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Intervenção: Uma em cada quatro viagens de ônibus previstas não foi realizada em Campo Grande em 2025

Relatório entregue à prefeita Adriane Lopes mostra deterioração contínua da operação mesmo sem redução da quantidade de ônibus da frota.

O primeiro relatório oficial dos 90 dias de intervenção no Consórcio Guaicurus revela que a crise do transporte coletivo de Campo Grande não estava apenas na idade dos ônibus ou nas dificuldades financeiras da concessionária. Ela também chegou diretamente à quantidade de viagens efetivamente oferecidas à população.

Em 2025, apenas 74,5% das viagens programadas foram realizadas.

Na prática, isso significa que aproximadamente uma em cada quatro viagens previstas deixou de acontecer.

O documento, agora nas mãos da prefeita Adriane Lopes (PP), mostra ainda que o problema não surgiu de uma vez. A eficiência operacional vinha caindo sucessivamente nos últimos anos.

Em 2023, 86,4% das viagens previstas foram realizadas.

Em 2024, o índice recuou para 82,2%.

Em 2025, caiu para 74,5%.

E nos cinco primeiros meses de 2026, antes da intervenção, continuava em apenas 76%.

Segundo a própria equipe interventora, os números demonstram que “ano a ano, uma parcela crescente das viagens programadas deixou de ser efetivamente realizada”.

Queda ocorreu sem redução da frota

Outro dado apresentado no relatório chama atenção.

A redução da operação não aconteceu porque o Consórcio Guaicurus tivesse diminuído proporcionalmente a quantidade de ônibus pertencentes às empresas.

Entre 2023 e 2025, o número de viagens efetivamente realizadas caiu aproximadamente 14%.

No mesmo intervalo, a quilometragem percorrida pelos ônibus despencou ainda mais: 15,2%.

Foram 19,3 milhões de quilômetros percorridos em 2023, contra 16,3 milhões em 2025.

Uma diferença de quase 3 milhões de quilômetros em dois anos.

Somente entre 2024 e 2025, foram 2 milhões de quilômetros a menos, queda de aproximadamente 10,9%.

A intervenção ressalta que essa redução ocorreu sem diminuição estrutural da quantidade de veículos da frota, apontando a necessidade de avaliar fatores como disponibilidade dos ônibus, manutenção e capacidade de utilização dos veículos existentes.

21,9 mil autuações ajudam a contar a história

Os números encontrados pelos interventores se somam a um histórico de milhares de autuações.

Entre 2021 e 2025, a Agetran registrou 21.910 autuações contra o Consórcio Guaicurus.

Foram 12.279 por descumprimento de horários, 3.444 por omissões de viagens e outras 1.385 envolvendo veículos com equipamentos obrigatórios defeituosos ou inoperantes.

O próprio relatório dos interventores afirma que a queda da eficiência das viagens confirma a “persistência e o agravamento” do quadro anteriormente registrado pela fiscalização.

Para quem dependia diariamente do transporte coletivo, os números ajudam a explicar uma reclamação antiga: esperar por um ônibus programado que simplesmente não aparecia.

Intervenção encontra mudança nos números

O comportamento dos indicadores começa a mudar depois que a Prefeitura assumiu temporariamente a administração da concessão.

A intervenção teve início em 16 de junho.

Naquele mês, foram realizadas 72.208 viagens. O dado engloba dias anteriores e posteriores à entrada dos interventores e, portanto, não pode ser atribuído integralmente à nova administração.

Em julho, primeiro mês completo sob intervenção, foram 76.961 viagens.

Em agosto, 75.604.

Os dois meses permaneceram acima do resultado registrado em junho.

O próprio relatório considera que os números mostram recuperação do volume de viagens após o início da intervenção, mas alerta que o comportamento deverá continuar sendo acompanhado para verificar se a melhora será sustentada.

Quilometragem também reage

O movimento aparece igualmente na quantidade de quilômetros percorridos pelos ônibus.

Em junho, foram 1.353.789 quilômetros.

Em julho, o número subiu para 1.447.880 quilômetros, crescimento aproximado de 6,9%.

Em agosto, foram 1.416.915 quilômetros, ainda cerca de 4,7% acima do resultado de junho.

A análise técnica destaca que viagens e quilometragem caminharam na mesma direção: quando as viagens caíram nos anos anteriores, os quilômetros percorridos também diminuíram; quando começou a recuperação, os dois indicadores apresentaram reação.

Passageiros também estavam abandonando o sistema

A deterioração da oferta veio acompanhada de outro problema: Campo Grande perdeu passageiros do transporte coletivo.

Nos primeiros cinco meses de 2025, foram transportados 13.022.286 passageiros.

No mesmo período de 2026, antes da intervenção, o total caiu para 11.994.465.

São mais de 1 milhão de passageiros a menos em apenas cinco meses na comparação anual, queda de aproximadamente 7,9%.

O relatório considera que o resultado, analisado junto à redução das viagens e da quilometragem, demonstra forte deterioração do serviço no período anterior à intervenção.

Agosto mostra reação

Depois da intervenção, também houve mudança nesse indicador.

Em agosto, o sistema transportou 2.526.444 passageiros.

Foi o terceiro melhor resultado de 2026 e a segunda vez no ano em que o movimento mensal ficou acima do registrado no mesmo mês de 2025.

O resultado também superou julho, quando foram transportados 2.390.237 passageiros, e junho, com 2.484.261.

Ainda é cedo, entretanto, para afirmar que o usuário voltou definitivamente ao ônibus.

O próprio relatório faz essa ressalva.

Entre 2023 e 2025, o total de passageiros transportados caiu aproximadamente 9,9%. Quando considerados apenas os passageiros pagantes, a queda chegou a 12,3%.

A equipe interventora pondera que não é possível atribuir toda essa redução exclusivamente à qualidade do serviço, porque a demanda é influenciada por diversos fatores.

Mas conclui que recuperar a confiança dos usuários deverá ser tratada como uma missão específica para os próximos anos.

Depois de sucessivos atrasos, viagens não realizadas e indisponibilidade da frota, diz o documento, o passageiro pode ter reorganizado sua rotina e migrado para outros meios de transporte.

Problema que chegou às ruas agora aparece nos documentos

Os números reforçam uma crise que já vinha sendo acompanhada pelo O Contribuinte.

O jornal mostrou o sucateamento da frota, acompanhou a CPI do Transporte Público e noticiou em primeira mão a ação popular apresentada por Luso de Queiroz que levou à Justiça o pedido por providências relacionadas à intervenção.

O primeiro relatório dos interventores agora acrescenta números oficiais àquilo que durante anos foi percebido principalmente pelo passageiro nos pontos de ônibus.

A intervenção foi decretada em 16 de junho, após decisão liminar e processo administrativo municipal, com o objetivo declarado de interromper a degradação do serviço e restabelecer sua segurança.

Passados os primeiros 90 dias, o diagnóstico mostra o tamanho da deterioração: de cada 100 viagens que deveriam ter sido realizadas em 2025, pouco mais de 74 efetivamente saíram.

Os primeiros indicadores sob intervenção apontam uma reação.

Agora, o desafio da Prefeitura será demonstrar que essa recuperação não é apenas momentânea e que pode chegar até onde realmente interessa: ao passageiro esperando o ônibus no ponto.