Relatório reúne diálogo sobre reunião com o prefeito de Ivinhema, promessa de “vaga garantida” e negociação envolvendo a saúde do município. Meses antes, a prefeitura havia ampliado para R$ 874 mil o contrato com a Editora Avante.
A história de Ivinhema dentro da Operação Gutenberg deixou de se limitar a um contrato de livros celebrado sem concorrência e ampliado em apenas 22 dias.
Novas conversas reproduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado revelam que, meses depois da compra de materiais da Editora Avante, investigados continuavam discutindo a Prefeitura de Ivinhema, novos serviços, demandas da saúde e uma reunião com o prefeito Juliano Ferro, do PL, conhecido nacionalmente como o “prefeito mais louco do Brasil”.
Em um dos trechos mais contundentes do relatório, o advogado Gabriel Taquino de Paula informa que teria uma reunião com o prefeito. Na conversa, ele menciona um paciente, pede ajuda ao então coordenador estadual da Regulação Assistencial, Ed Carlos Brito Burgatt, e recebe a seguinte resposta:
“Fala pra ele resolver tudo que você saindo da sala a vaga está garantida kkkkk.”
Gabriel, então, expõe o que pretendia alinhar com a administração municipal:
“Se ele fechar o CAPS com a gente, nós prometemos resolver a saúde dele.”
A sequência, na leitura apresentada pelo Gaeco, concentra o eixo central da Operação Gutenberg: a suspeita de que serviços, contratos e interesses privados eram negociados paralelamente a soluções oferecidas pela estrutura estadual da saúde.
O relatório não afirma, apenas com base nessa conversa, que Juliano Ferro aceitou a proposta, fechou o contrato mencionado ou recebeu vantagem. Também não atribui ao prefeito a autoria das mensagens. O que o documento mostra é que o nome da prefeitura e a reunião com o chefe do Executivo aparecem no diálogo entre dois investigados.
Uma reunião com o prefeito e um paciente grave
A conversa ocorreu em 6 de janeiro de 2023.
Gabriel encaminhou a Ed Carlos um documento identificado no relatório como pertencente à Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde. Em seguida, escreveu:
Gabriel Taquino: “Ivinhema.”
Depois, acrescentou:
Gabriel Taquino: “Tenho uma reunião segunda com o pref.”
Gabriel Taquino: “Se conseguir ajudar…”
Foi nesse momento que Ed Carlos respondeu:
Ed Carlos: “Fala pra ele resolver tudo que você saindo da sala a vaga está garantida kkkkk.”
Gabriel prosseguiu:
Gabriel Taquino: “Nós vamos alinhar.”
Gabriel Taquino: “Eu sou parte interessada.”
Gabriel Taquino: “Se ele fechar o CAPS com a gente.”
Gabriel Taquino: “Nós prometemos resolver a saúde dele.”
Ed Carlos respondeu:
Ed Carlos: “Caso difícil esse, mas não impossível.”
Na sequência, Gabriel informou:
Gabriel Taquino: “É parente do prefeito.”
Após analisar o documento e um áudio não transcrito no relatório, Ed Carlos afirmou:
Ed Carlos: “Guri tá grave, hein.”
O diálogo reproduzido pelo Gaeco não permite concluir, isoladamente, que a vaga foi efetivamente disponibilizada, que o contrato do CAPS foi assinado ou que Juliano Ferro participou de qualquer condicionamento. Ele revela, porém, que os interlocutores discutiam uma reunião com o prefeito, uma demanda concreta de saúde e uma contratação de interesse deles dentro da mesma sequência de mensagens.
O que significa “fechar o CAPS com a gente”
CAPS é a sigla para Centro de Atenção Psicossocial, serviço público voltado ao atendimento de pessoas com sofrimento ou transtornos mentais e necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.
O relatório não detalha, nesse ponto, qual serviço os interlocutores pretendiam contratar, qual empresa seria beneficiada, qual valor estava em discussão ou se houve procedimento formal na Prefeitura de Ivinhema.
A frase, contudo, é relevante porque Gabriel se identifica como “parte interessada” e associa diretamente o possível fechamento de um negócio à promessa de “resolver a saúde” do município.
É essa conexão que o Gaeco apresenta como indício do possível uso da influência na Regulação Estadual para abrir portas em prefeituras.
Meses antes: “Tenho um amigo que resolve, mas precisa agraciar ele”
A conversa de janeiro de 2023 não foi o primeiro episódio envolvendo Ivinhema localizado pelos investigadores.
Em 22 de novembro de 2022, Gabriel Taquino já falava com Ed Carlos sobre a Prefeitura de Ivinhema. No resumo que antecede a transcrição, o próprio Gaeco afirma que Gabriel estaria tentando vender para o prefeito e que, caso obtivesse êxito, daria “um presente” a Ed Carlos.
Segundo a narrativa dos investigadores, Gabriel também afirmou que conseguiria “pegar uma licitação” no município, pediu para Ed Carlos consultar o Diário Oficial e escolher uma oportunidade e mencionou que Francisco Anízio, que estaria com ele na cidade, já teria conseguido outra contratação.
O relatório resume a lógica da conversa da seguinte forma: Ed Carlos dizia que poderia resolver os problemas da saúde municipal, enquanto Gabriel apresentava essa influência como argumento nas tratativas.
As frases destacadas pelo Gaeco foram:
“Isso que falei.”
“Eu tenho um amigo que resolve.”
“Mas precisa agraciar ele.”
Na interpretação do Ministério Público, o diálogo indica que a capacidade de Ed Carlos de atuar no sistema estadual de saúde era apresentada como instrumento para conquistar contratos municipais.
Novamente, o trecho não demonstra, por si só, que Juliano Ferro concordou com a oferta, prometeu pagamento, autorizou vantagem ou participou de eventual ilícito. As mensagens são entre Gabriel e Ed Carlos e registram o que eles diziam pretender fazer junto à prefeitura.
O novo elemento muda o peso da história
A reportagem anterior de O Contribuinte revelou que a gestão de Juliano Ferro havia contratado a Editora Avante, elevado o valor do negócio em 22 dias e posteriormente entrado no radar documental da Gutenberg.
Os novos diálogos acrescentam outro patamar à apuração.
A questão deixa de ser apenas:
Por que a prefeitura comprou R$ 874 mil em livros por inexigibilidade?
E passa a incluir novas perguntas:
Quem se reuniu com o prefeito em janeiro de 2023?
Qual serviço do CAPS os interlocutores pretendiam contratar?
Quem era a “parte interessada” mencionada por Gabriel?
A frase “resolver tudo” fazia referência a qual contrato?
A vaga mencionada por Ed Carlos foi realmente liberada?
O paciente identificado como parente do prefeito recebeu atendimento depois da conversa?
Houve algum contrato posterior entre Ivinhema e empresas ligadas aos interlocutores?
Juliano Ferro tomou conhecimento de que seu nome e uma demanda de saúde eram usados nessas tratativas?
Essas respostas não aparecem integralmente no trecho analisado. São justamente os pontos que a investigação precisa individualizar.
A cronologia de Ivinhema na Gutenberg
Os documentos permitem reconstruir quatro momentos distintos.
1. A contratação direta
Em 14 de julho de 2022, a Prefeitura de Ivinhema contratou a Editora Avante por R$ 586.862,50, mediante inexigibilidade de licitação.
A justificativa desse tipo de contratação é a inviabilidade de competição, normalmente sustentada pela exclusividade do produto ou pela singularidade do fornecedor.
O Gaeco investiga se esse mecanismo foi utilizado para direcionar compras de livros paradidáticos em diversos municípios de Mato Grosso do Sul.
2. O aditivo em apenas 22 dias
Em 5 de agosto de 2022, apenas 22 dias depois da assinatura original, a gestão municipal acrescentou R$ 287.267,50 ao contrato.
O negócio alcançou R$ 874.130,00, crescimento de aproximadamente 49% sobre o valor inicial.
3. O pagamento e a movimentação financeira
Em 18 de agosto de 2022, após um pagamento realizado pelo Município de Ivinhema à Editora Avante, o Gaeco identificou uma conversa entre Felipe Paroschi Jafar e Rhayane Souza Fanaia.
Segundo o relatório, os dois trocaram informações bancárias para viabilizar uma transferência ao CNPJ da Gráfica CGR Ltda.
Os investigadores registram que a conversa ocorreu tão logo o valor oriundo de Ivinhema entrou na conta da editora. O relatório afirma ainda que a Avante transferiu, em quatro movimentações, R$ 146.698,20 à Gráfica CGR e recebeu da mesma empresa R$ 16 mil em outras operações.
4. As conversas sobre contratos e saúde
Em novembro de 2022, Gabriel Taquino e Ed Carlos discutiram a busca por contratações junto à prefeitura e a possibilidade de “resolver a vida do prefeito” na área da saúde.
Em janeiro de 2023, a conversa evoluiu para uma reunião com o prefeito, um possível serviço envolvendo o CAPS, um paciente descrito como parente de Juliano Ferro e a mensagem:
“Você saindo da sala, a vaga está garantida.”
É a combinação desses quatro momentos — contrato, aditivo, dinheiro e saúde — que torna Ivinhema um dos capítulos mais sensíveis do relatório.
O aditivo que elevou o contrato a R$ 874 mil
O contrato nº 147/2022 foi assinado em 14 de julho de 2022 pelo valor de R$ 586.862,50.
Em 5 de agosto, a administração municipal formalizou um acréscimo de R$ 287.267,50, levando o total a R$ 874.130,00. O próprio documento inaugural da investigação destaca que o aditivo ocorreu menos de 30 dias após a contratação.
O aditivo, sozinho, não comprova irregularidade. A legislação admite alterações quantitativas em contratos públicos dentro de hipóteses e limites específicos.
No contexto da Gutenberg, porém, a rapidez e o tamanho do aumento levantam questões objetivas:
O que mudou em apenas 22 dias?
Por que a demanda adicional não foi calculada no contrato original?
Houve ampliação do número de alunos ou das quantidades adquiridas?
Qual setor pediu o acréscimo?
Quem elaborou e aprovou a justificativa?
Todo o material adicional foi entregue?
Como os livros foram distribuídos e utilizados?
O preço permaneceu compatível com o mercado?
Esses documentos passaram a ser relevantes não apenas para avaliar a legalidade do aditivo, mas também para comparar o cronograma da contratação com os pagamentos e as movimentações financeiras identificadas pelo Gaeco.
Uma editora criada oito meses antes
A Editora Avante havia sido constituída em 18 de novembro de 2021, cerca de oito meses antes de celebrar o contrato com Ivinhema.
Na portaria que instaurou a investigação, o Gaeco registrou que Rhayane Souza Fanaia aparentava não ter experiência suficiente no segmento e que a empresa, embora sediada em São Bernardo do Campo, tinha como clientes apenas municípios de Mato Grosso do Sul.
O Ministério Público também apontou que os livros oferecidos pela Avante eram produzidos pela Gráfica e Editora Alvorada e passou a investigar se havia continuidade de um modelo de contratações diretas anteriormente utilizado no Estado.
O que Juliano Ferro já declarou
Juliano Ferro confirmou anteriormente que a Prefeitura de Ivinhema adquiriu materiais da Editora Avante em 2022.
Segundo o prefeito, houve uma única aquisição, os produtos foram entregues corretamente e a contratação ocorreu dentro da legalidade.
“Nós fizemos aquisição, em 2022, uma única aquisição. Todo o material foi entregue perfeitamente. O Gaeco já pediu os modos de contratação. O nosso jurídico da prefeitura está encaminhando, se já não encaminhou, mas estamos bem tranquilos”, declarou.
Ferro também negou qualquer participação em negociação envolvendo vagas hospitalares, exames ou cirurgias e afirmou que as contas do primeiro mandato foram aprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado.
As novas conversas não registram mensagem enviada pelo prefeito nem resposta dele às propostas narradas pelos investigados. Por isso, não é possível afirmar, a partir desses trechos, que Juliano tinha conhecimento do conteúdo, aceitou o suposto arranjo ou recebeu alguma vantagem.
O ponto central da investigação
A força dessa história não está em afirmar que o prefeito participou do suposto esquema — algo que os diálogos, isoladamente, não permitem concluir.
O ponto central é outro: segundo o Gaeco, investigados falavam em obter contratos na Prefeitura de Ivinhema enquanto apresentavam a capacidade de interferir na Regulação Estadual como argumento de negociação.
Em um primeiro momento, surge a frase:
“Eu tenho um amigo que resolve. Mas precisa agraciar ele.”
Depois, antes de uma reunião com o prefeito:
“Você saindo da sala, a vaga está garantida.”
E, por fim, a síntese mais grave:
“Se ele fechar o CAPS com a gente, nós prometemos resolver a saúde dele.”
É esse encadeamento — e não uma frase isolada — que transforma Ivinhema em um dos capítulos de maior potencial de repercussão da Operação Gutenberg.
O que é a Operação Gutenberg?
Deflagrada em julho de 2026, a Operação Gutenberg investiga uma suposta organização criminosa que teria atuado em contratos de livros paradidáticos firmados com prefeituras de Mato Grosso do Sul.
Segundo o Ministério Público, o grupo teria utilizado empresas formalmente distintas e contratações por inexigibilidade de licitação para movimentar aproximadamente R$ 27 milhões.
Outro eixo da apuração é a suspeita de utilização da estrutura da Regulação Estadual da Saúde para influenciar gestores municipais durante negociações comerciais, mediante promessas ou condicionamento de consultas, exames, cirurgias e vagas hospitalares.
As afirmações do Gaeco representam a linha investigativa da acusação. As responsabilidades ainda precisam ser individualizadas, e todos os mencionados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.