Apontado como nome de alto escalão do narcotráfico, boliviano era investigado por sequestro, homicídio e tráfico de cocaína e estava entre os criminosos mais procurados do país
José Mariano Paz Chávez tinha apenas 29 anos, mas seu nome já atravessava quase uma década de investigações policiais na Bolívia.
Conhecido pelo apelido de “Piña”, ele era apontado pelas forças de segurança bolivianas como um dos criminosos mais procurados do país e figura de destaque em estruturas ligadas ao tráfico internacional de cocaína.
Na imprensa boliviana e entre investigadores, ganhou ainda outra definição: “intocável”.
O termo fazia referência à dificuldade das autoridades em chegar até ele enquanto seu nome surgia repetidamente associado a crimes violentos e ao narcotráfico.
A trajetória terminou longe da Bolívia.
Na sexta-feira (7), Piña morreu ao lado de outros três bolivianos durante um confronto com policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) de Mato Grosso do Sul, em uma área de mata próxima ao Rio Coxim, em São Gabriel do Oeste.

Antes disso, havia passado sete dias escondido no território sul-mato-grossense após deixar um avião clandestino interceptado pela Força Aérea Brasileira.
Mas quem era o homem que mobilizou forças policiais de dois países e que era tratado como personagem de alto escalão do narcotráfico boliviano?
Um nome conhecido da polícia boliviana
José Mariano Paz Chávez não passou a ser investigado somente nos últimos acontecimentos registrados na fronteira.
Seu nome já aparecia em ocorrências policiais pelo menos desde 2017.
Naquele ano, Piña foi preso preventivamente por suposta participação no sequestro e tortura do advogado boliviano Lorgio Saucedo.
Segundo as informações daquele processo, o advogado teria sido mantido em cativeiro durante aproximadamente duas semanas.
A motivação seria uma suposta dívida de cerca de US$ 60 mil relacionada à negociação de veículos.
Saucedo acabou encontrado ferido.
Paz Chávez foi preso e encaminhado ao presídio de Palmasola.
Era o início de uma sequência de episódios que faria o apelido “Piña” aparecer novamente em investigações importantes da polícia boliviana.
Oito anos depois, o mesmo advogado foi assassinado
A história envolvendo Piña e Lorgio Saucedo ganharia um capítulo ainda mais grave em 2025.
Em 2 de setembro daquele ano, Saucedo foi assassinado.
Segundo informações divulgadas na Bolívia, ele teria sido sequestrado antes de ser morto a tiros.
O corpo foi encontrado em uma pista de pouso na comunidade de Coloradillo, em Warnes, departamento de Santa Cruz.
Durante a investigação do homicídio, o nome de José Mariano Paz Chávez voltou ao radar das autoridades.
Investigadores passaram a apontá-lo como suspeito de ter ordenado a execução do advogado.
A acusação fazia parte de investigação policial e não representa, por si só, uma condenação judicial definitiva.
Mesmo assim, o episódio reforçou a atenção das forças de segurança sobre Piña.

Cocaína transportada pelo ar
Os investigadores também relacionavam José Mariano Paz Chávez ao narcotráfico.
Segundo informações divulgadas por autoridades e pela imprensa boliviana, Piña teria posição relevante dentro de uma estrutura voltada ao transporte de cocaína.
Uma das características dessa organização chamava especialmente a atenção: a utilização de aeronaves de pequeno porte.
Pistas clandestinas ou improvisadas fariam parte da logística utilizada para movimentar drogas entre diferentes regiões da Bolívia e países vizinhos.
Há registros que associavam o grupo a operações na região de Santa Ana de Yacuma e outras áreas estratégicas para o tráfico.
Piña também tinha atuação atribuída às regiões de fronteira da Bolívia com Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
É justamente por isso que a maneira como sua última fuga aconteceu ganhou ainda mais significado.
O homem associado durante anos ao transporte aéreo de cocaína acabou deixando a Bolívia em um avião clandestino.

Ligações investigadas com a estrutura de Sebastián Marset
Outro elemento que aumentava o peso do nome de Piña dentro das investigações era sua associação a pessoas próximas da organização ligada ao narcotraficante uruguaio Sebastián Marset.
Marset tornou-se um dos criminosos mais conhecidos e procurados da América do Sul, acusado de participar de uma ampla estrutura internacional de tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro.
No caso de José Mariano Paz Chávez, as informações disponíveis apontam para vínculos investigados com pessoas próximas dessa estrutura.
Não há, nos elementos apresentados até agora, base suficiente para afirmar que Piña fazia parte diretamente da organização comandada por Marset.
O que existe são associações e conexões levantadas em investigações conduzidas na Bolívia.
Por que era chamado de “intocável”?
Piña ganhou fama de criminoso de difícil alcance.
Apesar de aparecer em investigações envolvendo sequestro, homicídios e narcotráfico, seu nome continuou circulando no ambiente criminal boliviano.
Autoridades o consideravam um dos homens mais procurados do país.
Na cobertura realizada pela imprensa boliviana, passou a ser descrito como “intocável”, numa referência à capacidade de permanecer longe do alcance das forças de segurança.
Aos 29 anos, já era apontado como um personagem de alto escalão do tráfico de cocaína.
Essa condição ajuda a explicar a repercussão provocada por sua morte no Brasil.
Ataque contra policial iniciou a última fuga
O último capítulo começou na região de San Matías, próxima à fronteira brasileira.
No fim de julho, uma série de ações violentas mobilizou as forças especiais bolivianas.
Em uma delas, uma viatura policial foi emboscada.
O segundo-tenente Yerson Salazar morreu no ataque.
Autoridades bolivianas passaram a apontar integrantes do grupo que posteriormente fugiu para o Brasil como suspeitos de participação no crime.
Piña estava entre os homens procurados.
De avião rumo ao Brasil
Após o ataque, quatro suspeitos embarcaram em uma aeronave e deixaram a Bolívia.
Segundo as investigações, o objetivo seria chegar ao estado de São Paulo.
A aeronave entrou no espaço aéreo brasileiro e passou a ser acompanhada pelas forças de segurança.
Informações do Gefron, de Mato Grosso, chegaram ao Bope de Mato Grosso do Sul e a FAB foi acionada.
O piloto boliviano não teria obedecido às determinações militares.
O avião acabou pousando em uma propriedade rural de São Gabriel do Oeste.
Quando as equipes chegaram, os quatro já haviam abandonado a aeronave.
Começava uma nova etapa da fuga.

Sete dias na mata
Piña e os três homens que o acompanhavam desapareceram em uma extensa região de vegetação.
Durante sete dias, policiais realizaram buscas próximas ao Rio Coxim.
A polícia acredita que os fugitivos tenham permanecido próximos às margens do rio em busca de água e alimentos e utilizado a vegetação fechada para dificultar a localização.
Equipes do Bope, da Força Tática, da Polícia Militar Rural e da 12ª Companhia Independente da PM participaram da operação.
O cerco foi sendo fechado até que, na sexta-feira, o grupo finalmente foi localizado.

O fim do “intocável”
Segundo a Polícia Militar, policiais do Bope se aproximaram do local onde os homens estavam e foram recebidos com disparos de fuzil.
Houve confronto.
Piña e os outros três suspeitos foram atingidos.
Eles chegaram a ser retirados da mata e socorridos, mas não resistiram.
Nenhum policial ficou ferido.
Assim terminou a trajetória de José Mariano Paz Chávez.
O homem que havia sido preso por um caso de sequestro em 2017, voltou a ser investigado pela morte da mesma vítima em 2025, teve o nome associado ao tráfico aéreo de cocaína e chegou a ser tratado como “intocável” na Bolívia terminou sua última fuga em Mato Grosso do Sul.
Aos 29 anos, Piña deixou de ser apenas um dos criminosos mais procurados do país vizinho para se tornar o principal nome entre os quatro bolivianos mortos depois de uma operação que começou na Bolívia, passou pelo espaço aéreo brasileiro e terminou às margens do Rio Coxim.