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Bomba: Após acusar vice de Flávio, Soraya teve R$ 65 milhões em emendas empenhadas pelo governo Lula

Senadora apresentou denúncia contra Alfredo Gaspar em 27 de março, durante a reta final da CPMI do INSS; desde então, Executivo empenhou R$ 65,29 milhões de suas emendas, segundo dados orçamentários.

Um novo dado acrescenta mais um capítulo à sequência política envolvendo a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a acusação de estupro de vulnerável apresentada contra o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), atual candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.

Depois de Soraya se juntar ao deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) para levar à Polícia Federal, em 27 de março, uma grave acusação contra Gaspar, o governo Lula empenhou R$ 65,29 milhões em emendas parlamentares indicadas pela senadora.

O valor representa 96,31% de tudo o que havia sido empenhado em emendas de Soraya em 2026 até o período analisado.

Os dados foram levantados originalmente pelo portal O Antagonista, por meio do Siga Brasil e do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (Siop).

Após a publicação, O Contribuinte realizou sua própria apuração nos sistemas oficiais e confirmou os números.

A cronologia ganha ainda mais relevância diante de dois fatos recentes: surgiu um depoimento formal à Polícia Legislativa apontando uma suposta armação para fabricar a acusação contra Alfredo Gaspar, com Lindbergh citado no relato; e Soraya, que foi eleita em 2018 com apoio de Jair Bolsonaro, está agora oficialmente candidata à reeleição pelo PSB dentro do campo político que apoia Lula em Mato Grosso do Sul, formando dobradinha ao Senado com o petista Vander Loubet.

Não há, até o momento, prova de que a execução das emendas tenha sido contrapartida pela atuação política de Soraya no caso Gaspar. A coincidência temporal, isoladamente, não demonstra troca ou acordo.

Os números e a sequência dos acontecimentos, porém, são fatos públicos e acrescentam um novo componente político a um episódio que já chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

R$ 65,29 milhões foram empenhados depois da denúncia

Os números chamam atenção.

O Orçamento da União de 2026 prevê aproximadamente R$ 74,01 milhões em emendas parlamentares de Soraya Thronicke.

Até o período analisado, o governo federal havia empenhado R$ 67,79 milhões desse total.

A apuração mostra que R$ 65,29 milhões foram empenhados depois de 27 de março, data em que Soraya e Lindbergh levaram a acusação contra Alfredo Gaspar à Polícia Federal.

Isso significa que 96,31% de tudo o que o governo Lula havia empenhado em emendas da senadora neste ano ocorreu depois da denúncia.

Do total previsto para Soraya, aproximadamente R$ 52,08 milhões já haviam sido efetivamente pagos.

Há uma diferença importante entre empenho e pagamento.

O empenho representa a reserva do recurso pelo Executivo para garantir determinada despesa indicada pelo parlamentar. O pagamento ocorre posteriormente, depois das demais etapas da execução orçamentária.

Soraya e Lindbergh acusaram Gaspar em 27 de março

A data utilizada como marco para o levantamento não foi escolhida aleatoriamente.

Em 27 de março, Soraya Thronicke e Lindbergh Farias apresentaram à Polícia Federal uma notícia de fato relatando uma acusação de suposto estupro de vulnerável envolvendo Alfredo Gaspar.

Segundo as informações apresentadas pelos parlamentares, uma menina teria sido abusada sexualmente aos 13 anos e engravidado em decorrência do crime.

Gaspar negou categoricamente a acusação.

O parlamentar também afirmou publicamente que estava disposto a disponibilizar seu material genético para a realização de exame de DNA.

O episódio ocorreu justamente durante um dos momentos mais tensos da CPMI do INSS.

Acusação surgiu quando Gaspar apresentava relatório que atingia Lulinha

Alfredo Gaspar era o relator da comissão responsável por investigar o esquema de descontos indevidos sobre benefícios de aposentados e pensionistas.

Naquele momento, o parlamentar apresentava seu relatório final.

Entre as conclusões propostas estava o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República.

Foi nesse contexto que Soraya e Lindbergh apresentaram a acusação contra Gaspar.

A suspeita de estupro passou a ocupar parte importante do debate justamente durante a leitura do relatório e foi utilizada por integrantes da base governista para questionar a permanência e a credibilidade do relator.

No dia seguinte, 28 de março, o relatório de Alfredo Gaspar acabou rejeitado pela CPMI depois que os governistas conseguiram formar maioria para derrubá-lo.

A campanha de Flávio Bolsonaro sustenta que a acusação contra Gaspar teve como objetivo desviar a atenção das conclusões da CPMI.

Essa é a versão apresentada pela campanha e ainda depende das investigações em andamento para qualquer conclusão sobre eventual estratégia deliberada.

Depois surgiu denúncia de uma possível armação

O episódio ganhou contornos ainda mais graves algumas semanas depois.

Em 14 de abril, a assessora de Alfredo Gaspar, Marise Pena, relatou à Polícia Legislativa ter recebido uma ligação de um homem identificado como Luis Antonio Lopes.

O comerciante dizia possuir informações sobre uma suposta trama para fabricar justamente a acusação de abuso sexual apresentada contra Gaspar.

Em 23 de abril, ele prestou depoimento formal à Polícia Legislativa da Câmara.

Segundo Luis Antonio, uma jovem chamada Marcela Maria Mendes teria sido preparada para assumir uma identidade falsa.

Ela utilizaria o nome de “Jailma” e se apresentaria como uma mulher de origem nordestina que teria sido abusada sexualmente ainda adolescente por um político e engravidado em decorrência do crime.

O político associado à narrativa seria Alfredo Gaspar.

Depoimento fala em R$ 16,5 mil e cita Lindbergh

O comerciante afirmou ainda que sua própria conta bancária teria sido utilizada para movimentar dinheiro destinado à jovem.

Foram mencionados três pagamentos:

R$ 10 mil

R$ 4 mil

R$ 2,5 mil

O total chega a R$ 16,5 mil.

Segundo as informações encaminhadas às autoridades, comprovantes referentes aos valores de R$ 10 mil e R$ 2,5 mil foram apresentados.

O depoimento também descreve uma suposta reunião realizada pelo Google Meet.

Segundo Luis Antonio, entre os participantes estariam Lindbergh Farias, Carlos Roberto Lopes, presidente da Conafer, um vereador de Nova Iguaçu conhecido como “Toninho da Padaria” e outras pessoas.

O documento registra que, segundo a percepção do próprio depoente, Lindbergh aparentava ter conhecimento do contexto discutido.

A participação do deputado em eventual fabricação da acusação não está comprovada. Trata-se de uma versão apresentada formalmente à Polícia Legislativa e que deverá ser confrontada com outros elementos pelas autoridades.

Câmara enviou o caso ao STF

Como Lindbergh Farias foi citado no depoimento e possui foro por prerrogativa de função, o material seguiu pela estrutura institucional da Câmara.

Em 5 de maio, o relato foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.

O caso chegou ao gabinete do ministro Gilmar Mendes, que já analisava o procedimento relacionado à acusação original apresentada contra Alfredo Gaspar.

A Procuradoria-Geral da República posteriormente pediu diligências adicionais à Polícia Federal.

Assim, o caso passou a possuir duas frentes que precisam ser esclarecidas: a denúncia original contra Gaspar e a denúncia de que essa acusação poderia ter sido artificialmente construída.

Enquanto isso, governo Lula empenhou R$ 65 milhões de Soraya

É nesse intervalo que aparece o novo elemento financeiro confirmado pelo levantamento.

Dos R$ 67,79 milhões empenhados para emendas de Soraya em 2026 até o período analisado, R$ 65,29 milhões foram empenhados depois da acusação apresentada contra Alfredo Gaspar.

Ou seja, praticamente todo o volume empenhado no ano ocorreu depois de 27 de março.

O percentual é de 96,31%.

Os dados, isoladamente, não permitem afirmar que exista relação entre a denúncia e os empenhos.

Mas a cronologia ganha dimensão política adicional quando observada ao lado da trajetória recente de Soraya.

Isso porque a relação da senadora com Lula já não pode ser descrita simplesmente como uma “aproximação”.

Soraya agora é candidata no palanque de Lula em MS

Soraya está oficialmente candidata à reeleição ao Senado pelo PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin e integrante da base de sustentação do governo federal.

Além disso, passou a integrar publicamente o campo eleitoral montado para sustentar a candidatura de Lula em Mato Grosso do Sul.

A senadora participou da convenção da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, que oficializou Fábio Trad como candidato ao Governo do Estado, Dona Gilda como vice e Vander Loubet como candidato ao Senado.

Embora pertença ao PSB e tenha sido oficializada por sua própria legenda, Soraya compareceu ao principal ato eleitoral da esquerda sul-mato-grossense como integrante da chapa majoritária que pretende construir o palanque de Lula no Estado.

Na disputa pelas duas cadeiras do Senado, Soraya e Vander Loubet formam a dobradinha do campo lulista em Mato Grosso do Sul.

É o ponto final de uma transformação política iniciada anos atrás.

De eleita com Bolsonaro a candidata com apoio de Lula

Soraya chegou ao Senado em 2018 pelo PSL, impulsionada pela onda política liderada por Jair Bolsonaro.

Naquela eleição, o próprio Bolsonaro apareceu em material eleitoral pedindo votos para Soraya em Mato Grosso do Sul.

A senadora chegou ao Congresso identificada com a direita e com forte discurso antipetista.

O rompimento começou posteriormente.

Soraya afastou-se de Bolsonaro, deixou o antigo campo político, passou pelo União Brasil e, em 2022, disputou a Presidência da República apresentando-se como alternativa tanto a Lula quanto a Bolsonaro.

Quatro anos depois, a situação é completamente diferente.

Agora filiada ao PSB, Soraya busca renovar o mandato dentro do campo político do presidente que enfrentou nas urnas em 2022.

De senadora eleita com Bolsonaro, tornou-se candidata à reeleição no palanque de Lula.

“Eu sou o veneno”: Soraya se oferece para enfrentar bolsonarismo

A nova posição política ficou explícita durante a convenção do PT em Mato Grosso do Sul.

Diante da militância de esquerda, Soraya fez um discurso marcado por ataques ao bolsonarismo e procurou transformar justamente sua antiga proximidade com o grupo em argumento para conquistar a confiança do eleitorado lulista.

“Eu não ouvi falar, eu vi”, repetiu a candidata.

Soraya afirmou ter presenciado “descaso”, “corrupção”, “falta de transparência”, “perseguição” e “ódio”.

Apesar da gravidade das declarações, a senadora não apresentou naquele discurso documentos, nomes, datas ou episódios específicos capazes de identificar quais atos de corrupção teria presenciado ou quem seriam seus responsáveis.

O momento mais simbólico veio quando Soraya relatou uma conversa com o ex-deputado federal Juliano Lemos, também rompido com Bolsonaro.

Segundo a senadora, ele teria lhe dito:

“Avise o presidente Lula, Soraya. Diga que, se ele quiser acabar com esse extremismo, com esse ódio ou com essa seita, você é o veneno.”

Soraya então respondeu:

“Eu sou o veneno, porque eu vi.”

A declaração funcionou como uma apresentação política da nova Soraya ao campo lulista.

A candidata que chegou ao Senado com Bolsonaro tenta agora convencer o eleitorado de esquerda de que justamente por ter conhecido aquele grupo por dentro estaria qualificada para enfrentá-lo.

Dos R$ 65 milhões ao palanque: cronologia chama atenção

Quando todos os episódios são colocados em sequência, o cenário político fica mais claro.

27 de março: Soraya Thronicke e Lindbergh Farias levam à PF acusação de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar.

28 de março: a CPMI rejeita o relatório elaborado por Gaspar, que propunha, entre outras medidas, o indiciamento de Lulinha.

14 de abril: gabinete de Gaspar recebe contato de um homem relatando possível armação para fabricar a acusação.

23 de abril: Luis Antonio Lopes presta depoimento à Polícia Legislativa e detalha a suposta trama.

5 de maio: material envolvendo a possível armação é encaminhado ao STF.

Depois de 27 de março: governo Lula empenha R$ 65,29 milhões em emendas de Soraya, correspondentes a 96,31% de tudo o que havia sido empenhado para a senadora em 2026 até o período analisado.

Agosto: Soraya está oficialmente candidata à reeleição pelo PSB e integrada ao palanque lulista em Mato Grosso do Sul, formando a dobradinha ao Senado com Vander Loubet.

6 de agosto: Gilmar Mendes determina que Soraya apresente, no prazo de 15 dias, novas informações relacionadas à acusação contra Alfredo Gaspar.

STF agora cobra informações de Soraya

A determinação do Supremo acrescenta mais um elemento à sequência.

Gilmar Mendes quer que Soraya forneça informações capazes de auxiliar na identificação dos autores de mensagens existentes nos autos, além de dados relacionados a ligações telefônicas.

Também foram solicitados elementos para individualizar a suposta vítima e a criança que teria nascido em decorrência do alegado estupro.

A decisão não significa que Soraya seja acusada de participar da eventual fabricação da denúncia.

Mas a senadora passa a ocupar posição central para esclarecer como recebeu as informações, de quem recebeu e quais elementos possuía quando decidiu, ao lado de Lindbergh, encaminhar uma acusação tão grave à Polícia Federal.

O Contribuinte vai acompanhar

O levantamento original sobre as emendas foi publicado pelo O Antagonista. O Contribuinte conferiu os dados nos sistemas oficiais e confirmou as informações, aprofundando a apuração a partir do contexto político de Mato Grosso do Sul e dos fatos novos relacionados ao caso Alfredo Gaspar.

O portal mantém espaço aberto para manifestação da senadora Soraya Thronicke, do governo Lula, do deputado Lindbergh Farias e dos demais citados.

Também seguirá acompanhando o cumprimento da determinação do STF e os esclarecimentos que Soraya apresentará sobre a origem da acusação contra Gaspar.

A questão que permanece não deve ser respondida com insinuações, mas com documentos e investigação: o que explica a concentração de 96,31% dos empenhos das emendas de Soraya depois de 27 de março e qual foi o caminho político e orçamentário que levou dos acontecimentos da CPMI ao atual palanque eleitoral de Lula em Mato Grosso do Sul?