articulava a formação de um secretariado paralelo e buscava apoio político para uma eventual mudança no comando da Prefeitura.
Bernal sustentava que, entre o quarto e o quinto mês de governo, já tinha convicção de que havia uma articulação para afastá-lo do cargo.
O cerco institucional
Ao longo de 2013, a administração passou a enfrentar sucessivos conflitos.
No Tribunal de Contas do Estado, o conselheiro Ronaldo Chadid suspendeu o projeto de modernização da iluminação pública com a implantação de luminárias de LED e aplicou multa de R$ 100 mil ao prefeito.
Outro conselheiro, Waldir Neves Barbosa, também passou a questionar atos relacionados à suplementação orçamentária, tema que se transformaria em um dos principais focos de embate entre Executivo e órgãos de controle.
No Ministério Público Estadual, o promotor Alexandre Capibaribe Saldanha ingressou com ação de improbidade administrativa pedindo o afastamento imediato de Bernal da Prefeitura.
O pedido, entretanto, foi rejeitado pelo juiz Amaury da Silva Kuklinski, da 1ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, que negou a liminar para retirar o prefeito do cargo.
Enquanto isso, outro conflito se intensificava.
A relação da Prefeitura com empresas contratadas pela administração anterior tornou-se um dos principais pontos de tensão da gestão.
A Solurb, responsável pela coleta de lixo, passou a disputar judicialmente pagamentos cobrados do município. Em uma das decisões mais relevantes da época, o desembargador Geraldo de Almeida Santiago concedeu liminar determinando que a Prefeitura efetuasse os pagamentos reivindicados pela concessionária.
Bernal defendia que só deveriam ser quitados os serviços efetivamente medidos pelos fiscais do município e chegou a recorrer à Justiça do Trabalho para garantir o pagamento direto dos salários dos garis por intermédio do sindicato da categoria.
Também foram alvo de questionamentos contratos da empresa Total, responsável pela limpeza das unidades de saúde, que, segundo Bernal, haviam sido ampliados significativamente nos últimos dias da administração anterior.
A Câmara entra em cena
Foi nesse ambiente de crescente desgaste que a Câmara Municipal instalou, em junho de 2013, a chamada CPI do Calote.
Presidida pelo então vereador Paulo Siufi (MDB) e relatada por Elizeu Dionízio (PSDB), a comissão investigava supostos atrasos em pagamentos realizados pela Prefeitura.
Posteriormente, foi criada a Comissão Processante que analisaria a cassação do prefeito.
A comissão passou a ser presidida por Edil Albuquerque, enquanto a relatoria ficou sob responsabilidade do então vereador Flávio César (PSDB), atual secretário estadual de Fazenda.
Bernal recorreu sucessivamente ao Poder Judiciário para tentar suspender os trabalhos da comissão e impedir o avanço do processo político.
Em determinado momento, os vereadores chegaram a marcar a sessão de julgamento para o período do Natal de 2013, mas uma decisão judicial acabou suspendendo a votação.
Meses depois, o ministro Félix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça, autorizou o prosseguimento do processo.
Na madrugada de 13 de março de 2014, por 23 votos favoráveis, a Câmara Municipal aprovou a cassação de Alcides Bernal, tornando-o o primeiro prefeito da história de Campo Grande a perder o mandato por decisão do Legislativo.
Naquele momento, encerrava-se apenas o primeiro capítulo de uma crise política que ainda provocaria profundas reviravoltas. Nos meses seguintes, uma investigação conduzida pelo Gaeco começaria a lançar novas luzes sobre os bastidores da cassação e mudaria significativamente a compreensão dos acontecimentos que marcaram aquele período da história política de Mato Grosso do Sul.
Gaeco concluiu que houve articulação para afastar Bernal da Prefeitura de Campo Grande
Quando Alcides Bernal reassumiu a Prefeitura de Campo Grande, em agosto de 2015, após permanecer um ano e cinco meses afastado do cargo, a maior reviravolta daquela crise política ainda estava por acontecer. Enquanto o ex-prefeito retornava ao Paço Municipal por decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) aprofundava uma investigação que mudaria a forma como parte da opinião pública e dos operadores do Direito passou a enxergar os bastidores da cassação ocorrida em março de 2014.
Batizada de Operação Coffee Break, a investigação reuniu milhares de páginas de documentos, interceptações telefônicas, análises financeiras e depoimentos. Ao final, o Gaeco concluiu que empresários e agentes políticos teriam atuado de forma coordenada para garantir votos suficientes à cassação de Bernal, apontando a existência de uma associação criminosa voltada ao seu afastamento do comando da Prefeitura.
A operação nasceu da investigação dos bastidores da cassação
As apurações começaram em julho de 2015 e culminaram, em 25 de agosto daquele ano, na deflagração da Operação Coffee Break.
Naquela manhã, nove vereadores foram conduzidos coercitivamente para prestar esclarecimentos ao Gaeco. A operação também resultou no afastamento do então prefeito Gilmar Olarte (PP) e do então presidente da Câmara Municipal, Mario Cesar Fonseca (PMDB), por suspeitas relacionadas aos fatos investigados.
O nome da operação fazia referência à expressão “cafezinho”, utilizada, segundo o Ministério Público, por investigados para se referirem ao pagamento de propina durante as articulações políticas.
O impacto foi imediato. Campo Grande voltou a mergulhar em uma crise institucional justamente no período em que Bernal lutava para reassumir o cargo.
Um relatório de milhares de páginas
Ao concluir as investigações, o Gaeco apresentou um relatório de 245 páginas, inserido em um procedimento investigatório que somava aproximadamente 4,8 mil páginas distribuídas em 24 volumes.
Somente um dos aparelhos celulares apreendidos durante a operação gerou cerca de 40 mil páginas de conversas e documentos analisados pelos investigadores.
Segundo o coordenador do Gaeco à época, promotor Marcos Alex Vera de Oliveira, as provas reunidas permitiram identificar movimentações financeiras consideradas incompatíveis com a renda declarada de alguns investigados, além de documentos, registros bancários e elementos que indicariam a prática de corrupção ativa, corrupção passiva e associação criminosa.
“O que está claro é que houve uma associação de pessoas que, por interesses políticos e empresariais, articularam um plano para obter votos favoráveis à cassação do prefeito Alcides Bernal”, afirmou o promotor ao apresentar as conclusões da investigação.
Compra de apoio e movimentações financeiras
De acordo com o relatório, três pessoas teriam atuado diretamente para angariar votos favoráveis ao afastamento de Bernal, realizando reuniões e oferecendo vantagens indevidas.
Os investigadores também apontaram movimentações financeiras consideradas muito superiores aos rendimentos declarados por alguns dos envolvidos.
Ao divulgar o resultado da investigação, o Gaeco apresentou como exemplo o caso de um vereador que declarou rendimento anual de aproximadamente R$ 393 mil em 2013, mas movimentou cerca de R$ 4,3 milhões em contas bancárias no mesmo período.
Segundo o Ministério Público, cinco personagens exerceram papel central na articulação política investigada, reunindo empresários e agentes públicos em torno do objetivo de retirar Bernal do comando da Prefeitura.
O diário que chamou a atenção dos investigadores
Entre os elementos considerados mais relevantes pelos promotores estava um diário encontrado em um tablet pertencente à esposa de um dos investigados.
Conforme o Gaeco, as anotações registravam reuniões, encontros e articulações relacionadas à cassação de Bernal muito antes da conclusão da Comissão Processante instalada pela Câmara Municipal.
Para os investigadores, o material reforçava a tese de que o afastamento do prefeito vinha sendo planejado paralelamente ao processo político conduzido pelo Legislativo.
Além disso, a investigação identificou indícios de remessas de recursos ao exterior e documentos relacionados a outras apurações de corrupção, fatos que também passaram a integrar o conjunto probatório analisado pelo Ministério Público.
A volta de Bernal e uma nova leitura sobre a crise
No mesmo período em que a Coffee Break ganhava repercussão estadual, o Tribunal de Justiça determinava o retorno de Alcides Bernal ao cargo de prefeito.
Após um ano e cinco meses afastado, ele voltou ao Paço Municipal afirmando encontrar uma Prefeitura “quebrada”.
Embora a decisão judicial que o reconduziu ao cargo não estivesse fundamentada nas conclusões da Operação Coffee Break, o avanço das investigações trouxe novos elementos para compreender os bastidores da crise política iniciada em 2013.
Ao apontar a existência de uma articulação para garantir sua cassação, o relatório do Gaeco passou a ocupar posição central no debate público sobre aquele período, alimentando discussões políticas e jurídicas que se estenderiam pelos anos seguintes.
Uma investigação que permanece como marco político
A Operação Coffee Break consolidou-se como uma das investigações mais emblemáticas da história política de Mato Grosso do Sul. Mais do que seus desdobramentos judiciais, ela alterou o debate sobre a queda de Alcides Bernal e reforçou a dimensão institucional da crise vivida por Campo Grande entre 2013 e 2015.
Para aliados do ex-prefeito, as conclusões do Gaeco corroboravam a narrativa de que seu afastamento foi resultado de uma articulação política organizada. Já os desdobramentos judiciais seguiram caminhos próprios ao longo dos anos.
Independentemente das diferentes interpretações sobre o caso, a Coffee Break tornou-se um divisor de águas na política sul-mato-grossense. Ao revelar os bastidores de um dos episódios mais marcantes da história da Capital, a operação passou a integrar de forma definitiva a trajetória de Alcides Bernal e permanece como referência obrigatória para compreender aquele período que transformou a política de Campo Grande