Investigação diz que empresária determinava a divisão de valores recebidos de municípios e tinha poder sobre a gestão da Editora Avante; após quase três meses presa, Justiça autorizou domiciliar por questões de saúde.
Apontada pelo Gaeco como uma das peças-chave da Operação Gutenberg e uma das pessoas que comandavam nos bastidores a Editora Avante, a empresária Rossana Paroschi Jafar deixará o cárcere depois de quase três meses presa.
A Justiça autorizou nesta quarta-feira (30) que Rossana passe a cumprir prisão preventiva domiciliar, com monitoramento por tornozeleira eletrônica. A decisão considerou o quadro de saúde da empresária, que sofre de epilepsia e, conforme apresentado por sua defesa, teve duas crises convulsivas durante o período em que permaneceu presa.
O fato novo ocorre em um dos principais casos de corrupção investigados pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul nos últimos anos. A Operação Gutenberg apura um suposto esquema envolvendo contratos públicos que, segundo o Gaeco, movimentou mais de R$ 27 milhões.
E documentos da própria investigação detalham um papel atribuído a Rossana que vai muito além de uma ligação familiar com outros investigados.
“Articula e determina a quem e quanto”
Em relatório obtido e analisado pelo O Contribuinte, o Gaeco coloca Rossana entre as pessoas consideradas centrais para o funcionamento do suposto esquema.
O Ministério Público afirma expressamente:
“Note-se que é ROSSANA PAROSCHI JAFAR uma das pessoas que articula e determina a quem e quanto será destinado os valores recebidos dos entes municipais, tão logo efetivados.”
Na sequência, o documento afirma que as condutas da Editora Avante seriam precedidas por orientações de Rossana e que a empresária mantinha “forte poder de decisão sobre a gestão administrativa e financeira da empresa”, além de figurar como destinatária de valores elevados.
É a versão apresentada pelos investigadores e submetida à discussão judicial. As acusações ainda dependem do julgamento do processo e não representam condenação definitiva.
Gaeco aponta Rossana como uma das pessoas por trás da Avante
O relatório também reconstrói a relação da família Jafar com o setor gráfico.
Rossana é viúva de Mirched Jafar Júnior, com quem manteve sociedade na Gráfica e Editora Alvorada. Segundo o documento, ela aparece formalmente como proprietária de diferentes empresas do segmento gráfico. O Gaeco afirma ainda que, embora estivesse à frente da Clínica Ross, Rossana seria, “por detrás dos holofotes”, uma das pessoas que comandavam a Editora Avante.
Essa conclusão ganhou peso, segundo a investigação, a partir da análise de dados bancários e telemáticos.
Em decisão judicial que reproduz elementos apresentados pelo Ministério Público, consta que a quebra dos sigilos mostrou que a Editora Avante recebeu R$ 5.205.735,10 entre janeiro de 2021 e agosto de 2023. O mesmo documento registra a conclusão investigativa de que os verdadeiros proprietários da empresa seriam Rossana e os filhos Giovanni, Olívia e Felipe Paroschi Jafar, enquanto Rhayane Souza Fanaia não teria autonomia gerencial ou financeira.
Conversas mostrariam Rossana orientando movimentação
Outro elemento destacado pelo Gaeco são conversas extraídas de aplicativo de mensagens.
Segundo o relatório, em uma delas Rhayane informa a Rossana quanto dinheiro havia na conta bancária da Editora Avante e pergunta como deveria proceder. Rossana teria orientado que aguardasse até o dia seguinte, quando diria o que fazer.
Para os investigadores, a conversa reforçaria a tese de que Rossana exercia poder sobre a movimentação financeira da empresa.
O documento vai além e afirma que, entre as pessoas às quais eram destinados recursos provenientes das licitações investigadas, Rossana recebia a maior parte, segundo a análise feita naquele trecho do relatório. O Gaeco a coloca ao lado de Heyder Bartz e Francisco Anizio dos Santos ao descrever integrantes considerados decisivos para o suposto esquema.
Relatório registra transferência de R$ 47 mil para Rossana
Há registros ainda mais específicos.
Em uma das divisões de dinheiro descritas pelo Gaeco, aparecem ordens de pagamento que incluíam R$ 47.103,34 para Rossana, além de outros repasses para empresas e investigados.
O relatório também registra que foram identificados repasses destinados à empresária utilizando contas de Giovanni Paroschi Jafar, Rhayane Fanaia e da Superconteúdo, empresa de Heyder Bartz.
Esses elementos levaram o Gaeco a tratar Rossana e seus filhos Giovanni, Olívia e Felipe como “peças-chaves” da investigação, atribuindo-lhes “participação ativa e decisiva” no esquema investigado.
Investigação começou com contratos de livros
A Gutenberg nasceu da apuração de contratos para aquisição de livros paradidáticos.
O procedimento investigatório foi instaurado em 2023 depois que informações encaminhadas ao Gaeco chamaram atenção para um contrato de aproximadamente R$ 1,044 milhão entre a Prefeitura de Miranda e a Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais, razão social da Editora Avante.
À época, o Ministério Público registrou que a empresa tinha capital social de apenas R$ 40 mil, havia sido constituída em novembro de 2021 e estava formalmente em nome de Rhayane Souza Fanaia.
As apurações posteriormente avançaram sobre contratos com diferentes municípios. O procedimento foi aberto para investigar, em tese, organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato e delitos correlatos.
De quase três meses no cárcere para prisão em casa
Apesar da gravidade das acusações e do papel atribuído a Rossana pelo Gaeco, o fato novo desta quarta-feira é relacionado à sua saúde.
Rossana sofre de epilepsia. Conforme a defesa, a permanência no sistema prisional agravou uma enfermidade preexistente e a empresária sofreu duas crises convulsivas no período.
“Em razão de enfermidade que já a acometia antes da operação, e de acordo com laudo médico juntado após exames realizados dentro da unidade prisional, ficou demonstrado que a permanência no cárcere agravaria o estado de saúde”, afirmou o advogado Pedro Paulo Sperb.
A juíza da 3ª Vara Criminal de Campo Grande, Eucélia Moreira Cassal, acolheu o pedido e determinou que a preventiva passe a ser cumprida em casa.
A magistrada destacou que a medida não significa encerramento da prisão:
“Ressalte-se que a prisão domiciliar, no caso, não representa impunidade ou benesse, mas sim medida que visa garantir o tratamento médico adequado à requerente, sem comprometer os objetivos da persecução penal.”
Rossana, portanto, não foi colocada em liberdade plena. Ela deixa o cárcere, mas permanece presa preventivamente, agora em casa e submetida às cautelares determinadas pela Justiça, incluindo tornozeleira eletrônica.
O novo capítulo ocorre enquanto permanecem sob discussão judicial as acusações da Operação Gutenberg, investigação na qual o próprio Gaeco atribuiu a Rossana poder de decisão, comando financeiro e participação ativa no suposto esquema milionário.