(67) 9 9689-6297 | ocontribuintebr@gmail.com

Após dias de silêncio, Lula se manifesta sobre crise do Master e pede quebra de sigilo de “todos os envolvidos”

Presidente não havia se pronunciado sobre a escalada envolvendo ministros do STF e a cúpula da Polícia Federal; nesta quarta-feira (9), foi ao X, falou em “crise institucional” no Judiciário e defendeu a quebra completa do sigilo das investigações.

Depois de dias de silêncio diante da escalada da crise envolvendo o Banco Master, ministros do Supremo Tribunal Federal e a cúpula da Polícia Federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente se manifestou publicamente na manhã desta quarta-feira, 9 de setembro de 2026.

Lula escolheu as redes sociais para falar.

Em uma publicação feita às 10h33 no X, antigo Twitter, o presidente classificou o caso Master como o “maior crime financeiro da história do Brasil”, reconheceu que existe uma “crise institucional” no Poder Judiciário e defendeu a quebra completa do sigilo das investigações de “todos os envolvidos”.

A manifestação ocorre depois de uma sequência de acontecimentos sem que Lula tivesse feito um pronunciamento público específico sobre a crise.

Nesse período, o caso avançou sobre nomes como Alexandre de Moraes, chegou à cúpula da Polícia Federal comandada por Andrei Rodrigues, provocou decisões do ministro André Mendonça e, nesta quarta-feira (9), desencadeou uma intervenção de Flávio Dino, ex-ministro da Justiça do próprio governo Lula, para reintegrar Andrei à direção da PF.

Até então, Lula permanecia fora publicamente desse embate.

Lula finalmente fala

Na manhã desta quarta-feira, o presidente rompeu o silêncio.

“Diante da gravidade do maior crime financeiro da história do Brasil, o povo brasileiro precisa de explicações e medidas imediatas para enfrentar a crise institucional que tomou conta do Poder Judiciário.”

É uma declaração relevante não apenas pelo pedido feito por Lula, mas também pelo diagnóstico.

O próprio presidente da República passa a reconhecer publicamente a existência de uma “crise institucional” no Judiciário.

Apesar disso, Lula não citou nominalmente Alexandre de Moraes, Flávio Dino, André Mendonça ou Andrei Rodrigues na publicação.

“Todos os envolvidos”

Em vez de apontar nomes, Lula adotou uma formulação abrangente.

O presidente pediu a abertura das investigações de “todos os envolvidos”, independentemente de quem sejam.

“Por isso, é urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade.”

A expressão “seja quem for, doa a quem doer” ganha peso diante do tamanho da lista de autoridades que passaram a aparecer, de diferentes maneiras e com diferentes graus de envolvimento, nos documentos e controvérsias relacionados ao caso.

Silêncio atravessou escalada da crise

O pronunciamento acontece somente depois de a crise ter avançado para dentro do próprio Supremo.

Nos últimos dias, André Mendonça adotou medidas que atingiram a cúpula da Polícia Federal. O afastamento de Andrei Rodrigues foi submetido à Segunda Turma e alcançou maioria de 3 votos a 0, conforme o andamento do julgamento que vinha sendo acompanhado.

Nesta quarta-feira (9), entretanto, surgiu uma nova reviravolta.

Flávio Dino, que foi ministro da Justiça de Lula antes de assumir uma cadeira no STF, determinou monocraticamente a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada.

A decisão ocorreu em outro procedimento, relacionado às emendas parlamentares e relatado por Dino, o que abriu uma nova discussão sobre competência e sobre a estratégia processual utilizada para levar a questão ao ministro.

Há ainda outro componente político: Dino comandava o Ministério da Justiça quando Andrei assumiu a direção-geral da Polícia Federal, em janeiro de 2023. Os dois, portanto, já trabalharam dentro da mesma estrutura administrativa durante o terceiro governo Lula.

Mesmo diante dessa escalada, o presidente não havia feito um pronunciamento público específico sobre o conflito.

Lula não entra no mérito da disputa Dino x Mendonça

A publicação desta quarta também chama atenção pelo que não diz.

Lula não se posiciona diretamente sobre a decisão de André Mendonça.

Não comenta a reversão determinada por Flávio Dino.

Não cita o afastamento ou a reintegração de Andrei Rodrigues.

Também não entra na controvérsia sobre uma decisão individual de Dino produzir efeitos contrários à medida que estava sob análise da Segunda Turma.

O presidente concentra sua manifestação na necessidade de transparência das investigações.

Presidente critica “vazamentos seletivos”

Lula também aproveitou o pronunciamento para criticar a maneira como informações vêm sendo reveladas.

“Se faz necessário mais transparência e não vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral.”

O presidente argumenta que a divulgação integral seria preferível à chegada fragmentada de informações ao público, especialmente durante o período eleitoral.

E citou a Operação Spoofing:

“A divulgação da verdade, como aconteceu na Operação Spoofing, conduzida pelo então ministro Lewandowski, é um exemplo a ser seguido.”

Pressão chegou também a Flávio Dino

O pronunciamento de Lula acontece no mesmo dia em que seu ex-ministro da Justiça passou a enfrentar reação no Senado.

Pouco depois da decisão sobre Andrei, o senador Carlos Viana anunciou a apresentação de um pedido de impeachment contra Flávio Dino.

Viana questiona exatamente a decisão individual tomada em outro processo depois de três integrantes da Segunda Turma terem acompanhado o afastamento.

Segundo o senador:

“Uma decisão individual, proferida em outro processo, determinou a reintegração da cúpula da Polícia Federal depois de três ministros da Segunda Turma terem acompanhado o afastamento.”

O parlamentar afirmou que o episódio precisa ser enfrentado pelo Senado e classificou a situação como uma “crise institucional”.

Horas depois, Lula utilizaria justamente a mesma expressão para definir o cenário no Poder Judiciário.

De espectador a personagem político da crise

A manifestação muda, ao menos publicamente, a posição de Lula no episódio.

Depois de permanecer em silêncio enquanto o caso Master avançava sobre integrantes do Supremo, da Polícia Federal e da PGR e enquanto ministros do STF passaram a tomar decisões conflitantes, o presidente finalmente entrou no debate.

Mas entrou sem escolher publicamente um dos lados do confronto.

Não defendeu nominalmente Dino.

Não atacou Mendonça.

Não defendeu Andrei.

Não citou Moraes.

A mensagem escolhida foi outra: abrir tudo.

“Seja quem for, doa a quem doer.”

Agora, a própria declaração de Lula cria uma cobrança objetiva para as instituições: se o presidente defende a quebra completa do sigilo, a transparência que ele exige deverá alcançar indistintamente todos os nomes e documentos relacionados às investigações, inclusive aqueles que envolvam integrantes do governo, da Polícia Federal, do Ministério Público ou do próprio Supremo.