Dário Durigan afirmou que Mato Grosso do Sul está “na vanguarda do país”, destacou o IDH, a economia e a solidez fiscal e reconheceu que o Estado merece mais de R$ 4 bilhões em aval de crédito.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou nesta quarta-feira, 29 de julho, um dos discursos mais favoráveis à gestão do governador Eduardo Riedel neste início de campanha eleitoral em Mato Grosso do Sul.
E o elogio não veio de um aliado local, de um dirigente da base governista ou de um integrante da campanha pela reeleição do governador.
Veio de Dário Durigan, ministro da Fazenda do próprio governo Lula.
Durante entrevista ao programa Tribuna Livre, Durigan exaltou publicamente os indicadores econômicos e sociais de Mato Grosso do Sul, destacou a solidez fiscal do Estado, elogiou a atuação de Riedel no diálogo federativo e afirmou que MS “está na vanguarda do país”.
A declaração entrega ao governador um argumento político de peso e cria um novo problema para o candidato do PT ao Governo do Estado, Fábio Trad.
Enquanto o palanque petista tenta construir a imagem de um Mato Grosso do Sul que precisa mudar de direção, um ministro do governo federal apresenta ao eleitor uma avaliação completamente diferente: a de um Estado economicamente forte, fiscalmente responsável e merecedor de crédito.
“Estamos renegociando a dívida do Estado e dando crédito, porque o Estado vai bem e merece”, afirmou Durigan.
A frase poderia ter sido pronunciada por um integrante da campanha de Riedel. Mas partiu de um dos principais nomes da equipe econômica de Lula.
“Mato Grosso do Sul está na vanguarda”
Durigan não economizou nos elogios.
Ao comentar a situação de Mato Grosso do Sul, afirmou que o Estado está “na vanguarda do país” e ressaltou o desempenho do Índice de Desenvolvimento Humano.
Segundo o ministro, o IDH sul-mato-grossense está entre os mais elevados do Brasil e “nunca esteve tão alto”.
A referência é especialmente relevante porque o índice é elaborado a partir de critérios técnicos e dados ligados ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Não se trata, portanto, de uma estatística criada pelo governo estadual para promoção política.
Ao destacar o indicador, Durigan reconheceu que o Estado apresenta avanços que ultrapassam o discurso meramente fiscal e alcançam aspectos relacionados à qualidade de vida e ao desenvolvimento humano.
O ministro também citou a expansão da indústria de celulose, a integração de Mato Grosso do Sul à Rota Bioceânica e o papel estratégico do Estado no agronegócio.
O cenário apresentado por ele foi o de uma unidade da Federação em crescimento, integrada às novas rotas comerciais e relevante para a economia nacional.
É uma descrição muito distante daquela que o PT estadual precisará construir para convencer o eleitor de que a atual administração deve ser substituída.
Governo Lula concedeu mais de R$ 4 bilhões em aval
A contradição ficou ainda mais evidente quando Durigan tratou do relacionamento financeiro entre o governo federal e Mato Grosso do Sul.
Segundo o ministro, a União concedeu mais de R$ 4 bilhões em aval para operações de crédito do Estado, envolvendo instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial.
O aval federal não é um gesto meramente político. Para autorizar operações dessa dimensão, o Ministério da Fazenda avalia a capacidade de pagamento, a situação fiscal e as condições de endividamento do ente federativo.
Ao explicar por que o governo Lula apoiou a contratação dos financiamentos, Durigan foi direto:
“Sabe quanto demos de aval para Mato Grosso do Sul? Mais de R$ 4 bilhões. Então estamos renegociando a dívida do Estado e dando crédito, porque o Estado vai bem e merece.”
A declaração representa um reconhecimento objetivo da solidez fiscal da gestão estadual.
O Ministério da Fazenda, comandado pelo governo que será o principal fiador político de Fábio Trad na eleição, não apenas reconheceu os resultados de Mato Grosso do Sul, como colocou a credibilidade da União por trás de operações bilionárias destinadas ao Estado.
Na prática, enquanto o PT local precisa questionar a eficiência da administração Riedel, a equipe econômica de Lula confirma que confia na capacidade do governo sul-mato-grossense de assumir compromissos e realizar investimentos.
Elogios diretos a Riedel e Flávio César
Durigan também elogiou nominalmente o governador Eduardo Riedel e o secretário estadual de Fazenda, Flávio César.
O ministro destacou o papel de Riedel no diálogo com os demais governadores e nas discussões federativas. Também reconheceu a atuação de Flávio César, que preside o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços, estrutura central da reforma tributária.
Os elogios revelam uma relação institucional de respeito entre o governo federal e a administração estadual, apesar das diferenças partidárias.
Riedel disputa a reeleição em um campo político adversário ao de Lula. Ainda assim, foi descrito por um ministro federal como participante importante das negociações entre União, estados e municípios.
Flávio César, por sua vez, recebeu reconhecimento pela atuação em uma das principais mudanças estruturais da economia brasileira.
Para a campanha governista, as declarações oferecem a possibilidade de argumentar que a administração estadual é respeitada até mesmo por integrantes do governo federal.
Para o PT, produzem o desafio inverso: criticar uma gestão que seu próprio ministro considera responsável, relevante e merecedora de crédito.
Lula não veio a MS, mas ministro elogiou Riedel
O episódio ganha uma dimensão ainda maior quando inserido no contexto político dos últimos dias.
No domingo, 26 de julho, o PT realizou em Campo Grande sua principal convenção eleitoral no Estado. O encontro oficializou Fábio Trad como candidato ao governo, Dona Gilda como vice e Vander Loubet como candidato ao Senado.
Soraya Thronicke, oficializada posteriormente pelo PSB, também participou do ato como integrante do palanque majoritário alinhado a Lula.
O presidente, no entanto, não compareceu.
Um dia antes, Lula havia participado em São Paulo da convenção que lançou Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva. No domingo, permaneceu na capital paulista antes de retornar a Brasília.
Para representar o governo federal no evento sul-mato-grossense, enviou um ministro.
A ausência já havia produzido a leitura de que Mato Grosso do Sul não ocupa posição central entre as prioridades eleitorais do presidente.
Poucos dias depois, outro integrante do governo Lula apareceu para reconhecer publicamente os bons resultados da gestão adversária ao PT.
A sequência é politicamente desconfortável para Fábio Trad.
Lula não esteve em Campo Grande para dar força ao lançamento de sua candidatura. Já Durigan, ao falar sobre Mato Grosso do Sul, forneceu argumentos para Eduardo Riedel defender a continuidade de seu governo.
Fábio Trad começa campanha diante de uma contradição
Fábio Trad foi oficializado com a missão de liderar a oposição e construir uma alternativa à administração estadual.
Para isso, precisará demonstrar ao eleitor que Mato Grosso do Sul pode ter resultados melhores, que existem falhas na atual gestão e que a troca de comando produziria benefícios concretos.
A oposição é legítima e faz parte da disputa democrática. O problema surge quando a narrativa eleitoral entra em conflito com a avaliação técnica feita pelo próprio governo ao qual o candidato está politicamente vinculado.
Durigan não afirmou que Mato Grosso do Sul está em situação de abandono, descontrole ou estagnação.
Disse o contrário.
Afirmou que o Estado está na vanguarda, apresenta um dos melhores indicadores de desenvolvimento humano do País, amplia sua participação na produção de celulose, ocupa posição estratégica na Rota Bioceânica e vai bem do ponto de vista econômico.
Além disso, reconheceu sua solidez fiscal ao justificar mais de R$ 4 bilhões em aval federal.
Essas declarações dificultam qualquer tentativa de apresentar Mato Grosso do Sul como um Estado quebrado ou sem perspectivas.
Pesquisa já mostrava Fábio distante de Riedel
A fala do ministro surge em um momento no qual Fábio Trad também precisa enfrentar números eleitorais desfavoráveis.
Na mais recente pesquisa estimulada do Instituto Ranking Brasil Inteligência fornecida ao O Contribuinte, Eduardo Riedel aparece na liderança com 46,2% das intenções de voto.
Fábio Trad ocupa a segunda posição, com 21,4%.
João Henrique Catan aparece com 8%, seguido por Delcídio do Amaral, com 5%; Renato Gomes, com 3,4%; Jefferson, com 1%; e Lucien Rezende, com 0,6%.
Outros 7% disseram que votariam em branco ou nulo, enquanto 7,2% não souberam ou não responderam.
O levantamento mostra Riedel com mais que o dobro da pontuação registrada por Fábio.
A candidatura petista começa, portanto, diante de dois obstáculos. O primeiro é romper o patamar tradicional da esquerda no Estado e ampliar sua presença entre os eleitores de centro. O segundo é encontrar uma narrativa de oposição capaz de sobreviver aos elogios feitos pela própria equipe econômica de Lula.
O teto eleitoral do PT em MS
Os 21,4% alcançados por Fábio Trad podem alimentar dentro da coordenação nacional a avaliação de que o candidato se encontra próximo ao teto tradicional do campo petista em Mato Grosso do Sul.
Esse cenário pode ajudar a explicar a ausência de Lula na convenção estadual e a preferência do presidente por concentrar sua agenda em São Paulo antes de voltar a Brasília.
Não há confirmação pública de que o levantamento tenha determinado a escolha presidencial. Ainda assim, campanhas nacionais avaliam pesquisas, potencial de crescimento, tamanho do eleitorado e competitividade regional antes de definir onde investir tempo e presença.
São Paulo possui o maior colégio eleitoral do País e oferece ao PT uma disputa de dimensão nacional. Em Mato Grosso do Sul, Fábio inicia a campanha com 21,4%, diante de um governador com 46,2% e que agora recebeu elogios públicos de um ministro do próprio governo Lula.
O conjunto reforça a percepção de que a candidatura petista sul-mato-grossense ainda precisa provar que pode se tornar competitiva.
O governo federal reconhece o que o PT local tenta negar
A principal contradição está na diferença entre a avaliação institucional e a necessidade eleitoral.
Quando trata Mato Grosso do Sul como ente federativo, o governo Lula reconhece a solidez fiscal, autoriza crédito, renegocia dívidas, elogia indicadores e mantém diálogo com Riedel.
Quando entra no terreno da campanha estadual, o PT precisa convencer o eleitor de que a administração deve mudar.
A dificuldade é conciliar os dois discursos.
Se o Estado está na vanguarda, apresenta IDH elevado, cresce com a celulose, avança na Rota Bioceânica, desempenha papel estratégico no agronegócio e recebe aval bilionário porque “vai bem e merece”, qual é exatamente o diagnóstico que sustentará a proposta de ruptura?
Fábio Trad poderá criticar áreas específicas, apresentar propostas e defender outro modelo político. O que se torna mais difícil é sustentar uma narrativa geral de fracasso.
A avaliação do ministro de Lula impede esse exagero.
Um presente político para Riedel
Para Eduardo Riedel, a entrevista de Durigan representa um presente político.
O governador poderá utilizar as declarações para mostrar que os resultados de sua gestão são reconhecidos inclusive pelo governo federal, comandado por um partido adversário.
O aval vindo de fora de sua base tem maior força justamente por não partir de alguém interessado diretamente em sua reeleição.
Riedel não precisou dizer que Mato Grosso do Sul vai bem.
Quem disse foi o ministro de Lula.
Não precisou afirmar que a situação fiscal é sólida.
Quem justificou os mais de R$ 4 bilhões em aval foi o Ministério da Fazenda.
Também não precisou reivindicar relevância no cenário nacional.
Durigan destacou o papel do Estado na economia, na Rota Bioceânica, no agronegócio, na celulose, no combate ao crime organizado e no debate sobre a reforma tributária.
Um problema político para o PT
Para o PT de Mato Grosso do Sul, a fala chega no pior momento possível.
O partido acaba de lançar sua chapa, tenta mobilizar a militância após a ausência de Lula e precisa reduzir uma diferença superior a 20 pontos em relação a Riedel.
Nesse cenário, o ministro de Lula apresentou uma leitura positiva da gestão adversária.
A declaração não define a eleição e tampouco elimina problemas que possam existir no Estado. Mas reduz o espaço para discursos genéricos e obriga a oposição a formular críticas mais precisas.
Fábio Trad terá de explicar como pretende representar uma mudança profunda em um Estado que, segundo o próprio governo federal, vai bem, merece crédito e ocupa posição de vanguarda.
Também terá de conviver com a imagem de que Lula não compareceu ao lançamento de sua candidatura, enquanto um ministro da administração petista apareceu dias depois para elogiar Riedel.
Política também é feita de sinais
A ausência de Lula na convenção do PT foi uma sinalização.
Os elogios de Durigan à gestão Riedel produziram outra.
Na primeira, o presidente priorizou São Paulo e deixou o lançamento do palanque sul-mato-grossense sem sua presença.
Na segunda, um integrante de sua equipe econômica reconheceu publicamente que Mato Grosso do Sul apresenta bons resultados.
Somados à vantagem de Riedel na pesquisa, os dois episódios ajudam a revelar a dificuldade inicial da candidatura petista.
Fábio Trad precisa provar que pode romper o teto da esquerda, convencer Lula de que merece prioridade nacional e, ao mesmo tempo, atacar uma gestão que recebe reconhecimento do próprio governo federal.
Para Riedel, a quarta-feira trouxe um aval que nenhuma peça publicitária conseguiria fabricar com a mesma força.
Para o PT, trouxe uma pergunta incômoda: como vender ao eleitor a ideia de que Mato Grosso do Sul vai mal quando o próprio ministro de Lula afirma, diante dos microfones, que o Estado “vai bem e merece”?