Lula enviou um ministro para representar o governo federal, permaneceu em São Paulo e depois retornou a Brasília, sem incluir Mato Grosso do Sul em sua agenda política.
A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na convenção que oficializou Fábio Trad como candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul e Dona Gilda como vice foi o principal fato político do chamado “Dia D” da esquerda no Estado.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, reuniu neste domingo, 26 de julho, dirigentes, candidatos, militantes e lideranças no auditório da Fetems, em Campo Grande, para apresentar oficialmente sua chapa majoritária.
Lula, no entanto, não compareceu.
O presidente enviou um ministro para representar o governo federal, mas não participou pessoalmente do ato que lançou o palanque responsável por defender sua candidatura à reeleição em Mato Grosso do Sul.
Na política, presença e ausência também são formas de comunicação. E o sinal enviado pelo presidente ao não incluir Campo Grande em sua agenda foi percebido imediatamente nos bastidores.
O contraste ficou ainda mais evidente porque, um dia antes, Lula havia participado da convenção que oficializou, em São Paulo, as candidaturas de Fernando Haddad, da ex-senadora por Mato Grosso do Sul Simone Tebet e de Marina Silva.
Enquanto o palanque paulista recebeu a presença da principal liderança petista do País, Fábio Trad e Dona Gilda tiveram de ser oficializados sem Lula na fotografia do lançamento.
A ausência não significa falta de apoio formal. Fábio Trad, Dona Gilda, Vander Loubet e Soraya Thronicke serão os principais nomes do palanque lulista em Mato Grosso do Sul.
Mas política também se faz por prioridades. E, neste primeiro grande momento da campanha estadual, Lula preferiu permanecer em São Paulo e depois seguir para Brasília.
Agenda de Lula não incluiu Mato Grosso do Sul
Segundo a agenda oficial apresentada, Lula deixou São Paulo às 16 horas, com partida do Aeroporto de Congonhas, e chegou à Base Aérea de Brasília às 17h30.
Não houve passagem por Campo Grande nem compromisso presencial com a chapa oficializada pelo PT no Estado.
Na noite de domingo, Lula conversou por telefone com o presidente da China, Xi Jinping. A ligação durou mais de uma hora e tratou do aprofundamento da cooperação bilateral, de projetos de desenvolvimento e da possibilidade de acelerar negociações entre o Mercosul e a China.
Os dois presidentes também discutiram parcerias em setores estratégicos, como inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e comércio de fertilizantes.
A agenda internacional é relevante e faz parte das atribuições presidenciais. Ainda assim, o ponto político permanece: Lula esteve em São Paulo no dia anterior, participou de uma convenção eleitoral e, depois, retornou diretamente a Brasília, sem fazer o mesmo gesto em Mato Grosso do Sul.
Pesquisa mostra Fábio distante de Riedel
A ausência também ocorreu logo após a divulgação do levantamento mais recente do Instituto Ranking Brasil Inteligência sobre a disputa pelo Governo de Mato Grosso do Sul.
No cenário estimulado, quando os nomes dos candidatos são apresentados aos eleitores, o governador Eduardo Riedel lidera com 46,2% das intenções de voto.
Fábio Trad aparece em segundo lugar, com 21,4%.
Na sequência estão João Henrique Catan, com 8%; Delcídio do Amaral, com 5%; Renato Gomes, com 3,4%; Jefferson, com 1%; e Lucien Rezende, com 0,6%.
Outros 7% afirmaram que votariam em branco ou nulo, enquanto 7,2% não souberam ou não responderam.
A pesquisa apresenta Fábio Trad como o principal nome da oposição e da esquerda, mas também evidencia a distância que o separa do atual governador.
Riedel aparece com mais que o dobro das intenções de voto registradas por Fábio.
Números podem ter pesado na estratégia nacional
Não há confirmação oficial de que a pesquisa tenha sido o motivo da ausência de Lula. Ainda assim, é natural que os números tenham chegado à coordenação nacional da campanha presidencial.
Campanhas acompanham pesquisas, competitividade regional, potencial de crescimento e capacidade de mobilização antes de decidir onde investir tempo, estrutura e presença política.
Nesse contexto, a pontuação de Fábio Trad pode ter reforçado a avaliação de que Mato Grosso do Sul não está, neste momento, entre os Estados prioritários para a campanha de Lula.
O candidato do PT e de seus aliados aparece com 21,4%, um patamar próximo do eleitorado tradicionalmente identificado com a esquerda no Estado.
A leitura possível é de que o PT possui um teto eleitoral em Mato Grosso do Sul e que Fábio, ao menos neste início de campanha, encontra-se justamente dentro dessa faixa.
Para se tornar competitivo, o candidato precisará romper essa barreira, avançar sobre o eleitorado de centro e reduzir a diferença para Riedel.
Enquanto isso não acontecer, a direção nacional pode entender que a disputa estadual ainda não apresenta condições suficientes para receber o mesmo nível de prioridade dedicado a outros palanques.
São Paulo recebeu Lula; MS recebeu um representante
São Paulo concentra o maior eleitorado do País e ocupa posição central em qualquer campanha presidencial. A presença de Lula na convenção paulista, portanto, não surpreende.
O que produz leitura política é a diferença de tratamento.
Em São Paulo, Lula participou pessoalmente do evento, subiu ao palco e vinculou sua imagem às candidaturas de Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva.
Em Mato Grosso do Sul, enviou um ministro.
O gesto não rompe alianças, mas estabelece uma hierarquia clara entre os palanques.
Fábio Trad, Dona Gilda, Vander Loubet e Soraya Thronicke representarão Lula no Estado. Porém, no momento em que a chapa foi apresentada oficialmente, Lula escolheu não estar presente.
Fábio perdeu a principal fotografia da convenção
Para Fábio Trad, a ausência retirou da convenção sua imagem política mais valiosa: uma fotografia ao lado do presidente da República.
Essa imagem poderia ser usada durante toda a campanha para reforçar apoio, alinhamento e prestígio junto à direção nacional.
Sem Lula, o ato cumpriu sua função formal de oficializar candidaturas, mas perdeu parte do peso simbólico que uma convenção dessa dimensão poderia produzir.
Convenções são momentos de demonstração de força. Elas servem para mobilizar militância, atrair atenção da imprensa, transmitir unidade e mostrar quais candidatos contam com o apoio direto das lideranças nacionais.
Nesse aspecto, o lançamento de Fábio Trad começou com uma ausência difícil de ignorar.
O desafio é romper o teto da esquerda
A partir de agora, Fábio terá a missão de mostrar que sua candidatura pode ir além dos 21,4% registrados no levantamento.
Sua chapa reúne Dona Gilda, ex-primeira-dama do Estado e personagem ligada à história do PT sul-mato-grossense, enquanto Vander Loubet e Soraya Thronicke disputarão as duas vagas ao Senado.
O palanque está montado. O problema é transformar a aliança partidária em crescimento eleitoral.
A candidatura precisará provar que consegue dialogar para além da base petista e superar o teto histórico da esquerda no Estado.
Sem esse avanço, a tendência é que Mato Grosso do Sul continue atrás de outros Estados na lista de prioridades da campanha nacional.
Política é feita de sinais
Lula ainda poderá visitar Mato Grosso do Sul durante a campanha. Poderá participar de atos, gravar programas eleitorais, subir no palanque de Fábio Trad e pedir votos para a chapa.
Mas o primeiro gesto já foi dado.
No principal ato de lançamento da esquerda no Estado, o presidente não apareceu.
Um dia antes, esteve em São Paulo. No domingo, voltou a Brasília. Em Campo Grande, deixou um ministro como representante.
Somada ao resultado da pesquisa, a ausência reforça uma leitura inevitável: a coordenação de Lula pode considerar que Fábio Trad ainda está preso ao teto eleitoral do PT em Mato Grosso do Sul e que, neste momento, existem palanques mais competitivos e estratégicos para a campanha presidencial.
A política raramente depende de uma declaração explícita. Muitas vezes, a mensagem está na agenda, na fotografia que não foi feita e no lugar onde uma liderança escolhe estar.
E, no “Dia D” da esquerda sul-mato-grossense, Lula escolheu não estar em Mato Grosso do Sul.