Antecipar repasses é manter Campo Grande refém
Ceder ao Consórcio Guaicurus neste momento, por meio da liberação ou antecipação de novos recursos públicos, não representa solução, mas sim a legitimação de um método de pressão que penaliza a cidade e constrange o poder público. Ainda que o argumento seja o de garantir o pagamento dos trabalhadores e a retomada do serviço, o efeito prático é outro: aceitar a coação como instrumento de negociação.
Nos últimos dias, Campo Grande assistiu a um colapso anunciado no transporte coletivo. Ônibus parados, trabalhadores prejudicados e usuários abandonados. Em vez de assumir responsabilidades, o consórcio transferiu o ônus da própria gestão para a Prefeitura, para o Governo do Estado e para a Câmara Municipal, como se o poder público fosse o responsável direto por suas decisões administrativas.
É preciso dizer com clareza: o Consórcio Guaicurus recebeu em dia os valores pactuados. Ainda assim, fez escolhas. Optou por outros gastos, por outras prioridades, e deixou de honrar seus compromissos com os trabalhadores que mantêm o sistema funcionando. Essa decisão não pode ser reescrita como “falta de apoio do Estado”.
A possibilidade de antecipar, ainda em dezembro, recursos que só seriam repassados em janeiro precisa ser encarada com extrema cautela. Transformar essa exceção em regra é abrir uma porta perigosa, que normaliza sucessivos aportes, amplia isenções e perpetua a dependência de uma empresa que não entrega um serviço à altura do que recebe.
Nos últimos quatro dias, milhares de campo-grandenses foram penalizados. Pessoas perderam dias de trabalho, estudantes ficaram sem acesso às aulas, famílias tiveram sua rotina desorganizada. O prejuízo social é imenso — e não foi causado por escassez de dinheiro público, mas por ineficiência administrativa.
Premiar esse comportamento com novos recursos, ainda que sob o discurso da “emergência”, é manter Campo Grande refém. Refém de um modelo falido, refém de um operador que recorre à paralisação como ferramenta de pressão e refém de um ciclo que se repete sempre que a empresa enfrenta dificuldades.
Mais grave ainda: na tarde de quarta-feira, 17, o Poder Judiciário determinou que o Município tem 30 dias para iniciar uma intervenção no sistema. Essa decisão não surge do nada. Ela é o reconhecimento formal de que a gestão do Consórcio Guaicurus apresenta falhas graves e persistentes.
Diante disso, recuar agora é sinalizar fraqueza. É dizer, na prática, que mesmo sob intervenção anunciada, o consórcio continua ditando as regras. É admitir que, diante da pressão, o poder público cede — e quem paga a conta é a população.
Se hoje se antecipa, amanhã haverá novo pedido.
Depois, novas isenções.
Depois, outra paralisação.
Esse caminho não leva à estabilidade. Leva à repetição do caos.
O transporte coletivo de Campo Grande precisa deixar de ser gerido pela lógica da pressão e passar a ser conduzido pelo interesse público. Isso exige firmeza, responsabilidade e a coragem de romper com práticas que mantêm a cidade refém de quem já demonstrou não estar à altura da concessão que detém.