Ex-controlador do Banco Master foi ouvido por juiz auxiliar de André Mendonça, com a presença do MPF e sem integrantes da Polícia Federal.
Daniel Vorcaro afirmou ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que sofreu tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas durante o período em que esteve sob custódia.
Segundo o ex-controlador do Banco Master, as intimidações teriam como objetivo impedir que ele relatasse fatos relacionados à Polícia Federal em uma eventual colaboração premiada.
A declaração foi prestada na semana passada, dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, em oitiva realizada a pedido da defesa e sem a presença de integrantes da PF.
O depoimento foi conduzido pelo juiz auxiliar João Azambuja, integrante do gabinete de André Mendonça, e acompanhado por um representante do Ministério Público Federal.
Segundo apuração da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Vorcaro citou o nome do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante o depoimento.
As acusações são graves, mas ainda representam a versão apresentada pelo banqueiro. Até o momento, não foi divulgada prova independente que confirme a prática de tortura ou a participação de Andrei nas supostas intimidações.
Defesa pediu depoimento em caráter de urgência
O gabinete de André Mendonça confirmou oficialmente que a oitiva ocorreu após um pedido urgente da defesa de Vorcaro.
Em nota, informou:
“O ato ocorreu por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência.”
O gabinete classificou o procedimento como um “ato processual regular” e informou que a audiência foi registrada.
O conteúdo permanece sob sigilo. O gabinete também negou que Alexandre de Moraes tenha sido objeto do depoimento, embora as informações publicadas apontem que Vorcaro tratou de fatos relacionados à Polícia Federal e mencionou Andrei Rodrigues.
Vorcaro diz que foi vendado e submetido a maus-tratos
De acordo com a apuração publicada pela Folha, Vorcaro apresentou um relato detalhado sobre episódios ocorridos durante sua prisão e em transferências realizadas sob custódia.
O banqueiro teria afirmado que:
Foi vendado durante deslocamentos;
Permaneceu sob calor excessivo dentro de um camburão;
Sofreu pressão psicológica;
Recebeu ameaças veladas de que permaneceria preso indefinidamente;
Foi pressionado para não mencionar Andrei Rodrigues em uma eventual delação;
Enfrentou resistência das autoridades em ouvi-lo sobre fatos relacionados à PF.
Esses relatos deverão ser submetidos a apuração independente, com análise de imagens, registros de escolta, identificação dos policiais envolvidos, documentos da unidade prisional e eventuais exames médicos.
“Tenho muito a contribuir”
Vorcaro teria declarado que pretende colaborar e revelar informações sobre a estrutura de relações políticas e institucionais envolvendo o Banco Master.
“Tenho muito a contribuir relatando os fatos e a verdade, mas ninguém quer me ouvir. Uma loucura.”
O banqueiro sinalizou interesse em apresentar uma nova proposta de colaboração premiada. Segundo sua versão, informações envolvendo a cúpula da Polícia Federal estariam entre os assuntos que poderia relatar.
A promessa de “passar a República a limpo”, contudo, somente poderá ser avaliada se Vorcaro apresentar documentos, mensagens, registros financeiros e outros elementos capazes de comprovar suas declarações.
Uma delação não vale apenas pela narrativa do colaborador. Para produzir consequências jurídicas, precisa indicar fatos verificáveis e ser acompanhada de provas ou caminhos concretos para obtê-las.
PF já rejeitou propostas anteriores
Vorcaro já tentou negociar sua colaboração em outras ocasiões. Propostas anteriores foram recusadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
Segundo a reportagem, o banqueiro afirmou que a PF rejeitou três tentativas de delação porque temia que ele mencionasse Andrei Rodrigues.
A Polícia Federal e integrantes da PGR contestam essa narrativa. Investigadores afirmam que as propostas foram consideradas insuficientes e que Vorcaro não apresentou provas concretas capazes de sustentar as acusações.
Nos bastidores, integrantes das instituições classificam o novo depoimento como uma tentativa de reabrir a negociação de delação contornando a Polícia Federal.
Essa versão também precisa ser confrontada com documentos: quais propostas foram apresentadas, quais autoridades foram mencionadas, que provas foram oferecidas e quais fundamentos levaram à rejeição?
Caso atinge o comando das instituições
As revelações anteriores já haviam colocado Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues no centro do caso Master.
Moraes aparece como interlocutor procurado por Vorcaro e como usuário responsável pela modificação de versões de um contrato milionário firmado com o escritório de sua esposa.
Gonet é mencionado em mensagens do banqueiro e pediu a anulação do relatório que contém referências ao seu nome.
Andrei aparece nos pedidos de Vorcaro para que medidas policiais fossem contidas ou adiadas. Agora, também é citado no contexto de uma acusação de pressão contra eventual colaboração premiada.
Nenhuma dessas informações representa condenação. Mas o acúmulo de referências torna insuficiente uma apuração conduzida somente pelas instituições cujos chefes aparecem no material.
Vorcaro terá de apresentar provas
Daniel Vorcaro é investigado por suspeitas de fraudes bilionárias e possui interesse direto em negociar benefícios penais.
Esse interesse exige cautela redobrada com suas declarações, mas não autoriza que tudo seja descartado sem análise.
Se realmente pretende colaborar, o banqueiro terá de apresentar:
Quem ordenou ou praticou as intimidações;
Quando e onde ocorreram;
Quais fatos sobre a PF tentaram impedir que fossem relatados;
Por que citou Andrei Rodrigues;
Quais contatos manteve com a direção da corporação;
Que documentos comprovam sua versão;
Quem pode confirmar os episódios;
Quais informações foram excluídas das propostas anteriores.
A credibilidade da nova tentativa de delação dependerá da capacidade de Vorcaro de transformar acusações em provas verificáveis.
Delação pode abrir nova frente no caso Master
O depoimento urgente cria uma nova crise dentro de uma investigação que já atingiu o STF, a PGR e a direção da Polícia Federal.
De um lado, Vorcaro afirma estar tentando falar e acusa agentes de impedi-lo. Do outro, investigadores dizem que ele não apresentou provas e estaria encenando uma situação para recuperar poder de negociação.
A solução não pode ser o silêncio.
A acusação de tortura precisa ser investigada. As propostas anteriores de delação devem ser preservadas e examinadas. E uma eventual nova colaboração precisa ocorrer sob fiscalização independente, com garantias para o depoente e verificação rigorosa de cada afirmação.
O Contribuinte considera indispensável que Andrei Rodrigues, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o gabinete de André Mendonça esclareçam publicamente os procedimentos adotados.