Luiz Alberto Hiroki Kanamura, atual superintendente de Gestão Médico-Hospitalar e ex-diretor clínico, assume a instituição 11 dias depois da operação que levou integrantes da cúpula administrativa à prisão preventiva.
A Santa Casa de Campo Grande terá oficialmente um novo comando a partir desta terça-feira (22). O cirurgião cardiovascular Luiz Alberto Hiroki Kanamura será empossado presidente da instituição após o afastamento de Alir Terra Lima, presa preventivamente no último dia 11 durante a Operação Antidotum.
Kanamura já faz parte da estrutura administrativa do hospital. Atualmente, ocupa a Superintendência de Gestão Médico-Hospitalar e também já exerceu a função de diretor clínico.
A troca no comando acontece em um dos momentos mais delicados da história recente da maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul.
Além da crise financeira e operacional que vinha atingindo médicos, trabalhadores e pacientes, a Santa Casa passou a enfrentar uma investigação criminal que atingiu diretamente integrantes de sua cúpula administrativa.
Novo presidente assume hospital em crise
Kanamura não receberá apenas a missão de substituir Alir institucionalmente.
O novo presidente assume uma Santa Casa que vinha enfrentando problemas de caixa, dificuldades para manter serviços, atrasos relacionados a profissionais e cobranças por maior transparência sobre contratos e pagamentos.
Nos últimos meses, a situação chegou a provocar suspensão de procedimentos eletivos e mobilização de profissionais.
A crise atingiu também quem está diariamente na linha de frente do hospital, incluindo médicos, enfermeiros, técnicos e demais trabalhadores.
Agora, além da recuperação financeira e operacional, a nova presidência terá pela frente o desafio de reorganizar a estrutura administrativa atingida pela Antidotum.
Alir foi presa em 11 de setembro
A mudança ocorre após Alir Terra Lima, então presidente da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, ter sido presa preventivamente em 11 de setembro.
A prisão ocorreu durante a Operação Antidotum, realizada pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e com atuação do Gaeco no cumprimento das medidas.
Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 36 mandados de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia.
As prisões são cautelares e não representam condenação.
Investigação atingiu cúpula da Santa Casa
Além de Alir, tiveram a prisão preventiva decretada Rinaldo Hakme Romano, Alessandro Dias Junqueira, Paulo Guilherme Gutierres Mariosa, Monique Gregório de Oliveira e Maurício Aparecido Benites.
A investigação alcança contratos, pagamentos e movimentações financeiras envolvendo a Santa Casa e a Operadora Santa Casa Saúde.
Em uma das frentes, relacionada à contratação da Redvalue, a decisão judicial registra que o procedimento teria começado sem estudo técnico preliminar, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração objetiva de vantagem econômica.
O Ministério Público também aponta que, antes mesmo da formalização do negócio, Maurício Benites teria encaminhado a Rinaldo Romano uma minuta editável do contrato que posteriormente seria celebrado entre a Santa Casa e a Redvalue.
Conselho Fiscal já havia apontado problemas
Outro elemento da investigação mostra que os problemas não surgiram apenas com a operação.
Em 28 de agosto de 2025, o Conselho Fiscal formalizou questionamentos sobre pagamentos relacionados à Redvalue, recomendou apuração de responsabilidades e pediu a suspensão imediata do contrato.
Segundo o Ministério Público, mesmo depois dessa comunicação, Alir manteve a relação contratual.
A defesa de Alir contesta as acusações e sustenta que a então presidente não era responsável pela realização dos pagamentos. As imputações ainda serão analisadas no processo.
Segunda frente investiga Santa Casa Saúde
A Antidotum também avançou sobre a Operadora Santa Casa Saúde.
O Ministério Público investiga sucessivas contratações de empresas relacionadas a Paulo da Cruz Duarte, distribuídas por diferentes atividades da operadora, incluindo cobrança, atendimento, comercialização e agenciamento de planos, telemedicina, publicidade e serviços relacionados à abertura da filial de Dourados.
Paulo da Cruz Duarte não foi preso. A Justiça determinou seu afastamento cautelar das funções e autorizou buscas no âmbito da investigação.
Kanamura assume em cenário de reconstrução
É dentro desse cenário que Luiz Kanamura chega à presidência.
A posse representa mais do que uma simples troca de nomes no comando do hospital.
A nova administração encontrará uma instituição que precisa administrar simultaneamente a assistência aos pacientes, a relação com médicos e demais trabalhadores, as dificuldades financeiras e os desdobramentos de uma investigação que atingiu setores estratégicos da administração.
Também haverá pressão por transparência.
O relatório da Antidotum registra que, antes da operação, houve disputa judicial pelo acesso a contratos, notas fiscais e documentos financeiros. Em uma das decisões, o juiz Eduardo Lacerda Trevizan chegou a registrar seu “espanto” com a resistência da instituição em mostrar suas contas.
A posse de Kanamura está marcada para terça-feira, 22 de setembro, 11 dias após a deflagração da Antidotum.
A partir daí, a Santa Casa começa oficialmente um novo capítulo administrativo enquanto as investigações sobre a gestão anterior continuam em andamento.