Em live nesta quinta-feira (10), candidato à Presidência afirmou que três pessoas ligadas, segundo ele, a Flávio Dino e ao governo Lula teriam pressionado Karina Gama para produzir uma delação que o atingisse; episódio foi registrado previamente pela produtora e documento acabou apreendido pela própria PF durante operação autorizada pelo ministro.
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) reagiu na noite desta quinta-feira (10) às revelações envolvendo Karina Gama, produtora de Dark Horse, e anunciou que o episódio será levado ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin.
Durante sua live semanal, Flávio afirmou que Karina teria sido procurada e pressionada por três pessoas que, segundo ele, possuíam ligações com o governo Lula e com o ministro Flávio Dino, inclusive interlocutores do Maranhão.
O objetivo das abordagens, de acordo com a acusação feita pelo candidato, seria obter de Karina uma colaboração premiada ou alguma informação capaz de atingir politicamente sua candidatura.
Flávio anunciou que pretende pedir a Fachin uma investigação para descobrir se houve interferência política de Dino no episódio.
A acusação é grave e, até aqui, não há prova apresentada de que Dino tenha determinado as abordagens. A própria Karina, no documento revelado nesta quinta-feira, faz ressalvas sobre não poder afirmar que o ministro tivesse conhecimento de ao menos um dos contatos.
Flávio: nome de Dino teria sido usado
Segundo Flávio Bolsonaro, durante as abordagens o nome de Flávio Dino teria sido expressamente mencionado.
O candidato afirmou na transmissão que Karina teria recebido uma espécie de recado: caso não fizesse uma delação ou não apresentasse algo que pudesse desgastar sua imagem, poderia sofrer consequências por meio da polícia.
A versão apresentada por Flávio encontra paralelo no conteúdo do documento de quatro páginas encontrado pela Polícia Federal nesta quinta-feira.
Karina relata, entre outros episódios, que um interlocutor teria dito em 27 de agosto que, caso aceitasse colaborar, “nada ocorreria” com ela e ela não seria alvo de operação policial.
Karina foi ao cartório antes da operação
É justamente a cronologia que Flávio Bolsonaro passou a explorar politicamente.
Depois das supostas abordagens, Karina decidiu formalizar seu relato antes de sofrer a busca desta quinta-feira.
No documento, a produtora registrou nomes, datas, horários e sua versão sobre os contatos que teria recebido.
Também deixou registrado o temor de uma eventual operação policial:
“Como não cometi nenhuma irregularidade e como não fiz nenhuma delação premiada, tenho receio de que alguma operação policial possa ser realizada contra a minha pessoa por retaliação política e não porque cometi algum ilícito.”
Dias depois, a operação efetivamente aconteceu.
Documento foi encontrado pela própria PF
Um dos aspectos mais incomuns do episódio é a forma como o documento veio à tona.
Nesta quinta-feira, a Polícia Federal cumpriu mandados contra Karina no âmbito da Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino.
Durante a diligência, a própria PF encontrou o documento de quatro páginas no qual Karina havia registrado previamente as supostas pressões.
A existência anterior do relato não prova que as acusações sejam verdadeiras, mas estabelece um dado relevante: a versão de Karina sobre as abordagens e seu temor de sofrer uma operação não foi criada depois da busca policial.
27 de agosto: “não seria alvo de operação”
Segundo o relato atribuído a Karina, uma das abordagens aconteceu em 27 de agosto, às 11h22.
Um líder religioso que, segundo ela, teria trânsito junto a integrantes do governo federal e ministros do Supremo teria transmitido a mensagem de que, caso ela fizesse a colaboração, não seria alvo de operação policial.
Karina afirma que recusou.
3 de setembro: Dino autoriza a busca
Sete dias depois, em 3 de setembro, Flávio Dino autorizou a busca contra a produtora.
A decisão permaneceu sob sigilo, inclusive com determinação para que sua publicidade ocorresse somente depois do cumprimento das diligências.
E esse é justamente um dos pontos que Flávio Bolsonaro agora pretende levar a Fachin.
Se alguém realmente disse antecipadamente a Karina que ela poderia ser alvo de uma operação, essa pessoa possuía alguma informação concreta sobre uma investigação sigilosa ou estava apenas fazendo uma ameaça genérica?
10 de setembro: operação acontece
Nesta quinta-feira (10), a PF cumpriu os mandados.
E encontrou justamente o documento no qual Karina havia registrado seu receio.
A cronologia passou imediatamente a ser explorada por Flávio:
27 de agosto: Karina afirma ter ouvido que, se colaborasse, não seria alvo de operação.
3 de setembro: Dino autoriza sigilosamente a busca.
10 de setembro: PF cumpre o mandado e encontra o relato produzido anteriormente.
É essa sequência que agora deverá fundamentar a iniciativa anunciada pelo candidato.
Flávio anuncia pedido a Fachin
Durante a live, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende provocar formalmente o presidente do STF.
O pedido deverá buscar uma investigação sobre eventual interferência política de Flávio Dino.
Segundo a acusação apresentada pelo candidato, será necessário esclarecer se pessoas próximas ao ministro ou ao governo teriam procurado Karina para tentar produzir uma colaboração capaz de atingir sua candidatura.
Em outras palavras, Flávio quer saber se houve alguma conexão entre as abordagens relatadas pela produtora e a investigação posteriormente conduzida sob relatoria de Dino.
Fernando Sarney aparece no relato
Um dos nomes citados por Karina é Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney.
Segundo a produtora, Sarney teria afirmado possuir “grande proximidade” com Flávio Dino e oferecido apoio jurídico caso ela tivesse interesse em realizar uma colaboração premiada.
Fernando Sarney nega o episódio.
E a própria Karina ressalva que não possui elementos para afirmar que Dino soubesse ou participasse desse contato.
Essa ressalva é fundamental porque, até agora, não existe elemento apresentado publicamente que demonstre uma ordem de Dino para que Karina fosse procurada.
Agora Fachin poderá ser provocado a investigar
O anúncio de Flávio adiciona mais um problema à mesa de Edson Fachin em uma semana de enorme turbulência no Supremo.
O presidente da Corte já precisou intervir no confronto de decisões envolvendo André Mendonça, Flávio Dino e a cúpula da Polícia Federal.
Agora poderá receber um pedido diretamente relacionado à atuação de Dino.
Flávio Bolsonaro quer que o STF investigue quem procurou Karina, em nome de quem essas pessoas falavam e se alguém possuía informação antecipada sobre uma operação que estava sob sigilo.
A acusação agora precisa ser confrontada com provas
A declaração de Flávio Bolsonaro eleva politicamente o caso, mas a resposta definitiva dependerá de elementos objetivos.
Registros telefônicos podem confirmar os contatos.
Mensagens podem revelar o conteúdo das conversas.
A identificação dos três interlocutores pode mostrar suas relações efetivas com autoridades.
E a cronologia dos procedimentos policiais e judiciais poderá indicar quando começou a ser discutida uma busca contra Karina e quem tinha acesso à informação.
É justamente esse caminho que poderá confirmar ou derrubar a suspeita levantada pelo candidato.
Por enquanto, há um fato novo:
Flávio Bolsonaro decidiu transformar as revelações encontradas pela própria Polícia Federal em um pedido de investigação sobre possível interferência política de Flávio Dino.
E anunciou que levará a questão diretamente ao presidente do Supremo, Edson Fachin.