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Venda do Consórcio Guaicurus vinha sendo preparada desde abril e intervenção acelerou negócio

Funcionários perceberam mudanças incomuns desde abril, enquanto o consórcio negava qualquer negociação; auditorias financeiras e visitas técnicas antecederam a venda para a HP Mobilidade.

Embora a confirmação da venda do Consórcio Guaicurus para a HP Mobilidade tenha sido anunciada oficialmente apenas nesta terça-feira (21), os bastidores da operação mostram que a negociação começou muito antes da assinatura do contrato.

Levantamento do O Contribuinte aponta que, desde abril, quando a Justiça determinou que a Prefeitura de Campo Grande desse início ao procedimento de pré-intervenção, sinais claros passaram a surgir dentro das empresas que integram o consórcio.

Funcionários começaram a relatar uma intensa movimentação de pessoas desconhecidas nas garagens, visitas frequentes de técnicos e consultores e uma rotina completamente diferente da habitual.

Na época, poucos entendiam o motivo. Hoje, com a venda confirmada, essas movimentações fazem sentido: a empresa já se preparava para uma possível mudança de controle.

A pré-intervenção mudou o cenário

A determinação judicial para que a Prefeitura avançasse no processo de pré-intervenção representou um divisor de águas para o Consórcio Guaicurus.

Até então, apesar das multas, das cobranças administrativas e das reclamações da população, a concessionária permanecia administrando normalmente o transporte coletivo.

Com a possibilidade concreta de uma intervenção — e até mesmo de uma futura caducidade do contrato — o ambiente empresarial mudou.

Foi justamente nesse período que começaram as conversas para uma eventual venda das empresas que compõem o sistema.

A avaliação de fontes ouvidas pelo O Contribuinte é de que o avanço da intervenção acelerou as negociações, uma vez que aumentou o risco jurídico e financeiro para os antigos controladores.

João Rezende voltou às garagens

Outro detalhe que chamou a atenção dos funcionários foi o retorno de um personagem que, segundo relatos, já não frequentava diariamente as operações.

João Rezende, diretor ligado ao Consórcio Guaicurus, passou a aparecer constantemente nas garagens.

Trabalhadores relataram surpresa com a mudança de rotina.

Segundo funcionários, ele passou a acompanhar de perto a operação, conversar com equipes e observar o funcionamento das empresas.

O movimento foi interpretado, na época, como algo incomum.

Hoje, diante da confirmação da venda, a presença mais constante do dirigente é vista como parte do processo de preparação para a transição.

Empresa goiana já fazia avaliações

Outro fato observado pelos trabalhadores foi a presença de representantes ligados ao grupo empresarial de Goiás.

Os visitantes passaram dias avaliando estruturas, garagens, oficinas, veículos e instalações operacionais.

Essas visitas ocorreram antes mesmo da divulgação pública da negociação.

Na prática, tratava-se de inspeções técnicas para conhecer a realidade das empresas que poderiam ser adquiridas.

Esse tipo de avaliação costuma fazer parte das etapas iniciais de operações de compra e venda de grandes grupos empresariais.

Auditoria fez um raio-X do consórcio

Antes de fechar qualquer negócio, investidores normalmente contratam auditorias independentes para avaliar riscos.

Foi exatamente isso que ocorreu.

O Consórcio Guaicurus passou por um processo conhecido no mercado como due diligence, uma auditoria completa destinada a examinar a situação financeira, contábil, jurídica, operacional e patrimonial da empresa.

Na prática, funciona como um verdadeiro raio-X do negócio.

Esse levantamento permite ao comprador identificar dívidas, passivos trabalhistas, contratos, ações judiciais, obrigações futuras e o real estado financeiro da empresa.

Segundo informações obtidas pelo O Contribuinte, estudos ambientais e levantamentos operacionais também fizeram parte dessa fase preparatória.

Negociações sempre foram negadas

Apesar das evidências observadas nos bastidores, o Consórcio Guaicurus sempre negou publicamente que estivesse negociando a venda.

Quando questionada anteriormente, a empresa classificava toda a movimentação como “processos corporativos”.

Também afirmava que qualquer eventual alteração dependeria da autorização prévia do poder concedente, no caso, a Prefeitura de Campo Grande.

Tecnicamente, a afirmação estava correta.

Como o transporte coletivo é prestado mediante concessão pública, a mudança de controle das empresas somente pode produzir efeitos após a anuência do município.

Entretanto, a negativa pública contrastava com a intensa movimentação observada dentro das empresas.

Intervenção mudou completamente o cenário

A intervenção decretada pela Prefeitura acabou alterando definitivamente o ambiente das negociações.

Além da troca temporária da administração, os interventores passaram a ter acesso às informações financeiras, operacionais e administrativas das empresas.

O processo também abriu caminho para auditorias mais profundas e para a análise da real situação do sistema de transporte coletivo.

Ao mesmo tempo, aumentou a pressão política e jurídica sobre os antigos controladores.

Foi nesse contexto que o contrato de compra e venda acabou sendo firmado em 18 de julho.

Três dias depois, a negociação foi comunicada oficialmente à Prefeitura.

Venda ainda não está concluída

Apesar da assinatura entre os grupos privados, a operação ainda depende de uma etapa considerada decisiva.

A Prefeitura precisa analisar toda a documentação e autorizar a transferência das empresas para a HP Mobilidade.

Durante a coletiva desta terça-feira, a prefeita Adriane Lopes deixou claro que a nova empresa somente assumirá a concessão se apresentar um plano consistente para transformar o transporte coletivo.

Isso significa que, até a conclusão dessa análise, a intervenção permanece normalmente.