Projeto previa reajuste de até 34% para prefeito, vice e secretários
O aumento salarial do prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (PL), do vice-prefeito e de secretários municipais não foi barrado por sensibilidade social nem por iniciativa institucional da Câmara Municipal. O recuo ocorreu apenas após forte repercussão negativa do projeto, que seria votado em sessão extraordinária e acabou cancelado às pressas.
A proposta previa reajuste de 34% para o prefeito e a vice-prefeita, além de 24% para os secretários municipais. Caso fosse aprovada, a remuneração de Juliano Ferro saltaria de R$ 19 mil para cerca de R$ 26 mil; a da vice-prefeita, Ângela Casarotti, de R$ 9,9 mil para R$ 13,3 mil; e a dos secretários, de R$ 10,8 mil para R$ 13,4 mil.
A sessão chegou a ser convocada a pedido do próprio prefeito, mesmo durante o recesso legislativo, mas foi cancelada após a reação negativa da população e da imprensa. O recuo, no entanto, não veio acompanhado de autocrítica. Pelo contrário.
Ataques, vitimismo e agressividade
Após a repercussão, Juliano Ferro foi às redes sociais em um vídeo marcado por ataques à imprensa, opositores e críticos. Em tom exaltado, o prefeito afirmou que o reajuste seria “um direito” e atribuiu a reação negativa ao que chamou de “barulho de imprensa”.
“É um barulho de imprensa em cima da gente. Eu tô rasgando esse projeto. Não é 19 mil que vai deixar o mais pobre ou o mais rico”, disse o prefeito, enquanto rasgava o documento diante da câmera.
No vídeo, Juliano Ferro elevou o tom, usando termos ofensivos e prometendo retaliações futuras. “O que eu não vou ficar aguentando é vagabundo com meu nome na boca. Cambada de vagabundo, cambada de peste”, afirmou.
Em outro trecho, atacou diretamente veículos de comunicação e profissionais da imprensa. “Essa mamata de imprensa, um dia eu vou derrubar. Pode gravar bem. Eu vou ser o maior pesadelo de vocês”, declarou.
Não é a primeira vez que o prefeito utiliza as redes sociais para choramingar, transferir responsabilidades e atacar quem apenas noticia atos de sua gestão. O padrão se repete: diante de críticas, Juliano Ferro reage com agressividade, vitimismo e ataques pessoais, em vez de explicações técnicas ou institucionais.
Câmara reage apenas sob pressão
A Câmara Municipal de Ivinhema, mais uma vez, foi omissa. O projeto só foi retirado após a repercussão negativa ganhar força. Não houve manifestação prévia de preocupação com o impacto do reajuste nas contas públicas ou com o momento econômico vivido pela população.
A postura não é inédita. No recesso de fim de ano, Juliano Ferro se envolveu em uma agressão a um cidadão em um posto de gasolina, fato amplamente divulgado. À época, o Portal O Contribuinte entrou em contato com o então presidente da Câmara para questionar qual seria o posicionamento do Legislativo diante do episódio. Não houve resposta. O silêncio institucional prevaleceu.
Agora, novamente, a Câmara só recuou quando a pressão externa se tornou insustentável, não por iniciativa própria nem por compromisso com o interesse público.
Histórico de tentativas frustradas
O novo pedido de reajuste ocorre após sucessivas tentativas do prefeito de elevar sua remuneração. Em uma delas, Juliano Ferro buscava um salário de R$ 35 mil. O projeto chegou a ser aprovado, mas foi barrado pela Justiça.
O juiz Rodrigo Barbosa Sanches acolheu ação popular movida por Douglas Barceló do Prado, que apontou inconstitucionalidade no aumento. A decisão destacou impacto de mais de R$ 2,3 milhões em despesas com pessoal ao longo de 48 meses e violação à Lei de Responsabilidade Fiscal, já que o reajuste foi aprovado dentro dos 180 dias finais do mandato.
Mesmo assim, Juliano continuou recebendo valores acima do permitido. Posteriormente, anunciou uma redução simbólica de R$ 10 mil, passando a receber cerca de R$ 25 mil — ainda acima do salário legal de aproximadamente R$ 19,9 mil.
Polêmicas em série
Reeleito, Juliano Ferro, frequentemente chamado nos bastidores políticos de “o prefeito mais louco do Brasil”, vem acumulando episódios controversos, ataques públicos, conflitos institucionais e decisões questionáveis. O caso do aumento salarial é apenas mais um capítulo de uma gestão marcada por ruídos, embates e ausência de diálogo institucional.
Enquanto isso, a Câmara Municipal segue sendo cobrada por sua postura passiva, reagindo apenas quando a pressão externa se torna inevitável, e não por iniciativa própria em defesa do interesse coletivo.
O Portal O Contribuinte reafirma que procurou representantes do Legislativo para comentar os episódios citados, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.