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MP diz que Alir recebeu mais de R$ 200 mil de Paulo e tinha depósitos sem origem identificada

Relatório obtido pelo O Contribuinte afirma que presidente da Santa Casa recebeu valores diretamente de Paulo da Cruz Duarte e registrou numerosos depósitos cuja origem não foi identificada e que, segundo o Gecoc, não constavam no Imposto de Renda.

A relação entre Alir Terra Lima, presidente afastada da Santa Casa de Campo Grande e presa preventivamente na Operação Antidotum, e o advogado Paulo da Cruz Duarte ganhou um novo e mais sensível capítulo no relatório do Ministério Público obtido pelo Portal O Contribuinte.

Além da sociedade profissional antiga, do compartilhamento de escritório e das empresas ligadas a Paulo que passaram a contratar com a Santa Casa Saúde, o Gecoc identificou também fluxo financeiro pessoal direto entre os dois.

Segundo a análise preliminar dos dados bancários, Alir recebeu mais de R$ 200 mil provenientes diretamente de Paulo da Cruz Duarte.

O Ministério Público trata esse dado como relevante porque as transferências ocorreram dentro do mesmo contexto em que empresas controladas ou vinculadas a Paulo começaram a ocupar diferentes áreas da Operadora Santa Casa Saúde. 

Depósitos sem identificação de origem

O relatório vai além.

Na conta bancária de Alir, os investigadores afirmam ter localizado “numerosos depósitos sem identificação de origem”.

Segundo o Gecoc, esses recursos também não teriam sido declarados no Imposto de Renda da presidente da Santa Casa.

Esse é um dos pontos mais sensíveis de toda a investigação porque desloca o foco de contratos firmados pela instituição para a própria movimentação financeira pessoal de quem ocupava o principal cargo administrativo da Santa Casa.

O relatório, porém, não estabelece nesse trecho qual seria a origem final de todos esses valores nem afirma, de forma isolada, que os depósitos correspondem a recursos desviados da instituição.

Essa origem é justamente uma das questões que a investigação busca esclarecer.

Relação entre Alir e Paulo começou anos antes da Santa Casa

O Contribuinte já vinha acompanhando essa relação antes mesmo da Operação Antidotum.

Documentos e registros públicos haviam mostrado que Alir e Paulo mantinham vínculo profissional antigo e compartilhavam endereço.

Agora, a investigação do Ministério Público afirma ter encontrado elementos ainda mais claros.

Segundo o Gecoc, Alir e Paulo eram sócios profissionais e atuavam conjuntamente em escritório de advocacia instalado em imóvel pertencente a Alir.

O relatório cita recibos conjuntos, peças processuais assinadas pelos dois e documentos profissionais com referência ao escritório “Terra Lima & Duarte Cruz Advocacia”. 

Empresas de Paulo entraram na Santa Casa Saúde depois de Alir assumir

Alir assumiu a presidência da Santa Casa em fevereiro de 2023.

Segundo o Ministério Público, a partir de então empresas ligadas a Paulo passaram progressivamente a celebrar contratos com a Santa Casa Saúde.

O Gecoc sustenta que a primeira contratação identificada ocorreu em agosto de 2023 e que, depois disso, diferentes empresas relacionadas a Paulo passaram a atuar em áreas como:

assessoria jurídica;

cobrança;

atendimento;

emissão de boletos;

comercialização e agenciamento de planos;

administração de benefícios;

entrevistas qualificadas;

telemedicina;

publicidade;

serviços relacionados à filial de Dourados.

O MP afirma que a relação entre Alir e Paulo não se limitava mais à antiga parceria na advocacia.

R$ 9,6 milhões pagos em apenas um ano

Segundo a investigação, empresas vinculadas a Paulo receberam R$ 9.617.738,49 da Santa Casa Saúde somente em 2025.

No mesmo exercício, a operadora registrou resultado negativo de R$ 3.555.901,12. 

Para o Ministério Público, esse conjunto de relações empresariais, profissionais e financeiras pessoais precisa ser analisado de forma integrada.

Alir também comprou imóvel de R$ 400 mil em espécie

A investigação patrimonial encontrou ainda duas aquisições imobiliárias em nome de Alir.

Uma ocorreu em 2021, antes de ela assumir a presidência da Santa Casa, no valor de R$ 450 mil.

Outra foi registrada em 24 de janeiro de 2025, quando Alir já comandava a instituição.

Nesse segundo caso, a presidente adquiriu um imóvel residencial na Rua João Pessoa por R$ 400 mil, valor declarado como pago integralmente no ato, em espécie.

O próprio MP ressalta que essas aquisições precisam ser cruzadas com as movimentações bancárias, contratos e pagamentos realizados no mesmo período.

O relatório não afirma que o imóvel tenha sido comprado com dinheiro desviado.

MP coloca Alir no centro da estrutura investigada

O Ministério Público descreve Alir como a pessoa que ocupava a posição de comando da Santa Casa e da operadora.

Segundo o Gecoc, ela seria o elo entre:

a estrutura interna da instituição, os gestores responsáveis pela liberação de recursos e os empresários beneficiados pelos contratos.

O relatório afirma ainda que, durante a gestão de Alir, a Redvalue foi mantida mesmo depois de apontamentos do Conselho Fiscal e empresas ligadas a Paulo passaram a ocupar sucessivamente diferentes setores da Santa Casa Saúde. 

O Contribuinte vinha alertando antes da operação

Muito antes das prisões, O Contribuinte vinha acompanhando a crise financeira e administrativa da Santa Casa.

O portal publicou questionamentos sobre contratos, estrutura empresarial, patrimônio de integrantes da gestão, dificuldades financeiras, atrasos, problemas com médicos e suspensão de serviços.

A Operação Antidotum acrescenta agora elementos que não estavam disponíveis naquela época.

Entre eles, a existência de transferências pessoais de mais de R$ 200 mil entre Paulo e Alir e a presença, segundo o MP, de depósitos sem origem identificada na conta da presidente.

O que é a Operação Antidotum

A Operação Antidotum foi deflagrada em 11 de setembro de 2026 pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, por meio do Gecoc e Gaeco.

A investigação apura suspeitas envolvendo contratos da Santa Casa e da Operadora Santa Casa Saúde.

Foram presos preventivamente:

Alir Terra Lima;
Rinaldo Hakme Romano;
Alessandro Dias Junqueira;
Paulo Guilherme Gutierres Mariosa;
Monique Gregório de Oliveira;
Maurício Aparecido Benites.

Paulo da Cruz Duarte não foi preso. Ele foi alvo de busca e apreensão e teve afastamento cautelar determinado pela Justiça.

As acusações descritas nesta reportagem são do Ministério Público e integram uma investigação em andamento. Os investigados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.