Relator aponta que autoridades foram enquadradas por crimes de responsabilidade, cuja análise cabe ao Senado
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou o relatório final da CPI do Crime Organizado com um movimento inédito: o pedido de indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade.
A decisão, segundo o relator, segue critérios técnicos e leva em conta as limitações enfrentadas pela comissão, que atuou sem prorrogação de prazo e sob restrições de acesso a informações. Ainda assim, o documento sustenta que foi possível identificar condutas que justificam a responsabilização político-administrativa das autoridades.
Diferentemente dos crimes comuns — julgados pelo Judiciário — os crimes de responsabilidade são analisados pelo Senado Federal e podem resultar em perda de cargo e inabilitação para funções públicas. Vieira argumenta que o foco da CPI nesses casos se deve ao fato de que essas autoridades estão fora do alcance dos mecanismos tradicionais de persecução penal.
“O mesmo fato pode configurar crime comum e crime de responsabilidade, mas é razoável que a decisão da CPI se concentre naquilo que pode ser efetivamente alcançado dentro de suas competências”, explica o relatório.
O senador também sustenta que a medida tem peso histórico ao romper um padrão de ausência de responsabilização das altas cúpulas do Judiciário. Segundo ele, ao longo da história republicana, figuras do Executivo e do Legislativo já foram investigadas, julgadas e até condenadas, enquanto integrantes das cortes superiores nunca passaram por esse tipo de escrutínio com o mesmo rigor.
O relatório aponta que essa assimetria compromete o princípio constitucional de igualdade perante a lei e defende que o Senado exerça seu papel diante dos fatos apresentados.
Além dos indiciamentos, o documento traz um amplo diagnóstico sobre o avanço do crime organizado no Brasil, com destaque para a situação considerada “gravíssima” do Rio de Janeiro. Entre as propostas, estão a criação de um ministério específico para a Segurança Pública, reforço orçamentário para o setor e uma nova intervenção federal no estado, em modelo diferente do adotado em 2018.
O texto também menciona o chamado “caso Master”, cuja complexidade levou a CPI a sugerir aprofundamento por meio de uma comissão específica, além de investigações já conduzidas pela Polícia Federal no âmbito de crimes comuns.
Com o protocolo, o relatório será submetido à leitura e votação na comissão antes de seguir para as instâncias competentes. No caso dos crimes de responsabilidade, caberá ao Senado avaliar os desdobramentos dos pedidos de indiciamento.
A iniciativa coloca em discussão um ponto sensível da República: a aplicação prática do princípio de que todos, independentemente do cargo que ocupam, estão sujeitos à lei.