Durante convenção do Novo nesta quarta-feira, candidato afirmou que seu projeto resistiu, atacou os rumos do PL e prometeu rever R$ 40 bilhões em incentivos fiscais
João Henrique Catan transformou a convenção do Partido Novo, realizada nesta quarta-feira, dia 5, em Campo Grande, em um dos discursos mais duros do início da corrida pelo Governo de Mato Grosso do Sul.
Já oficializado candidato, o deputado estadual deixou em segundo plano o protocolo partidário e utilizou o palco para explicar por que decidiu lançar uma chapa própria, fora do amplo arco de centro-direita construído em torno do atual governo.
Catan falou em articulação para impedir candidaturas da direita, acusou uma suposta infiltração de esquerda no Partido Liberal, prometeu enfrentar grupos que, segundo ele, querem permanecer indefinidamente no poder e afirmou que pretende “varrer a sujeira” de Mato Grosso do Sul.
As declarações dão o tom de uma campanha que será sustentada por confronto político, oposição direta à atual administração e questionamentos ao modelo econômico adotado no Estado.
“Esse momento é importante porque tramaram para impedir que a direita disputasse o Governo e o Senado. O nosso projeto resistiu, articulou e mobilizou para mostrar a verdadeira força da direita, que não aceita a esquerda infiltrada no Partido Liberal”, declarou Catan.
A fala foi feita durante a última convenção partidária realizada no Garden 67, no encerramento do prazo previsto pela Justiça Eleitoral para a escolha dos candidatos.
Chapa própria fora da grande aliança
Catan chega à disputa com uma chapa formada integralmente pelo Novo.
O economista, produtor rural e pecuarista Antônio João Jacintho será o candidato a vice-governador. Roberto Oshiro, advogado tributarista, disputará o Senado.
A composição mantém o Novo fora da aliança de nove partidos formada em torno da candidatura à reeleição do governador Eduardo Riedel.
O bloco governista reúne Progressistas, União Brasil, PL, PSDB, Cidadania, MDB, Republicanos, Avante e PSD. Ao Senado, a aliança terá Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL.
Catan se opõe a essa união e tenta apresentar sua candidatura como a continuidade da direita que permaneceu no campo da oposição.
O deputado era filiado ao PL e defendia que o partido mantivesse uma posição contrária ao atual governo. A situação mudou depois que Reinaldo Azambuja assumiu o comando estadual da legenda e conduziu o partido para a aliança de Riedel.
Sem espaço para disputar um cargo majoritário e contrário à nova direção eleitoral do PL, Catan deixou a sigla e ingressou no Novo.
Foi no novo partido que encontrou condições para encabeçar uma chapa própria.

Antigos aliados agora estão em projetos diferentes
O discurso de Catan também tem como pano de fundo a mudança de posição de antigos aliados.
Na eleição de 2022, o deputado esteve ao lado de Capitão Contar, então candidato ao Governo pelo PRTB.
Naquele momento, Contar representava uma candidatura de oposição ao grupo de Riedel e Reinaldo Azambuja.
Quatro anos depois, Contar passou a integrar a chapa governista e foi confirmado como candidato ao Senado pelo PL, ao lado de Reinaldo.
Catan decidiu seguir no sentido oposto.
Ao afirmar que houve uma articulação para impedir a direita de disputar o Governo e o Senado, o candidato busca convencer o eleitor de que a ampla aliança retirou do campo conservador uma candidatura própria de oposição.
A referência à “esquerda infiltrada no Partido Liberal” foi o ataque mais direto do discurso.
Catan não citou nomes ao fazer a acusação, mas o contexto deixa evidente que sua campanha pretende questionar os rumos adotados pelo partido depois da mudança no comando estadual.
“Agora sou eu encabeçando a chapa”
Em outro momento do discurso, Catan afirmou que a atual candidatura representa uma continuidade de sua disposição de enfrentar o grupo político que governa Mato Grosso do Sul.
“A diferença agora é que eu encabeço a chapa, mas a vontade de trabalhar, mudar, lutar e transformar Mato Grosso do Sul é a mesma”, declarou.
A frase foi utilizada para ligar sua candidatura à trajetória de oposição construída na Assembleia Legislativa.
Catan é um dos críticos mais duros da atual administração e tornou temas como Fundersul, Cassems, incentivos fiscais e distribuição do ICMS marcas de sua atuação parlamentar.
Ao assumir a cabeça da chapa, o deputado tenta transformar essa oposição legislativa em um projeto eleitoral.
Em uma segunda declaração, elevou ainda mais o tom.
“Agora sou eu encabeçando a chapa, vontade de trabalhar, lutar, lutar, transformar e varrer a sujeira que chegou a Mato Grosso do Sul”, afirmou.
A expressão “varrer a sujeira” foi uma das falas de maior impacto da convenção.
Catan não detalhou quais atos ou pessoas se referia. A fala, porém, reforça o discurso de ruptura e deverá ser utilizada como símbolo de enfrentamento aos grupos políticos que o candidato acusa de controlar o Estado.
“Querem se eternizar no poder”
Catan também atacou a permanência prolongada dos mesmos grupos no comando político de Mato Grosso do Sul.
O candidato afirmou que a população dará uma resposta nas urnas àqueles que “querem se eternizar no poder”.
A declaração reforça uma das principais narrativas de sua campanha: a eleição como uma disputa entre continuidade e renovação.
Enquanto o atual governador tenta permanecer no cargo apoiado por uma ampla coligação, Catan tenta se colocar como representante de uma alternativa independente.
A crítica não é direcionada apenas à atual administração, mas também à reorganização das forças políticas que reuniu antigos adversários em um mesmo palanque.
Para o candidato, a união entre lideranças que estiveram em campos opostos nas eleições anteriores demonstra uma tentativa de preservar poder e influência.

“Vamos renovar Mato Grosso do Sul”
Depois das críticas, Catan buscou apresentar uma mensagem de futuro.
“Vamos renovar Mato Grosso do Sul. Para isso, nós temos que renovar o voto e a confiança em um projeto realmente verdadeiro para um futuro melhor, para um futuro novo de Mato Grosso do Sul. Vamos fazer um Mato Grosso do Sul melhor”, declarou.
O uso repetido da palavra “novo” liga a mensagem da campanha à identidade partidária.
Catan tenta apresentar a renovação como uma mudança que ultrapassa a troca de nomes e alcança o modelo de governo, as prioridades do orçamento e a relação do Estado com os cidadãos.
Em outro trecho, afirmou que sua chapa não possui compromissos com grandes estruturas políticas.
“Nosso grupo só tem um compromisso e uma conexão: o povo que está nas ruas e pede coragem para mudar. É preciso renovar o voto e a confiança em um projeto verdadeiro para um futuro novo em Mato Grosso do Sul”, disse.
A expressão “coragem para mudar” deverá ser uma das linhas utilizadas pela campanha para atrair eleitores insatisfeitos com os acordos partidários formados nos últimos meses.
Catan mira R$ 40 bilhões em incentivos
Além das críticas políticas, o candidato apresentou uma das promessas mais impactantes do discurso: a revisão da política de incentivos fiscais.
Segundo Catan, Mato Grosso do Sul deixou de arrecadar aproximadamente R$ 40 bilhões em benefícios concedidos principalmente a grandes grupos econômicos.
O valor foi citado pelo próprio deputado durante a convenção. No material disponibilizado, não houve detalhamento sobre o período analisado, as empresas beneficiadas ou a metodologia utilizada para chegar ao montante.
Catan afirma que o atual modelo concentra vantagens nas maiores empresas e não distribui os benefícios de forma equilibrada pelas diferentes etapas das cadeias produtivas.
“Faremos uma grande reformulação nos incentivos fiscais para que eles não estejam apenas na cadeia principal, mas desçam para a segunda e para a terceira cadeia, para aquela pessoa que está começando a produzir no Estado”, declarou.
A promessa não é de extinguir os incentivos, mas de alterar os critérios de concessão.
O objetivo apresentado pelo candidato é fazer com que pequenos produtores, novas empresas e empreendedores também tenham acesso aos benefícios.
Ataque ao modelo econômico
A crítica aos incentivos fiscais será uma das principais armas de Catan contra o atual governo.
O candidato sustenta que o Estado abriu mão de uma arrecadação bilionária sem garantir que os resultados chegassem de forma equilibrada aos municípios e à população.
Na avaliação do deputado, a política atual favorece grandes grupos econômicos, enquanto pequenos produtores e empreendedores enfrentam burocracia, dificuldade de acesso ao crédito e custos elevados.
Catan pretende apresentar a revisão dos incentivos como parte de uma reforma mais ampla do modelo econômico de Mato Grosso do Sul.
A proposta deverá envolver contrapartidas mais claras em geração de empregos, industrialização, renda e desenvolvimento regional.
Municípios perdem com renúncias, afirma candidato
Catan também relacionou os benefícios fiscais à arrecadação das prefeituras.
Como parte do ICMS arrecadado pelo Estado é repassada aos municípios, o candidato argumenta que a redução da receita estadual também diminui os recursos disponíveis para as cidades.
Segundo a tese apresentada durante a convenção, as renúncias mal distribuídas prejudicam diretamente os serviços públicos municipais.
Catan afirma que pretende rever os contratos, os critérios e as contrapartidas exigidas das empresas beneficiadas.
A promessa será usada para dialogar com prefeitos e lideranças municipais que reclamam de dificuldades financeiras para manter serviços básicos.

Promessa para Campo Grande
Outra fala de impacto envolveu a participação de Campo Grande na distribuição do ICMS.
Segundo Catan, o índice destinado à Capital caiu de aproximadamente 24% para 11% nos últimos 15 anos.
“Vou devolver o índice do rateio que o MDB roubou da Capital”, afirmou.
A declaração representa uma acusação política contra administrações anteriores.
O candidato não detalhou, no trecho divulgado, como pretende recompor o índice de Campo Grande sem provocar perdas aos municípios do interior.
Catan afirmou, porém, que criará um fundo de compensação para impedir prejuízos às demais cidades.
A proposta tenta conciliar uma reivindicação da Capital com a necessidade de preservar a arrecadação dos municípios menores.
Fundersul na mira
O candidato também prometeu reformular o Fundersul.
O fundo é abastecido principalmente por contribuições relacionadas ao setor agropecuário e utilizado em obras de infraestrutura e manutenção de rodovias.
Catan defende mudanças na arrecadação, na gestão e na aplicação dos recursos.
A promessa se conecta a outra proposta apresentada na convenção: a criação de um grande programa de infraestrutura, com duplicação de rodovias estaduais.
O deputado não informou quais estradas seriam priorizadas, quanto custariam as obras ou quais seriam as fontes de financiamento.
Mesmo assim, o tema deverá ganhar espaço na campanha por atingir diretamente o setor produtivo e os municípios do interior.
Menos burocracia para o campo
Catan também prometeu simplificar os processos de licenciamento ligados à atividade rural.
A proposta está alinhada ao perfil do candidato a vice, Antônio João Jacintho, economista, produtor rural e pecuarista de Bonito.
A escolha de Jacintho sinaliza uma tentativa de aproximação com o agronegócio e com os produtores do interior.
O candidato ao Governo afirma que o excesso de burocracia atrasa investimentos, eleva custos e dificulta a abertura de novos negócios.
Cassems como arma contra o governo
A situação da Cassems também foi utilizada por Catan para confrontar a atual administração.
O candidato prometeu revogar a cobrança de R$ 450 aplicada aos cônjuges dos beneficiários do plano de saúde dos servidores estaduais.
Segundo os dados citados por ele, aproximadamente 42 mil dependentes foram atingidos pela mudança.
Catan afirma que o valor anterior era de R$ 35, o que representaria um aumento de aproximadamente 1.185%.
A cobrança já vinha sendo criticada pelo deputado na Assembleia Legislativa e tornou-se uma das principais bandeiras de seu mandato.
Ao transformar a revogação em promessa de campanha, Catan tenta aproximar sua candidatura do funcionalismo público e responsabilizar a atual administração pelo impacto da medida.
Servidores como prioridade
A valorização dos servidores públicos foi apresentada como uma das primeiras medidas de um eventual governo do Novo.
Catan não detalhou, durante os trechos divulgados, se a valorização envolverá reajustes salariais, revisão de carreiras ou ampliação de benefícios.
A promessa, no entanto, foi conectada à crítica sobre os incentivos fiscais.
Na lógica defendida pelo candidato, a revisão dos benefícios concedidos aos grandes grupos poderia abrir espaço para ampliar investimentos em servidores, municípios, infraestrutura e pequenos produtores.
Uma chapa sem outros partidos
Ao contrário dos principais adversários, Catan decidiu disputar com uma chapa formada apenas pelo Novo.
Para o candidato, essa configuração representa independência política.
A campanha deverá sustentar que uma eventual administração não estaria presa a acordos com diferentes partidos nem obrigada a dividir espaços entre os integrantes de uma grande coligação.
A ausência de uma aliança ampla, porém, também representa dificuldades.
O Novo terá menos tempo de propaganda eleitoral, menos recursos e menor presença partidária nos municípios do que os maiores blocos.
Catan deverá compensar essa diferença com presença nas redes sociais, agendas presenciais, exposição das propostas e um discurso mais agressivo contra o sistema.
Disputa pela representação da direita
A convenção mostrou que a campanha de Catan também será uma disputa pela representação da direita em Mato Grosso do Sul.
A aliança governista reúne o PL, candidatos identificados com o bolsonarismo e partidos de centro-direita.
Catan, entretanto, sustenta que a entrada do PL na composição retirou da legenda a condição de oposição.
Ao falar em “verdadeira força da direita”, o deputado tenta convencer os eleitores de que sua chapa representa o campo conservador que não aderiu ao governo.
Essa disputa deverá ser travada especialmente contra antigos aliados.
Catan precisará demonstrar que sua candidatura própria é viável, enquanto os integrantes da aliança governista tentarão apresentar a composição ampla como sinal de força e governabilidade.
Convenção definiu o tom da campanha
A convenção desta quarta-feira deixou claro que Catan não pretende conduzir uma campanha moderada.
O candidato falou em trama, infiltração, sujeira, grupos que querem se eternizar no poder e coragem para mudar.
Também apresentou promessas que atingem diretamente o atual modelo de governo: revisão de R$ 40 bilhões em incentivos fiscais, reformulação do Fundersul, mudança na distribuição do ICMS, duplicação de rodovias, simplificação de licenças rurais, valorização dos servidores e revogação da cobrança sobre dependentes da Cassems.
As declarações formam uma narrativa única.
Catan pretende se apresentar como o candidato que permaneceu na oposição enquanto antigos aliados aderiram ao principal arco político estadual.
“O nosso projeto resistiu”, afirmou.
A frase resume a estratégia eleitoral apresentada na convenção.
Catan quer transformar a resistência em símbolo de independência, a oposição em plataforma de governo e o confronto com o sistema em combustível para chegar ao Palácio do Parque dos Poderes.