Ex-líder do governo Dilma tenta reconstrução política após terminar em último na disputa pela Prefeitura de Corumbá em 2024.
De primeiro senador da República preso no exercício do mandato a candidato novamente ao Governo de Mato Grosso do Sul. A trajetória de Delcídio do Amaral (PRD) volta ao centro do debate eleitoral em 2026, desta vez acompanhada de um número que chamou atenção logo no encerramento do prazo para registro das candidaturas: R$ 218.379.431,07 em patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.
O valor inicialmente informado coloca Delcídio muito acima dos principais adversários na corrida pelo Governo do Estado.
O governador Eduardo Riedel (PP), candidato à reeleição, declarou R$ 16.147.849,34. Na comparação direta, o patrimônio informado por Delcídio é cerca de 13,5 vezes maior que o declarado pelo atual governador.
Já Fábio Trad (PT) informou patrimônio de aproximadamente R$ 3,67 milhões.
Quase toda a fortuna atribuída a Delcídio no registro eleitoral estava concentrada em um único item. Na rubrica “outras aplicações e investimentos”, foram informados R$ 217 milhões referentes a infraestrutura e gado na Fazenda Santa Rosa.
Após a repercussão, porém, Delcídio afirmou que não possui patrimônio de R$ 218 milhões e atribuiu o montante a um erro no registro apresentado à Justiça Eleitoral.
Em tom de ironia, chegou a dizer que, se fosse realmente rico, estaria no Caribe em vez de estar no Brasil.
A explicação abre uma nova frente de atenção sobre a candidatura: saber se a declaração será corrigida oficialmente e qual é, afinal, o patrimônio que Delcídio reconhecerá perante a Justiça Eleitoral durante a campanha de 2026.
De potência política a uma sequência de derrotas
A candidatura de Delcídio em 2026 também representa mais uma tentativa de recuperação de uma carreira que já esteve entre as mais influentes de Mato Grosso do Sul.
Nas décadas de 2000 e 2010, Delcídio foi uma das principais lideranças políticas do Estado.
Pelo PT, chegou ao Senado da República, ganhou projeção nacional e ocupou posições de destaque em Brasília. Durante o governo de Dilma Rousseff, tornou-se líder do governo no Senado, posição que o colocava entre os principais articuladores do Palácio do Planalto no Congresso Nacional.
Em Mato Grosso do Sul, construiu uma estrutura política ampla e chegou às eleições estaduais de 2014 como um dos favoritos ao Governo.
Naquela disputa, avançou ao segundo turno, mas acabou derrotado por Reinaldo Azambuja, então candidato do PSDB.
A partir dali, sua trajetória mudou drasticamente.
Primeiro senador preso no exercício do mandato
O episódio mais marcante ocorreu em 25 de novembro de 2015.
Ainda filiado ao PT e exercendo o mandato de senador, Delcídio foi preso pela Polícia Federal por ordem do então ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal.
A prisão ocorreu no âmbito da Operação Lava Jato.
Delcídio foi acusado de atuar para tentar impedir ou dificultar a colaboração premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró.
Gravações realizadas pelo filho de Cerveró embasaram a investigação. Segundo a Procuradoria-Geral da República, nas conversas foram discutidos pagamentos mensais à família do ex-diretor para que determinados nomes não fossem mencionados em eventual acordo de colaboração.
Também foram discutidas possibilidades de retirada de Cerveró do Brasil.
Delcídio tornou-se naquele momento o primeiro senador brasileiro preso durante o exercício do mandato.
A Segunda Turma do STF confirmou a prisão por unanimidade.
No mesmo dia, o Senado decidiu mantê-lo preso por 59 votos a 13, além de uma abstenção.
Delcídio permaneceu cerca de 80 dias detido.
Cassação e rompimento com o PT
O escândalo produziu consequências políticas profundas.
Em 2016, Delcídio deixou o PT e firmou acordo de colaboração premiada no âmbito da Lava Jato.
Em sua delação, fez acusações e relatos envolvendo personagens de peso do próprio partido e do governo ao qual anteriormente havia servido como líder no Senado.
Entre os nomes mencionados em diferentes trechos da colaboração estavam a então presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros, senadores e políticos de outros partidos.
As acusações apresentadas por Delcídio foram contestadas por diversos dos citados.
Em maio daquele mesmo ano, o Senado cassou seu mandato.
Foram 74 votos pela cassação.
O político que pouco tempo antes havia sido um dos homens mais poderosos do PT em Brasília saía do Senado e entrava em uma fase completamente diferente de sua carreira.
Tentativa de retorno em 2018
Mesmo depois da cassação, Delcídio voltou às urnas.
Em 2018, conseguiu registrar candidatura ao Senado e tentou recuperar parte do espaço político perdido.
Não conseguiu.
Terminou a disputa com aproximadamente 4,76% dos votos, ocupando a sétima posição.
Naquela eleição, os eleitos para as duas vagas de Mato Grosso do Sul foram Nelsinho Trad e Soraya Thronicke.
Delcídio, no entanto, continuou preservando um eleitorado próprio, especialmente entre antigos eleitores que acompanharam sua trajetória durante os anos em que esteve no PT.
Essa memória política volta a ter importância em 2026.
Campanha de 2022 terminou com protesto de trabalhadores
Quatro anos depois, Delcídio tentou novamente retornar à vida parlamentar.
Em 2022, concorreu a deputado federal pelo então PTB.
A campanha acabou marcada por um episódio negativo logo após a eleição.
Cabos eleitorais e pessoas que trabalharam para candidatos da legenda realizaram um protesto em frente ao diretório partidário em Campo Grande reclamando de atrasos e ausência de pagamentos pelos serviços prestados durante a campanha.

Entre as candidaturas mencionadas pelos manifestantes estavam a de Delcídio Amaral.
Uma trabalhadora relatou na ocasião que havia atuado durante 12 dias e receberia R$ 1 mil, mas afirmava ainda não ter recebido o valor.
Delcídio se pronunciou por vídeo e atribuiu os atrasos a “questões burocráticas bancárias” relacionadas ao diretório nacional do PTB.
O episódio entrou para o histórico recente de campanhas do ex-senador.
Último lugar em Corumbá
Em 2024, Delcídio fez mais uma tentativa eleitoral.
Dessa vez, escolheu sua principal base política histórica, Corumbá, para disputar a Prefeitura.
O resultado foi duro.
Com 100% das urnas apuradas, Delcídio terminou em quarto e último lugar, recebendo 5.043 votos, o equivalente a 10,08% dos votos válidos.
O vencedor foi Dr. Gabriel, do PSB, com 28.394 votos e 56,74%.
Luiz Antonio Pardal ficou em segundo, com 21,30%, e André Campos terminou em terceiro, com 11,88%.
A derrota em sua própria base eleitoral reforçou a percepção de perda de força política de um nome que, anos antes, chegou a liderar disputas estaduais.

Agora, novamente candidato ao Governo
Dois anos depois, Delcídio tenta uma aposta ainda maior.
Filiado ao PRD, retorna em 2026 como candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul.
É sua terceira tentativa de comandar o Estado.
Delcídio disputou o Governo em 2006, quando foi derrotado por André Puccinelli, e em 2014, quando perdeu no segundo turno para Reinaldo Azambuja.
Agora tenta reconstruir sua imagem eleitoral depois de prisão, cassação, derrotas sucessivas e passagem por diferentes partidos.
Apesar do rompimento traumático com o PT, Delcídio ainda preserva vínculos políticos e eleitorais com parcela do campo da esquerda.
Sua entrada na disputa de 2026 é acompanhada com atenção principalmente por setores petistas.
Isso porque Fábio Trad, atual candidato do PT ao Governo, ainda enfrenta o desafio de consolidar o eleitorado tradicionalmente ligado à legenda, enquanto Delcídio carrega uma identidade histórica fortemente associada ao partido no Estado.
Mesmo fora do PT há uma década, o ex-senador ainda é lembrado por muitos eleitores como uma das principais lideranças que a legenda já teve em Mato Grosso do Sul.
Essa característica transforma sua candidatura em um potencial fator de divisão de votos no campo oposicionista.
Um patrimônio que virou assunto antes mesmo da campanha começar
Antes mesmo do primeiro dia oficial de propaganda eleitoral, porém, foi a declaração patrimonial que colocou Delcídio novamente no noticiário.
Os R$ 218,3 milhões inicialmente registrados não representam apenas o maior patrimônio declarado entre os principais candidatos ao Governo.
O número é aproximadamente 13,5 vezes o patrimônio de Eduardo Riedel e quase 60 vezes o valor informado por Fábio Trad.
Delcídio afirma que os R$ 218 milhões não correspondem à realidade e que houve erro no registro.
A partir de agora, caberá à candidatura esclarecer formalmente a divergência.
Independentemente da correção, o episódio acrescenta mais um capítulo a uma das trajetórias mais turbulentas da política sul-mato-grossense: de líder do governo no Senado e favorito ao Governo, passando pela prisão na Lava Jato e cassação, até o último lugar em Corumbá e uma nova candidatura ao Parque dos Poderes em 2026.