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PF identifica ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro em nove meses

Registros vão de novembro de 2024 a agosto de 2025 e incluem reuniões em Brasília, na residência do banqueiro e um encontro durante feriado em Campos do Jordão

A Polícia Federal identificou indícios de que Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, se encontraram presencialmente ao menos seis vezes entre novembro de 2024 e agosto de 2025.

A reconstrução foi feita a partir de mensagens encontradas no celular do então dono do Banco Master. Em diferentes ocasiões, o próprio Vorcaro comunicou a familiares, funcionários, à namorada e até a um diretor do Banco Central que estava acompanhado do ministro.

O relatório registra reuniões na residência do banqueiro, um encontro em Brasília que teria avançado pela madrugada e uma conversa durante um feriado em Campos do Jordão.

Os investigadores também identificaram um possível sétimo encontro, mas afirmaram não haver elementos suficientes para confirmar que ele realmente ocorreu.

A quantidade e a frequência das reuniões reforçam que a relação entre Moraes e Vorcaro não se limitava a contatos eventuais em eventos públicos.

15 de novembro de 2024

O primeiro encontro da sequência destacada pela PF ocorreu em 15 de novembro de 2024.

Antes da reunião, mensagens mostram o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria tratando da marcação do compromisso. Faria pediu o endereço da residência de Vorcaro para encaminhá-lo a uma pessoa identificada como “Alex” e repassou uma mensagem atribuída a “Alexandre” propondo o encontro para as 19h30.

Depois das tratativas, Vorcaro escreveu à filha, Stella, informando:

“Estou com Alexandre Moraes.”

O episódio mostra Fábio Faria exercendo novamente o papel de intermediário entre o banqueiro e o ministro.

19 de março de 2025

O segundo encontro foi reconstruído com diferentes registros e é um dos mais detalhados no relatório policial.

Às 20h23, um funcionário de Vorcaro em Brasília informou ao banqueiro:

“Min Alexandre chegou.”

Vorcaro avisou sua então namorada, Martha Graeff, que estava com o ministro. Pouco depois, escreveu a Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor do Banco Central:

“Tô com Moraes aqui rsrs.”

As conversas continuaram pela madrugada. Às 0h32 do dia seguinte, Vorcaro afirmou que outras pessoas haviam chegado para conversar com “Alexandre”.

“Acabou chegando Hugo e Ciro aqui para falarem com Alexandre.”

Pelo contexto, a PF concluiu que a reunião pode ter durado mais de quatro horas, começando às 20h23 e avançando pelo menos até 0h32.

O relatório precisa esclarecer quem eram “Hugo” e “Ciro”, quais assuntos foram discutidos e por que um diretor do Banco Central foi informado de que Vorcaro estava reunido com Moraes.

19 de abril de 2025

Um mês depois, Vorcaro informou a Martha Graeff que se encontraria novamente com o ministro.

Às 17h22, escreveu:

“Estou indo encontrar Alexandre Moraes aqui perto de casa.”

Martha demonstrou surpresa e perguntou:

“Como assim, amor? Ele está em Campos ou foi pra te ver?”

Vorcaro respondeu:

“Ele tá passando feriado.”

A PF considera que “Campos” seria uma referência a Campos do Jordão, no interior de São Paulo.

O episódio indica que o encontro ocorreu durante um feriado, fora de uma agenda oficial conhecida.

A investigação deverá verificar onde a reunião aconteceu, quem participou e se houve utilização de alguma propriedade ou hotel ligado a Vorcaro.

29 de abril de 2025

Dez dias depois, Vorcaro voltou a dizer que estava acompanhado de “Alexandre”.

Inicialmente, o banqueiro informou que estava com ele. Mais tarde, disse à namorada que já estava em casa.

Depois de uma ligação, Martha perguntou quem era o “primeiro cara” que estava com Vorcaro. Ele respondeu:

“Alexandre Moraes.”

A conversa foi considerada pela PF como mais um indício de encontro presencial.

21 de maio de 2025

Em 21 de maio, Martha perguntou a Vorcaro sobre sua agenda.

O banqueiro respondeu que estava em casa e acrescentou:

“Estou com Ciro e Alexandre.”

A referência a “Ciro” pode ser ao advogado Ciro Soares, que aparece em outros capítulos do relatório como intermediário de contatos entre Vorcaro e autoridades.

Ciro também participou das tratativas para eventos em Londres e dos contatos envolvendo o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

8 de agosto de 2025

O sexto encontro apontado aconteceu em 8 de agosto de 2025.

Ao ser questionado se conseguiria viajar naquele dia, Vorcaro respondeu que provavelmente não poderia porque estava com “Alexandre”.

Disse ainda que, depois do encontro, teria uma reunião com “Ciro”.

A conversa reforça a participação de Ciro Soares no círculo de contatos acionado pelo banqueiro.

Possível sétimo encontro

O relatório registra ainda um possível encontro em 26 de maio de 2025.

Naquele dia, Vorcaro afirmou à namorada que se encontraria com “Alexandre” e que estava organizando um jantar com as esposas de Fábio Faria e do ministro.

A PF, entretanto, não encontrou elementos suficientes para confirmar que o jantar foi realizado.

Por isso, o episódio foi tratado como uma possibilidade e não entrou na contagem dos seis encontros considerados mais bem sustentados pelas mensagens.

Aproximação começou antes

Os contatos entre Moraes e Vorcaro começaram antes da sequência destacada entre novembro de 2024 e agosto de 2025.

O relatório policial identificou duas reuniões realizadas no fim de 2023, pouco antes da negociação do contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes.

Em 21 de dezembro de 2023, Fábio Faria pediu a Vorcaro o modelo e a placa do veículo para que a segurança autorizasse a entrada na garagem da residência de Moraes, em São Paulo.

Vorcaro informou que chegaria em uma Range Rover Vogue.

Depois da conversa, Faria encaminhou ao banqueiro um relato atribuído ao ministro:

“Gostei da conversa. Vou montar um negócio bacana demais e já logo na terça-feira eu quero marcar.”

Cinco dias depois, em 26 de dezembro, ocorreu uma nova reunião. Naquela data, Fábio Faria também encaminhou a Vorcaro os contatos de Alexandre e Viviane Barci de Moraes.

Em 11 de janeiro de 2024, Viviane enviou ao banqueiro a primeira minuta do contrato de prestação de serviços advocatícios.

No dia 15, a versão devolvida por Vorcaro foi modificada no Office 365 por um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

O documento final foi encaminhado pela advogada no dia 17 e assinado digitalmente pelo banqueiro em 23 de janeiro.

Essa cronologia coloca os encontros com Moraes imediatamente antes da contratação milionária do escritório de sua esposa.

Encontro em fevereiro de 2024

Outras mensagens apontam uma reunião em 2 de fevereiro de 2024, na casa de Fábio Faria, já depois da assinatura do contrato.

Segundo os registros, o jantar teria sido solicitado pelo próprio ministro e contaria com a presença das esposas de Moraes, Faria e Vorcaro.

Em 17 de julho daquele ano, Fábio Faria enviou outra mensagem ao banqueiro:

“Careca 19:30.”

O termo “careca” aparece em diferentes diálogos relacionados a Moraes, inclusive em cobranças sobre pagamentos ao escritório Barci de Moraes.

Esses encontros anteriores indicam que a relação pode ser ainda mais extensa do que os seis episódios destacados na fase seguinte do relatório.

Fábio Faria abriu as portas

Fábio Faria aparece repetidamente como responsável por aproximar Vorcaro de Moraes.

O ex-ministro conheceu o banqueiro em um evento realizado em Paris em outubro de 2023. A partir dali, passou a organizar reuniões, encaminhar contatos e intermediar comunicações.

Poucos meses depois, Faria vendeu a Vorcaro participação em um projeto de energia eólica. O negócio, concluído em fevereiro de 2024, avaliou o empreendimento em R$ 75 milhões. O banqueiro pagou R$ 67,5 milhões, enquanto Faria permaneceu com uma participação de 10%.

A atuação do ex-ministro precisa ser examinada para esclarecer se ele fazia apenas apresentações entre empresários e autoridades ou se exercia influência em troca de benefícios financeiros.

Até o momento, Faria não é apontado como investigado especificamente pelos encontros entre Moraes e Vorcaro.

Reuniões não comprovam irregularidade

Um ministro do STF pode participar de jantares, manter relações pessoais e encontrar empresários. A realização das reuniões, por si só, não configura crime.

O problema está no contexto em que elas ocorreram.

Durante esse período:

O escritório da esposa de Moraes mantinha um contrato de R$ 131 milhões com o Master;

Vorcaro classificava os repasses como os mais importantes do banco;

Uma segunda negociação de R$ 50 milhões começou a ser estruturada;

A família do ministro utilizou serviços de aeronaves ligadas ao banqueiro;

Cartões de R$ 300 mil foram emitidos para dois filhos de Moraes;

Vorcaro buscava acesso às cúpulas da PF e da PGR;

O banco enfrentava fiscalização e investigações.

Por isso, a apuração precisa saber o conteúdo de cada reunião e se assuntos de interesse do Banco Master foram discutidos.

Moraes precisa esclarecer agenda

Alexandre de Moraes nega ter recebido as mensagens de visualização única atribuídas a Vorcaro. Essa negativa não esclarece, porém, as reuniões relatadas pelo banqueiro a diferentes pessoas.

A confirmação ou rejeição dos encontros pode ser feita por meio de agendas, registros de entrada, dados de localização, motoristas, seguranças, funcionários e demais participantes.

O ministro também precisa informar se as reuniões foram comunicadas ao STF e se tratou de assuntos relacionados ao Banco Master, ao Banco Central, à Polícia Federal ou à Procuradoria-Geral da República.

O O Contribuinte continuará acompanhando a reconstrução dessa agenda e cobrando respostas das autoridades envolvidas.