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URGENTE: Sigilo cai e contrato de R$ 131 milhões do Master revela atuação de escritório de Moraes perante PF, BC e Receita

Documento disponibilizado após retirada de sigilo prevê 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos e atuação estratégica perante Judiciário, Ministério Público, Polícia Judiciária, Banco Central, Receita, Cade e Legislativo; outra proposta de R$ 50 milhões para empresa de Vorcaro também veio a público.

A retirada do sigilo de investigações relacionadas ao Banco Master colocou diante do público, na madrugada desta sexta-feira (11), documentos que permitem conhecer em detalhes o tamanho e, principalmente, o objeto do contrato firmado entre o banco de Daniel Vorcaro e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, ligado a Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.

E a íntegra mostra que o contrato ia muito além da representação do banco em processos judiciais.

O documento previa expressamente “consultoria estratégica e jurídica” em procedimentos e inquéritos nas Polícias Federal e Civis, além de atuação perante Banco Central, Receita Federal e Cade.

Também estabelecia a criação e coordenação de cinco núcleos de atuação envolvendo Judiciário, Ministério Público, Polícia Judiciária, órgãos do Executivo e Legislativo.

Tudo isso dentro de um contrato de três anos que estabelecia R$ 3 milhões líquidos por mês em honorários.

R$ 3 milhões líquidos todos os meses

A cláusula financeira é objetiva.

O contrato estabelece vigência de três anos, com:

“36 (trinta e seis) parcelas mensais e sucessivas no valor fixo de R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais) líquidos.”

São, portanto, R$ 108 milhões líquidos ao longo dos 36 meses caso o contrato fosse integralmente executado.

Mas o próprio documento explica que, considerando a carga tributária prevista, o valor bruto mensal chegaria a:

R$ 3.646.529,77.

Multiplicado pelos 36 meses, isso representa aproximadamente:

R$ 131,27 milhões brutos.

É daí que vem o valor de aproximadamente R$ 131 milhões atribuído ao contrato.

E o que o Master estava contratando?

Esse talvez seja o ponto mais relevante revelado pela íntegra.

O objeto não se limitava a processos judiciais comuns.

O contrato previa que o Barci de Moraes atuaria na:

“consultoria estratégica e jurídica em procedimentos/inquéritos policiais nas Polícias Federal e Civis e procedimentos administrativos, inclusive perante o Banco Central, a Receita Federal e CADE”.

Também incluía:

“processos judiciais em todas as instâncias do Poder Judiciário”.

Ou seja, o contrato abrangia justamente órgãos policiais, reguladores, administrativos e judiciais com capacidade de investigar, fiscalizar ou julgar questões relacionadas ao banco.

A existência dessas cláusulas não demonstra, por si só, qualquer atuação irregular. São serviços que podem integrar contratos advocatícios empresariais. O interesse público está no valor, na abrangência e no contexto posterior envolvendo Vorcaro, autoridades e investigações do Master.

Cinco núcleos de atuação

Outra cláusula detalha a estrutura que seria montada para atender o Banco Master.

O escritório se comprometia com:

“A organização e coordenação de CINCO NÚCLEOS de atuação conjunta e complementar — estratégica, consultiva e contenciosa”.

E enumera onde esses núcleos atuariam:

Judiciário;

Ministério Público;

Polícia Judiciária;

órgãos do Executivo, expressamente Banco Central, Receita Federal, PGFN e Cade;

e Legislativo, incluindo acompanhamento de projetos de lei de interesse do contratante.

É uma abrangência que ajuda a explicar a dimensão financeira do contrato, mas que também deverá ser examinada à luz das investigações sobre a rede de relações construída por Daniel Vorcaro.

Compliance também estava no pacote

O contrato ainda previa implantação e acompanhamento de um amplo programa de integridade e compliance.

Entre as atividades aparecem identificação de riscos, controles internos, políticas de integridade, canais de denúncia, treinamento, medidas disciplinares e acompanhamento de atividades consideradas de maior risco.

O escritório também ficaria responsável por ampla atividade jurídica e processual.

Portanto, seria impreciso afirmar que o contrato tratava exclusivamente de “inteligência” ou de atuação perante a PF.

Mas também seria impreciso reduzir o documento a advocacia judicial genérica.

A íntegra mostra expressamente a contratação de atuação estratégica diante de diversas instituições do Estado.

Metadados colocaram Alexandre de Moraes na controvérsia

Existe ainda um elemento que tornou o contrato especialmente sensível.

Como O Contribuinte já mostrou em sua cobertura, a análise realizada pela Polícia Federal identificou em uma versão do arquivo do contrato o registro de última modificação associado ao usuário:

“Ministro Alexandre de Moraes”.

A data registrada era 15 de janeiro de 2024, às 23h04.

O dado não prova sozinho que Moraes tenha redigido cláusulas, negociado valores ou participado materialmente da contratação.

O escritório sustenta que o ministro foi consultado para verificar eventuais impedimentos e nega irregularidades.

Mas os metadados passaram a integrar o conjunto de questões que cercam a relação entre o Master e o escritório de sua esposa.

E havia outra proposta: R$ 50 milhões

A derrubada do sigilo trouxe ainda uma segunda frente.

Também veio a público uma proposta do escritório para a Viking Participações, outra empresa relacionada a Daniel Vorcaro.

O valor previsto era de R$ 50 milhões líquidos em três anos.

Nesse caso, existe uma diferença fundamental.

Segundo o escritório, a proposta não foi aceita nem assinada.

Por isso, os R$ 50 milhões não podem ser apresentados como dinheiro recebido ou como contrato efetivamente celebrado.

Mas a existência da proposta amplia o retrato das tratativas comerciais mantidas entre o grupo de Vorcaro e o escritório.

Mensagens de Vorcaro aumentam peso do contrato

O documento também não surgiu isoladamente.

O relatório policial produzido a partir do telefone de Daniel Vorcaro encontrou referências a diferentes autoridades.

Entre elas estavam mensagens envolvendo um contato identificado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Também foram encontradas referências a Andrei, que a PF tratou em determinados trechos como possível referência ao diretor-geral Andrei Rodrigues, além de menções a Paulo, cuja possível identificação com Paulo Gonet foi considerada no relatório.

Em outra conversa anteriormente revelada, Vorcaro discutia convite ao diretor-geral da PF:

“O que acha de eu convidar o DPF Andrei”

Na sequência aparece:

“Aí fechamos o PGR e o DPF”.

Depois:

“Podem entrar em contato lá na PF. Ele aceitou”.

E:

“Vc avisa pro Marcio entrar em contato com o Andrei?”

A existência dessas mensagens não demonstra que as autoridades citadas tenham cometido crimes. Mas ajuda a explicar por que as relações institucionais e pessoais de Vorcaro passaram a receber escrutínio tão intenso.

A pergunta sobre deixar o Brasil

Outro episódio revelado nas investigações envolve uma consulta atribuída a Vorcaro pouco antes de sua prisão.

Segundo as informações já tornadas públicas na investigação, o banqueiro teria questionado se deveria deixar o país.

Esse conjunto de contatos passou a ser analisado ao lado do contrato milionário mantido com o escritório de Viviane.

É justamente a combinação desses elementos, e não uma cláusula isolada, que torna o caso politicamente explosivo.

Mendonça abre 14 procedimentos

A íntegra tornou-se pública depois que o ministro André Mendonça determinou a retirada do sigilo de uma série de procedimentos ligados ao caso Master.

Segundo as informações divulgadas, foram 14 procedimentos, além do principal.

Com isso, documentos que permaneciam restritos passaram a ser disponibilizados, entre eles os contratos relacionados ao escritório Barci de Moraes.

E a abertura documental ocorre às vésperas de uma data importante.

Na terça-feira, 15 de setembro, o Supremo deverá enfrentar uma nova etapa da controvérsia relacionada ao relatório produzido pela Polícia Federal e ao pedido da Procuradoria-Geral da República que questiona sua validade.

O Banco Master celebrou um contrato milionário com o escritório da esposa de um ministro do STF;

o contrato abrangia expressamente consultoria em inquéritos da Polícia Federal e das Polícias Civis;

previa atuação perante Banco Central, Receita Federal e Cade;

criava cinco núcleos para atuação perante diferentes Poderes e instituições;

previa R$ 108 milhões líquidos, ou aproximadamente R$ 131,27 milhões brutos, em três anos;

e uma versão eletrônica analisada pela PF apresentou metadado associado ao nome de Alexandre de Moraes como último modificador.

Ao mesmo tempo, o celular de Vorcaro revelou uma rede de contatos e referências a integrantes de instituições que poderiam ter atuação sobre interesses do banco.

Quanto mais documentos aparecem, mais perguntas surgem

A derrubada do sigilo muda uma característica fundamental do caso Master.

Até aqui, grande parte da discussão pública era alimentada por trechos de relatórios, mensagens e revelações fragmentadas.

Agora, o próprio contrato pode ser lido e confrontado cláusula por cláusula.

E algumas perguntas passam a ser inevitáveis:

Quais serviços previstos foram efetivamente executados?

Quais órgãos públicos foram procurados pelo escritório em nome do Master?

Houve atuação perante a Polícia Federal?

Houve atuação perante o Banco Central?

Quanto efetivamente foi pago?

Qual foi a participação de Alexandre de Moraes no arquivo que registra seu nome nos metadados?

E qual era a natureza exata da relação mantida entre Moraes e Daniel Vorcaro?

A retirada do sigilo não responde a tudo.

Mas colocou diante do público documentos que tornam possível fazer perguntas muito mais precisas.

E, no caso Master, cada novo documento aberto vem tornando mais difícil tratar a crise apenas como uma sucessão de versões políticas.