Citado no material apreendido com Daniel Vorcaro, Paulo Gonet atuou contra a prisão do banqueiro, pediu a nulidade do relatório e não se declarou impedido
Durante anos, ministros do Supremo Tribunal Federal e seus porta-vozes políticos e jurídicos utilizaram uma palavra para tentar sepultar a Lava Jato: “conluio”.
A proximidade entre o então juiz Sergio Moro e integrantes do Ministério Público Federal, especialmente o procurador Deltan Dallagnol, foi apresentada como prova de que a operação teria ultrapassado os limites da legalidade. Conversas, contatos e trocas de informações passaram a ser tratados como evidências de parcialidade e de comprometimento das investigações.
Agora, diante do Caso Master, alguns dos mesmos setores comparam a atuação do ministro André Mendonça à de Moro. A acusação é de que o magistrado teria assumido protagonismo excessivo na investigação e interferido em atribuições da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
O problema para essa narrativa é a realidade revelada pelos próprios documentos do caso.
Enquanto Mendonça é acusado de extrapolar suas competências por requisitar informações à Polícia Federal, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, continua atuando em procedimentos relacionados ao Banco Master mesmo depois de ter seu nome exposto em mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro.
Não se trata, portanto, de uma discussão abstrata sobre separação de funções. A pergunta inevitável é outra: o padrão utilizado contra Moro e Dallagnol também será aplicado às autoridades que hoje ocupam o topo das instituições?
“Saudade”, charutos e Macallan
As mensagens divulgadas após a retirada do sigilo registram manifestações afetuosas atribuídas a Gonet e referências à participação do procurador-geral em um evento em Londres relacionado a Vorcaro.
Em uma das conversas, aparece a mensagem: “Saudade dele, vamos marcar estar juntos”. Em outra, atribuída a Gonet e encaminhada por um interlocutor, surge a comemoração diante da perspectiva de viajar para Londres: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”.

O material foi apreendido pela Polícia Federal no telefone do próprio Vorcaro. As mensagens também indicam que o banqueiro teria demonstrado entusiasmo com a participação de Gonet e discutido o custeio da viagem de um familiar do procurador-geral.
Esses registros não constituem, isoladamente, prova de crime. São, porém, elementos suficientes para provocar um debate sério sobre proximidade, aparência de imparcialidade e conflito de interesses, especialmente porque Gonet permanece exercendo atribuições diretamente relacionadas ao caso.
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal já pediu que o procurador-geral se declare impedido. A entidade sustenta que o fato de Gonet ser nominalmente citado impede que ele conduza procedimentos contra os policiais responsáveis pela elaboração do relatório.
A OAB do Paraná também defendeu sua suspeição nos processos relacionados ao Banco Master.
Gonet foi contrário à prisão de Vorcaro
A atuação da PGR anterior à divulgação das mensagens também passou a ser examinada sob uma nova perspectiva.
Gonet manifestou-se contra a prisão de Daniel Vorcaro, recusou propostas de colaboração premiada e apresentou pareceres contrários a diligências defendidas no curso da investigação. Cada medida pode possuir uma justificativa jurídica própria, mas o conjunto ganhou outro peso depois da revelação das mensagens que indicam proximidade entre o procurador-geral e o banqueiro.
Quando o relatório policial veio a público, Gonet pediu sua nulidade. Em seguida, a PGR abriu um procedimento para examinar a conduta dos delegados que produziram o documento, apesar de os policiais terem agido em cumprimento a uma ordem judicial de André Mendonça.
O procurador-geral não se declarou impedido.
Essa sequência alimenta uma suspeita institucional que não pode ser descartada como simples disputa política: uma autoridade mencionada no material passou a questionar a validade do documento, a competência de quem determinou sua produção e a conduta dos servidores que cumpriram a ordem.
Relações antigas no topo do sistema
Gonet também mantém uma relação antiga e publicamente reconhecida com o ministro Gilmar Mendes. Os dois foram sócios e construíram vínculos profissionais e acadêmicos anteriores à chegada do procurador ao comando da PGR. A proximidade entre ambos foi amplamente discutida durante a indicação de Gonet, em 2023.
Gilmar tornou-se um dos principais críticos da Lava Jato e agora também está entre as vozes que questionam os métodos adotados no Caso Master. O ministro chegou a comparar a atuação de Mendonça à condução da operação em Curitiba, com críticas a supostos vazamentos e excessos investigativos.
Gonet, por sua vez, alinhou-se à tese de que Mendonça teria avançado sobre competências do Plenário do STF. Também pediu a nulidade do relatório policial que expôs as conversas relacionadas a Moraes e ao próprio procurador-geral.
O cenário torna inevitável a comparação: se encontros, conversas e proximidade institucional entre Moro e integrantes da força-tarefa bastaram para sustentar uma narrativa de parcialidade, por que mensagens afetivas, viagens, eventos e relações pessoais envolvendo Gonet seriam tratadas como irrelevantes?
E se fosse em Curitiba?
Imagine o escândalo se o celular de um empresário investigado pela Lava Jato tivesse revelado mensagens afetuosas de Dallagnol, convites internacionais, referências a charutos e uísque caro, além de pedidos para que Moro interferisse junto a autoridades responsáveis pela investigação.
Imagine se, depois da divulgação, o próprio Dallagnol tentasse anular o relatório que expôs seu nome e instaurasse um procedimento contra os policiais que o produziram.
A reação seria imediata. As palavras “conluio”, “parcialidade” e “suspeição” dominariam o noticiário. A permanência das autoridades no caso seria considerada insustentável.
Em Brasília, entretanto, parte dos críticos da Lava Jato tenta inverter os papéis. Mendonça é comparado a Moro por ter requisitado a identificação das pessoas citadas no material apreendido, enquanto a proximidade de Gonet com Vorcaro é relativizada.
Nunca foi sobre os métodos
Isso não significa que André Mendonça esteja acima de questionamentos. Toda atuação judicial deve respeitar competência, imparcialidade, contraditório e devido processo legal. Eventuais irregularidades devem ser avaliadas pelas vias institucionais adequadas.
O mesmo padrão, contudo, precisa valer para todos.
Não é possível condenar a proximidade entre juiz e procurador em Curitiba e considerar normais relações muito mais delicadas quando elas envolvem integrantes da cúpula da República. Não é coerente exigir a suspeição de autoridades da Lava Jato e permitir que Gonet opine sobre a validade de um relatório no qual ele próprio é citado.
As mensagens não demonstram automaticamente a prática de crime por parte do procurador-geral. Demonstram, porém, que existe uma dúvida objetiva sobre sua independência para atuar no Caso Master. Em uma instituição cuja autoridade depende da confiança pública, a aparência de imparcialidade também importa.
A resistência em reconhecer essa contradição expõe a verdadeira natureza da disputa. Para parte daqueles que demonizaram a Lava Jato, o problema nunca foi simplesmente o método. O problema sempre foi quem investigava, quem era investigado e quais interesses seriam atingidos.
Quando o rigor alcançava seus aliados, chamava-se abuso. Quando a proteção beneficia o círculo de Brasília, passa a ser chamada de garantia institucional.