(67) 9 9689-6297 | ocontribuintebr@gmail.com

Delegado Hoffman vira réu: Justiça aceita denúncia contra grupo acusado de desviar drogas em MS

Denúncia recebida pela Justiça aponta divisão de tarefas entre policiais, traficantes e operadores financeiros; Ministério Público pede R$ 10 milhões por danos morais coletivos.

O esquema de desvio de drogas apreendidas que levou à prisão de policiais em Mato Grosso do Sul começou a avançar também na Justiça.

O Poder Judiciário recebeu a denúncia criminal do Ministério Público contra o delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa e outros 23 investigados na primeira fase da Operação Infiltrados.

A decisão, divulgada no Diário da Justiça desta quinta-feira (5), transforma os denunciados em réus de uma ação penal que tramita em Campo Grande.

O recebimento ocorreu na mesma semana em que o delegado voltou à mira da Polícia Federal, durante a Operação Ifrit, e o Gaeco deflagrou a Operação Infiltrados II, atingindo policiais ligados à Defron.

As investigações descrevem suspeitas de uma organização criminosa com participação de agentes públicos, traficantes e pessoas responsáveis pela movimentação de dinheiro.

Delegado teria ocupado posição de comando

Segundo o Ministério Público, Hoffman D’Ávila teria utilizado sua posição institucional para favorecer a atuação do grupo criminoso.

O delegado, que já esteve à frente da Denar e do Garras, é apontado como integrante da cúpula responsável por dar respaldo às atividades investigadas.

A acusação sustenta que sua posição de comando teria sido utilizada para facilitar o funcionamento do esquema e dificultar investigações que pudessem atingir os envolvidos.

A representação cautelar do Gaeco, assinada em agosto de 2026 e analisada pelo O Contribuinte, já apresentava essa estrutura.

O documento descreve uma divisão de tarefas em que policiais identificavam carregamentos, participavam de apreensões e posteriormente repassavam entorpecentes a integrantes do tráfico.

A suspeita é que parte das drogas não fosse devidamente registrada ou fosse retirada dos depósitos policiais.

Policiais teriam atuado na parte operacional

Entre os nomes apontados na investigação estão Douglas Tobias, Augusto Torres Galvão Florindo, Luiz Carlos de Souza, Marcos André Santos Chaves, Nelson Ricardo Barros de Oliveira, Neverson Vieira de Araújo, Nilton Cesar Sales dos Santos e Roberto Palmeira da Silva.

Segundo a representação cautelar, esses agentes integrariam o núcleo responsável por atividades como rastreamento de carregamentos, apreensão e repasse de drogas.

A investigação também alcançou os policiais militares Alison Lemes Bezerra e Thiago Bezerra Laurentino.

Os procedimentos relacionados aos dois militares foram encaminhados à Auditoria Militar Estadual.

Outro investigado é Vitor Ribeiro Venâncio dos Santos, policial penal apontado como responsável por utilizar credenciais funcionais para consultar sistemas restritos e repassar informações sigilosas.

A acusação descreve, portanto, suspeitas que ultrapassam o desvio físico dos entorpecentes e incluem o uso indevido de informações policiais.

Traficante seria responsável por negociar a droga

No núcleo externo à polícia, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como “LK”, aparece como personagem central.

Segundo o Gaeco, ele seria responsável por articular negociações envolvendo carregamentos de drogas e organizar a comercialização dos entorpecentes desviados.

A investigação aponta que a atuação do grupo dependia da comunicação entre agentes públicos e integrantes do tráfico.

Os policiais teriam acesso a informações sobre apreensões e movimentação de drogas, enquanto os traficantes seriam responsáveis por receber e distribuir o material.

A estrutura também contaria com pessoas encarregadas do armazenamento e apoio logístico.

Família e garagem na investigação financeira

A denúncia também alcança suspeitas de lavagem de dinheiro.

Segundo as informações divulgadas, familiares de LK teriam participado de movimentações financeiras destinadas a ocultar a origem dos recursos.

A companheira dele, Rayane Luiz Vieira, teria recebido R$ 314.308,40 em cinco meses, por meio de 46 transferências Pix.

A mãe, Valdenice da Silva Gois, e a irmã, Ana Carolina da Silva dos Santos, também aparecem entre os investigados por suspeita de participação na movimentação de valores.

Outra frente da investigação envolve uma garagem de veículos apontada como instrumento de lavagem de dinheiro.

O estabelecimento teria sido utilizado para dar aparência lícita a recursos provenientes do tráfico.

Ministério Público pede R$ 10 milhões

Além da responsabilização criminal, o Ministério Público solicitou a perda das funções públicas dos agentes envolvidos e o pagamento de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.

O valor corresponde ao pedido de reparação formulado pela acusação e não a uma indenização já fixada definitivamente pela Justiça.

Os crimes atribuídos ao grupo incluem, conforme as informações divulgadas sobre a denúncia, organização criminosa, tráfico de drogas, peculato, corrupção e lavagem de capitais.

O recebimento da denúncia representa uma mudança importante na situação processual dos investigados, mas não significa condenação.

Os réus terão oportunidade de contestar as acusações e apresentar suas provas durante a instrução criminal.