Patrimônio do diretor financeiro, coincidência de endereços envolvendo advogado da instituição, empresas do setor da saúde registradas no mesmo local e ação judicial por acesso a documentos ampliaram o debate sobre a administração do hospital.
Enquanto a Santa Casa de Campo Grande enfrenta uma das mais graves crises financeiras de sua história, marcada por atrasos salariais, falta de medicamentos, suspensão de cirurgias eletivas e ameaça de saída coletiva de médicos, a administração da instituição também passou a ser alvo de uma série de questionamentos públicos que ampliaram o debate sobre transparência e governança.
Nos últimos meses, reportagens publicadas pelo Portal O Contribuinte revelaram episódios envolvendo integrantes da administração do hospital e que passaram a fazer parte da discussão sobre a condução da entidade filantrópica.
Diretor financeiro chamou atenção em meio à crise
Um dos casos envolveu o diretor financeiro da Santa Casa, Rinaldo Hakme Romano.
Levantamento publicado pelo Portal O Contribuinte mostrou que o gestor possui em seu nome uma frota de veículos avaliada em aproximadamente R$ 455 mil, composta por um BMW 320i M Sport 2023, uma BMW F 850 GS, um Honda Civic EXL e uma Honda Pop 110i, conforme registros públicos consultados pela reportagem.
A publicação deixou claro que a posse desses bens não representa qualquer irregularidade. Ainda assim, o patrimônio chamou atenção porque veio à tona justamente quando médicos aguardavam pagamentos, funcionários protestavam por salários atrasados e o hospital relatava dificuldades para comprar medicamentos e materiais básicos.
O episódio ampliou o debate sobre gestão financeira e credibilidade administrativa em um momento de forte pressão sobre a instituição.

Advogado da Santa Casa e coincidência de endereços
Outro episódio que repercutiu envolveu o advogado Paulo da Cruz Duarte, responsável pela defesa jurídica da Santa Casa.
Consultas realizadas em bases públicas mostraram que o escritório do advogado está registrado no mesmo endereço que era utilizado pela atual presidente da Santa Casa, Alir Terra, antes de assumir o comando da instituição: Rua Hélio Yoshiaki Ikeziri, nº 34, sala 403, Royal Park, em Campo Grande.
A coincidência de endereços, por si só, não caracteriza qualquer irregularidade, mas passou a despertar questionamentos diante da função estratégica exercida pelo advogado na defesa jurídica da entidade e do momento vivido pela instituição.
Empresas da área da saúde também funcionam no mesmo endereço
O levantamento do Portal O Contribuinte identificou ainda que diversas empresas ligadas ao setor da saúde também estão registradas no mesmo endereço comercial.
Entre elas estão:
DR Tele Saúde Ltda, voltada para serviços de telemedicina;
DR Smart Saúde Ltda, também na área de telessaúde;
Deissê Medicamentos Ltda, dedicada ao comércio de medicamentos;
Health Life Planos de Saúde Ltda, ligada ao segmento de assistência suplementar;
Santa Cruz Saúde – Gestão em Planos de Saúde Ltda, empresa voltada à gestão de planos de saúde.

Os registros são públicos e não demonstram, por si só, qualquer ilegalidade. Entretanto, diante da crise enfrentada pela Santa Casa, a concentração de empresas do setor de saúde e do escritório do advogado da instituição no mesmo endereço reforçou cobranças por maior transparência sobre a estrutura administrativa e as relações institucionais envolvendo a entidade.
Plano de saúde também entrou no debate
Outro ponto que passou a chamar atenção foi a atuação do advogado não apenas na defesa da Santa Casa, mas também sua participação em empresas ligadas ao segmento de planos e serviços de saúde.
Embora não exista vedação legal para que um advogado atue em diferentes empreendimentos privados, o tema ganhou relevância pública porque a Santa Casa administra um dos maiores hospitais filantrópicos do Estado e presta serviços custeados, em grande parte, por recursos públicos.
A discussão passou a envolver especialistas e operadores do Direito que defendem padrões elevados de transparência em entidades dessa natureza.
Questionamentos chegaram ao Judiciário
Paralelamente às reportagens, o advogado Oswaldo Meza, presidente do Instituto Artigo Quinto (IA5º), ingressou na Justiça com pedido de produção antecipada de provas, buscando acesso a documentos administrativos, financeiros e contábeis da Santa Casa.
O objetivo da medida é reunir informações para subsidiar eventual ação civil pública relacionada à gestão da instituição.
Dias depois, a presidente Alir Terra registrou um boletim de ocorrência contra Meza após críticas públicas feitas por ele à administração do hospital.
O episódio acrescentou mais um capítulo ao debate em torno da gestão da Santa Casa.
Transparência passa a integrar o debate sobre o futuro da instituição
Enquanto a direção da Santa Casa sustenta que a insuficiência dos repasses públicos é a principal causa da crise financeira, os episódios registrados ao longo dos últimos meses ampliaram o debate sobre outro aspecto considerado essencial para a recuperação da instituição: a transparência na gestão.
Em meio à cobrança judicial de R$ 26,5 milhões contra Estado e Município, à suspensão de cirurgias eletivas e ao risco de redução da capacidade de atendimento, a administração do maior hospital filantrópico de Mato Grosso do Sul também passou a ser acompanhada mais de perto por órgãos de controle, operadores do Direito, profissionais da saúde e pela própria sociedade, que busca compreender não apenas como financiar a instituição, mas também como fortalecer sua governança.