Defesa alegou que Joatan precisa auxiliar a filha com síndrome de Down e a mãe, que passou recentemente por cirurgia.
Um dos empresários apontados pelo Gaeco como responsável pela Editora Avante, Joatan Gomes Peixoto, deixará a prisão para cumprir medida cautelar em casa, com monitoramento por tornozeleira eletrônica.
A conversão da prisão preventiva em domiciliar foi determinada pela Justiça nesta quinta-feira, 16 de julho. A saída ocorre nesta sexta-feira, 17, e a nova medida deverá permanecer em vigor por, no mínimo, 180 dias.
Joatan é investigado na Operação Gutenberg, que apura um suposto esquema envolvendo mais de R$ 27 milhões em recursos públicos, principalmente por meio de contratos firmados entre prefeituras e empresas fornecedoras de livros paradidáticos.
Segundo a defesa, representada pelo advogado André Stuart, o pedido foi fundamentado em razões humanitárias. Joatan teria necessidade de prestar assistência à filha, que possui síndrome de Down, e à mãe, submetida recentemente a uma cirurgia.
A decisão não revoga a investigação nem representa absolvição. O empresário continuará submetido às restrições impostas pela Justiça e deverá permanecer monitorado eletronicamente durante o cumprimento da prisão domiciliar.
Recebeu R$ 521 mil da Avante
Embora a decisão tenha considerado a situação familiar do investigado, os documentos da Operação Gutenberg atribuem a Joatan participação relevante na movimentação financeira da Editora Avante.
De acordo com relatório produzido após a quebra do sigilo bancário, ele recebeu R$ 521.360,91 em créditos diretamente enviados pela empresa.
O mesmo levantamento mostra que Joatan também transferiu R$ 307.160 para a Avante. Nos dois sentidos, a circulação de dinheiro entre o empresário e a editora alcançou R$ 828.520,91.
O Gaeco busca esclarecer qual era a justificativa comercial dessas operações, se havia contratos, empréstimos, distribuição de lucros ou prestação efetiva de serviços e como esses valores se relacionavam com os recursos recebidos pela editora de municípios.
A existência de transferências financeiras entre uma empresa e seu sócio não constitui crime automaticamente. No entanto, a quantidade, a recorrência e a proximidade das operações com pagamentos públicos despertaram a atenção dos investigadores.
Pagamentos depois da entrada de recursos públicos
O relatório bancário da investigação compara os depósitos feitos por municípios e fundos públicos com as transferências realizadas pela Avante nos dias seguintes.
Em uma das sequências, Joatan recebeu cinco pagamentos:
R$ 20.121,03;
R$ 49 mil;
R$ 19 mil;
R$ 30 mil;
R$ 49 mil.
Os repasses totalizaram R$ 167.121,03. O documento registra que as movimentações ocorreram na data do recebimento de recursos pela editora ou nos dias subsequentes.
Em outro bloco, o empresário recebeu R$ 1.038, R$ 1.423, R$ 11.130,72, R$ 15 mil e R$ 30 mil, totalizando mais R$ 58.591,72.
Há ainda transferências de R$ 12.821,90 e R$ 100 mil, que somaram R$ 112.821,90.
O relatório também relaciona outros pagamentos menores, como R$ 5 mil, R$ 1,5 mil e R$ 6.728,28, além de novos depósitos de R$ 7.470, R$ 49 mil e R$ 10.728,54.
Ao reunir as operações identificadas, o Gaeco chegou aos R$ 521.360,91 recebidos por Joatan.
Entrada no comando formal da editora
Joatan não aparece apenas como destinatário de valores.
Em janeiro de 2025, durante o andamento da investigação, o Gaeco constatou que a Editora Avante havia alterado sua razão social e passado a ter o empresário como sócio-administrador.
A descoberta levou os promotores a determinarem um levantamento completo sobre Joatan, suas atividades econômicas e seus vínculos empresariais.
O cadastro da Receita Federal anexado ao procedimento mostrava a empresa com capital social de R$ 300 mil e Joatan como responsável pela administração.
O Gaeco pretendia verificar se a alteração correspondia a uma mudança efetiva no controle da editora ou se fazia parte de uma sucessão de proprietários formais.
Gaeco aponta controle da família Jafar
Segundo a linha de investigação, a Editora Avante teria sido controlada de maneira informal por integrantes da família Jafar.
A cirurgiã-dentista e empresária Rossana Paroschi Jafar é apontada como uma das principais lideranças do grupo. Também aparecem na investigação seus filhos Olívia, Felipe e Giovanni Paroschi Jafar, além de Rhayane Souza Fanaia, ex-nora da empresária.
Rhayane figurou inicialmente como proprietária formal da Avante. Posteriormente, a empresa passou por alterações societárias e apareceu em nome de outras pessoas, entre elas Joatan e Valesca Thais Albuquerque Teixeira.
Para o Gaeco, essas mudanças precisam ser analisadas para determinar quem realmente administrava a empresa, tomava decisões, negociava contratos e definia o destino do dinheiro.
Contratos públicos e R$ 27 milhões
A Operação Gutenberg apura contratos de fornecimento de livros firmados com diversas prefeituras de Mato Grosso do Sul.
A suspeita é de que empresas ligadas ao grupo tenham movimentado mais de R$ 27 milhões em recursos públicos por meio dessas contratações. Documentos da investigação apontam negócios realizados predominantemente por inexigibilidade de licitação e levantam dúvidas sobre a notoriedade e a exclusividade atribuídas à Avante.
O Gaeco também requisitou documentos de municípios como Campo Grande, Dourados, Ivinhema, Miranda, Angélica, Douradina, Itaporã, Bonito, Ladário, Deodápolis, São Gabriel do Oeste, Rochedo e Cassilândia.
A apuração procura identificar:
como a Avante foi escolhida;
quem intermediava as vendas;
quais documentos justificavam as contratações diretas;
se os livros foram entregues;
como os preços foram calculados;
e para onde o dinheiro seguiu depois dos pagamentos públicos.
Mesmo investigada, Avante continuou contratando
Depois de assumir formalmente a administração da editora, Joatan passou a representá-la em contratos com o poder público.
Em outubro de 2025, ele assinou, em nome da Avante, um contrato de R$ 226.480 com a Prefeitura de Japorã.
A contratação, realizada por inexigibilidade, previa o fornecimento de livros paradidáticos destinados a estudantes da rede municipal e utilizava recursos vinculados ao Fundeb.
O contrato foi celebrado quando a empresa já figurava no procedimento investigatório conduzido pelo Ministério Público.
Esse ponto permite ao Gaeco verificar se as vendas continuaram sendo negociadas da mesma forma após as alterações no quadro societário e qual era a participação efetiva de Joatan na expansão dos negócios.
De beneficiário financeiro a administrador
Os documentos colocam Joatan em diferentes posições dentro do caso.
Primeiro, ele aparece como beneficiário de transferências feitas pela Avante. Depois, surge transferindo valores à própria editora. Em seguida, passa a figurar oficialmente como sócio-administrador e a assinar contratos públicos em nome da empresa.
Essa cronologia é um dos principais pontos que deverão ser esclarecidos em seu interrogatório.
A investigação deverá buscar respostas para perguntas como:
quando Joatan começou efetivamente a atuar para a Avante;
qual era sua relação com Rhayane e a família Jafar;
por que recebeu R$ 521 mil da empresa;
qual foi a origem dos R$ 307 mil transferidos por ele;
que serviços ou negócios justificaram as operações;
e quem exercia o controle real da editora.
Prisão domiciliar não encerra o caso
Joatan aparece na relação de investigados que o Gaeco determinou que fossem interrogados na Operação Gutenberg. A lista inclui integrantes da família Jafar, empresários, servidores e outros suspeitos de participação no esquema.
Com a decisão judicial, o empresário deixa o sistema prisional, mas continuará sob custódia do Estado em regime domiciliar e monitoramento eletrônico.
A concessão foi fundamentada na situação familiar apresentada pela defesa. A medida não afasta Joatan da investigação, não cancela as provas já obtidas e não impede o prosseguimento das diligências.
A Operação Gutenberg permanece em andamento. Joatan Gomes Peixoto e os demais investigados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.