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Campo Grande é mais uma vítima do maior estelionatário da história do Brasil, até que se prove o contrário

Daniel Vorcaro é investigado em um esquema que, segundo a Polícia Federal, pode ter movimentado R$ 42 bilhões; mais de cem regimes de previdência estaduais e municipais tiveram recursos ligados ao Master.

Antes de transformar a Prefeitura de Campo Grande, o IMPCG ou qualquer servidor público em culpado por antecipação, é preciso colocar o caso Banco Master em sua verdadeira dimensão.

Estamos falando de uma instituição cujo antigo controlador, Daniel Vorcaro, está no centro de uma investigação que apura um esquema que, segundo a Polícia Federal, pode ter movimentado R$ 42 bilhões.

Não são R$ 42 milhões.

São R$ 42 bilhões.

As investigações apuram suspeitas de fabricação e negociação de carteiras de crédito sem lastro, emissão e circulação de títulos problemáticos, gestão fraudulenta, gestão temerária, organização criminosa e outros possíveis crimes.

Esse é o tamanho do escândalo.

E é justamente por isso que reduzir toda essa história ao investimento de R$ 1,2 milhão realizado pelo Instituto de Previdência de Campo Grande é enxergar apenas uma pequena peça de uma estrutura que se espalhou pelo Brasil.

Não foi só Campo Grande

O Banco Master não apareceu apenas na porta do IMPCG.

Levantamentos baseados em dados da CVM e do Ministério da Previdência identificaram mais de cem regimes próprios de previdência estaduais e municipais com investimentos em fundos ligados ao banco ou à sua rede de negócios.

O cruzamento apontou três previdências estaduais e 98 municipais aplicando recursos em cinco fundos conectados à estrutura investigada.

Além disso, outros 18 órgãos públicos compraram aproximadamente R$ 1,8 bilhão em Letras Financeiras do Master sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

É uma rede que alcançou capitais, estados, municípios grandes e cidades pequenas.

Rio de Janeiro.

Amapá.

Tocantins.

Goiânia.

Municípios de São Paulo.

E Mato Grosso do Sul.

Somente em MS, pelo menos oito municípios aparecem com algum tipo de investimento direto no banco ou em fundos relacionados à sua estrutura.

Campo Grande colocou R$ 1,2 milhão.

Fátima do Sul, R$ 7 milhões.

São Gabriel do Oeste, R$ 3 milhões.

Jateí, R$ 2,5 milhões.

Angélica, R$ 2 milhões.

Além deles, Três Lagoas, Tacuru e Nova Alvorada do Sul aparecem entre os municípios com aplicações em fundos ligados ao universo Master.

Quando uma instituição consegue captar dinheiro de mais de uma centena de regimes previdenciários espalhados por diferentes regiões do país, o debate precisa necessariamente ser maior.

A engrenagem parecia funcionar

É preciso ainda observar outro detalhe fundamental: muitos desses investimentos ocorreram antes de o escândalo ganhar dimensão pública nacional.

O investimento de Campo Grande ocorreu em abril de 2024.

Naquele momento, Daniel Vorcaro ainda não havia se transformado, aos olhos de todo o Brasil, no personagem central daquilo que hoje é investigado como o maior escândalo financeiro já apurados no país.

As investigações sobre a fabricação de carteiras de crédito insubsistentes começaram em 2024, mas a dimensão do problema somente se tornaria pública posteriormente.

O banco atuava no mercado, captava investidores e oferecia produtos financeiros.

Entre suas estratégias, segundo as investigações, estavam CDBs com remunerações muito superiores às praticadas normalmente pelo mercado, chegando em determinadas ofertas a prometer retornos de até 40% acima da taxa básica.

Hoje tudo isso parece um enorme sinal vermelho.

Depois que um esquema é revelado, todos conseguem olhar para trás e dizer que os sinais estavam ali.

A questão mais difícil, e que a PF precisa responder, é outra: quem sabia naquela época?

Quem tinha informação privilegiada?

Quem participou conscientemente de irregularidades?

Quem ganhou alguma vantagem para direcionar recursos?

E quem simplesmente fez um investimento acreditando estar contratando com uma instituição autorizada a operar no sistema financeiro?

Essa distinção é fundamental.

A PF está certa em investigar Campo Grande

Isso precisa ser dito com todas as letras: a Polícia Federal está fazendo o trabalho que precisa fazer.

Se existe relatório técnico apontando que procedimentos administrativos teriam sido ignorados, isso deve ser investigado.

Se existe suspeita sobre a aplicação realizada durante a gestão da então presidente do IMPCG, atual vice-prefeita Camilla Nascimento, isso precisa ser esclarecido.

A PF fez buscas no instituto, na SAS e na residência da vice-prefeita.

Que investigue.

Que abra documentos.

Que analise mensagens.

Que acompanhe movimentações financeiras.

Que verifique decisões do comitê de investimentos.

Que descubra se alguém recebeu alguma vantagem.

Se houve corrupção, que os responsáveis sejam identificados e punidos.

Se houve direcionamento, que venha a público.

Se Camilla Nascimento ou qualquer outro agente público recebeu alguma vantagem ou participou conscientemente de eventual fraude, que responda por isso na forma da lei.

Mas o inverso também precisa valer.

Se a investigação não encontrar vantagem indevida, conluio ou participação consciente em fraude, é preciso reconhecer que Campo Grande foi mais uma vítima de uma estrutura que conseguiu alcançar mais de uma centena de regimes previdenciários brasileiros.

Não se pode primeiro condenar e depois procurar a prova.

Campo Grande, inclusive, conseguiu proteger o dinheiro

Existe ainda uma diferença relevante entre Campo Grande e outros entes atingidos pelo caso.

Em diversas cidades e estados, os investimentos ligados ao Master provocaram perdas expressivas.

Rio de Janeiro e Amapá, juntos, chegaram a perder aproximadamente R$ 100 milhões em um dos fundos relacionados à estrutura investigada.

No Amapá, uma aplicação de R$ 30 milhões teria despencado para cerca de R$ 4,2 milhões em poucos meses.

Em Campo Grande, segundo o IMPCG e a Prefeitura, ocorreu algo diferente.

O município afirma ter conseguido garantir judicialmente os R$ 1,2 milhão investidos, acrescidos de aproximadamente R$ 227 mil em rendimentos.

Mais de R$ 1,4 milhão foram assegurados em conta judicial.

Isso não prova, evidentemente, que todos os procedimentos anteriores foram corretos.

É justamente isso que a PF está investigando.

Mas desmonta uma narrativa simplista segundo a qual R$ 1,2 milhão da aposentadoria dos servidores simplesmente desapareceram.

Até aqui, segundo a documentação e a versão oficial apresentadas pelo município, o dinheiro foi preservado.

O Brasil quer saber até onde chegava a influência do Master

Há ainda outro capítulo muito maior dessa história.

O caso Master não envolve apenas prefeituras do interior do Brasil ou institutos previdenciários.

As investigações chegaram ao centro do poder político, econômico e institucional do país.

Segundo informações que vieram a público ao longo do caso, as autoridades apuram relações de Daniel Vorcaro e do banco com personagens relevantes da República.

Também foram divulgados relatos sobre encontros de Vorcaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inclusive reuniões que teriam ocorrido fora da agenda oficial, circunstâncias que merecem completa transparência.

Da mesma forma, vieram à tona relações profissionais e sociais envolvendo pessoas próximas a integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Entre os episódios de maior repercussão está o contrato atribuído ao escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master, cujo valor global divulgado chegou a R$ 129 milhões.

Também foram noticiadas relações envolvendo o ministro Dias Toffoli.

Mas, diante da dimensão das suspeitas envolvendo o banco, toda relação relevante precisa ser esclarecida sem dois pesos e duas medidas.

Se uma prefeitura que aplicou R$ 1,2 milhão pode e deve ter documentos, decisões e relações escrutinados, o mesmo padrão de transparência precisa valer para quem esteve próximo do banco nos mais altos círculos de poder.

Investigações precisam chegar até o fim

É justamente por isso que o Brasil acompanha com atenção as investigações relacionadas ao Banco Master.

Há perguntas demais ainda sem resposta.

Como foram criadas as carteiras de crédito investigadas?

Quem comprou esses ativos?

Quem sabia da real situação financeira do banco?

Quem ganhou dinheiro?

Houve proteção política?

Houve influência sobre órgãos públicos?

Havia alguma conexão indevida com integrantes do governo?

Que papel tiveram intermediários, fundos, consultorias e gestores?

Até onde chegava a rede montada em torno da instituição?

São perguntas legítimas.

E precisam ser respondidas com provas, não com torcida política.

Vítima ou cúmplice? É a investigação que precisa separar

É nesse ponto que Campo Grande deve ser colocada.

A cidade não pode receber imunidade.

Mas também não pode receber uma sentença antecipada.

A aplicação foi realizada em abril de 2024, antes de o país conhecer a dimensão do escândalo que hoje cerca Daniel Vorcaro e o Banco Master.

Mais de cem previdências públicas apareceram ligadas direta ou indiretamente aos investimentos dessa rede.

Dezenas de gestores públicos, em diferentes estados e municípios, acreditaram estar investindo recursos em produtos disponíveis dentro do mercado financeiro brasileiro.

Alguns podem ter cometido erros técnicos.

Outros podem ter sido negligentes.

É possível que investigações revelem corrupção ou vantagens ilícitas em determinados casos.

Tudo isso precisa ser apurado individualmente.

Mas há também aqueles que simplesmente podem ter sido enganados.

E, se não houver prova de conluio, vantagem ou conhecimento prévio das irregularidades, é exatamente nessa categoria que Campo Grande deve ser colocada: como vítima.

O maior responsável não pode desaparecer da narrativa

Há um risco sempre presente em grandes escândalos: depois que a estrutura explode, a discussão começa a se fragmentar tanto que o personagem central desaparece.

Não pode acontecer aqui.

O centro do caso é o Banco Master e a estrutura atribuída a Daniel Vorcaro.

É um esquema sob investigação que pode chegar a R$ 42 bilhões.

É uma rede de fundos que, segundo levantamentos, ultrapassou uma centena de regimes de previdência.

É uma instituição que atraiu dinheiro público e privado em diferentes regiões do país.

É uma história que alcançou o sistema financeiro, empresários, agentes públicos e círculos importantes de Brasília.

Campo Grande precisa explicar sua parte.

Camilla Nascimento precisa responder tudo que a investigação perguntar.

O IMPCG precisa entregar cada documento solicitado.

A Prefeitura precisa garantir transparência absoluta.

Mas não se pode perder a proporção.

R$ 1,2 milhão de Campo Grande representam uma pequena fração de uma engrenagem investigada na casa das dezenas de bilhões de reais.

Se houve participação consciente de alguém da administração municipal, a PF encontrará os elementos e os responsáveis deverão responder.

Mas, se não houve, Campo Grande será apenas mais um nome em uma extensa lista de cidades e estados alcançados por um banco que conseguiu vender confiança enquanto, segundo as investigações, escondia problemas de proporções gigantescas.

Nesse cenário, a conclusão é simples: investigue-se tudo, proteja-se ninguém e condene-se apenas quem as provas mostrarem que participou do esquema.

Até que isso ocorra, transformar todas as prefeituras, estados e institutos que fizeram negócios com o Master em cúmplices seria cometer uma injustiça com aqueles que podem ter sido, na verdade, vítimas de um dos maiores escândalos financeiros da história brasileira.