Roberta Luchsinger teria desembolsado R$ 9,2 mil pelas peças e repassado R$ 217 mil ao ex-assessor durante 2024; PF investiga se relação ajudava lobista a ampliar acesso ao núcleo do governo.
A relação financeira entre a lobista Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe do Gabinete Pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ganhou novos elementos nesta segunda-feira (17). Diálogos analisados pela Polícia Federal revelam que Roberta chegou a pagar joias escolhidas pelo então homem de confiança do presidente.
As mensagens são de abril de 2024, período em que Marcola ocupava posição estratégica dentro da Presidência da República e mantinha contato direto com Lula e ministros do governo.
Segundo informações reveladas por reportagens de O Globo e Metrópoles a partir do material da investigação, Roberta teria desembolsado R$ 9,2 mil na compra de duas joias destinadas a familiares de Marcola para o Dia das Mães.
As peças incluíam um par de brincos solitários e um colar com diamantes.
O episódio ganha relevância porque Roberta não é apenas amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A lobista também manteve relações profissionais com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, personagem central das investigações da Operação Sem Desconto.
Conversa sobre joias

Um dos diálogos recuperados pela Polícia Federal é de 29 de abril de 2024.
Nas mensagens, Marcola aparece discutindo com Roberta as opções de joias.
Depois de duas mensagens apagadas, ele escreve:
“vou tentar desenhar na foto”
E acrescenta:
“para facilitar”.
Roberta responde que a pessoa responsável pela venda enviaria outras fotografias.
“Ela vai mandar mais fotos”, escreve.
Marcola responde:
“ah ta bem”
“mas gostei dessas:”
Pouco depois, Roberta informa:
“Ela sugeriu um brilhante”
“Vai mandar”.
Na sequência aparecem fotografias de um par de brincos e de um colar. Marcola responde:
“boa”.
Segundo as informações reveladas a partir da investigação, Roberta posteriormente pagou R$ 9,2 mil pelas peças.
Relação financeira foi além das joias
A compra dos diamantes é apenas uma parte da movimentação financeira identificada entre Roberta e Marcola.
Segundo a investigação, ao longo de 2024, a lobista teria destinado aproximadamente R$ 217 mil ao então assessor presidencial.
O montante incluiria transferências bancárias, pagamentos de boletos e contas pessoais, além de presentes.
A existência desses pagamentos já havia sido revelada anteriormente. O fato novo é que a investigação encontrou conversas mostrando que parte dessa relação também envolvia a aquisição de presentes escolhidos pelo próprio Marcola.
Marcola diz que houve empréstimo de R$ 249 mil
Marcola nega qualquer irregularidade.
A versão apresentada pelo ex-assessor é de que as movimentações estavam vinculadas a um empréstimo pessoal de R$ 249 mil contraído com Roberta.
Ele afirma que o valor foi posteriormente devolvido, acrescido de juros e correção monetária.
Quando os primeiros pagamentos vieram a público, Marcola declarou:
“Recebi com surpresa a matéria que trata um empréstimo pessoal contraído e já quitado como algo ilegal. Nunca tive nenhuma relação que caracterize qualquer ilegalidade no exercício de minha função.”
A Polícia Federal, entretanto, continua investigando a natureza da relação financeira.
Um dos pontos sob apuração é se a proximidade com pessoas posicionadas no núcleo da Presidência poderia ter sido utilizada por Roberta para ampliar sua influência e facilitar interesses empresariais dentro do governo federal.
Roberta recebeu dinheiro de empresa ligada ao Careca do INSS
É justamente neste ponto que o caso ganha outra dimensão.
Roberta Luchsinger também aparece nas investigações envolvendo Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.
Segundo os elementos reunidos pela PF e revelados pela imprensa, uma empresa ligada ao empresário transferiu mais de R$ 1,1 milhão para uma companhia de Roberta. Considerando outros repasses investigados, os valores relacionados ao Careca destinados à lobista chegariam a aproximadamente R$ 1,5 milhão.
A PF procura esclarecer a finalidade desses pagamentos.
Não há, até o momento, conclusão de que os R$ 217 mil destinados a Marcola tenham origem nos recursos relacionados ao Careca do INSS.
Essa eventual conexão precisa ser comprovada pela investigação.
Roberta também é próxima de Lulinha
Outro ponto considerado relevante pelos investigadores é a relação de Roberta com Fábio Luís Lula da Silva.
A própria lobista já confirmou publicamente que apresentou Lulinha ao Careca do INSS, embora tenha negado que a aproximação tivesse finalidade comercial.
Agora, novas mensagens encontradas pela Polícia Federal mostram que Roberta e Lulinha discutiam negócios, reuniões e pessoas posicionadas dentro do governo.
Entre os nomes citados nas conversas está justamente Marcola.
Do Planalto para a campanha de Lula
Marco Aurélio Santana Ribeiro ocupou uma das funções de maior proximidade com Lula desde o início do terceiro mandato do petista.
Como integrante do Gabinete Pessoal, participava diretamente da rotina presidencial, tinha acesso ao chefe do Executivo e aparecia constantemente na agenda oficial do presidente.
Marcola deixou o Palácio do Planalto em julho de 2026.
O decreto assinado por Lula registrou sua exoneração, a pedido, em 21 de julho.
Depois de deixar formalmente o governo, passou a atuar na coordenação da campanha de reeleição do presidente.
Agora, os novos documentos encontrados pela Polícia Federal colocam sob investigação uma relação financeira mantida durante o período em que ele estava dentro do Palácio do Planalto.
A questão central para os investigadores será determinar se a relação entre Marcola e Roberta permaneceu exclusivamente no campo privado, como sustenta o ex-assessor, ou se a movimentação financeira tinha alguma relação com os interesses empresariais e políticos articulados pela lobista em Brasília.