Ex-chefe da Denar recebeu novo mandado de prisão preventiva na Operação Ifrit; PF investiga suspeita de desvio de duas toneladas de cocaína e ligação com organização criminosa que atuava no Brasil e no exterior
O delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa, preso desde setembro por suspeita de participação em um esquema de desvio de drogas apreendidas pela polícia, voltou à mira das autoridades nesta quarta-feira (4). Desta vez, a investigação tem dimensão internacional e envolve uma organização criminosa suspeita de movimentar centenas de milhões de reais com o tráfico de drogas e armas.
Ex-chefe da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar) e do Grupo de Repressão a Roubos e Furtos (Garras), em Mato Grosso do Sul, Hoffman está entre os alvos da Operação Ifrit, deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com a Receita Federal.
Segundo a PF, o delegado é suspeito de integrar a cúpula de uma organização criminosa ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC), com atuação no tráfico internacional.
A nova investigação amplia a situação enfrentada pelo delegado. Além das suspeitas apuradas na Operação Infiltrados, do Gaeco, Hoffman agora é alvo de um procedimento federal relacionado a uma organização que abastecia mercados brasileiros e internacionais com drogas.
Na quarta-feira, foi cumprido contra ele um novo mandado de prisão preventiva. Hoffman já estava preso por determinação judicial relacionada à investigação anterior.
Duas toneladas de cocaína teriam sido desviadas da Denar
Um dos pontos mais graves da investigação envolve aproximadamente duas toneladas de cocaína que estavam armazenadas na Denar.
Segundo a Polícia Federal, Hoffman teria utilizado sua posição dentro da instituição para retirar a droga do depósito policial e disponibilizá-la à organização criminosa.
A suspeita é que os carregamentos fossem desviados e substituídos por uma versão adulterada, de qualidade inferior, para evitar que a retirada fosse percebida.
O mecanismo investigado chama atenção porque a droga já havia sido apreendida pelo Estado e deveria permanecer sob custódia policial.
Em vez disso, segundo a PF, parte dos entorpecentes teria retornado ao mercado criminoso.
A investigação aponta que a cocaína desviada era comercializada por valores entre R$ 8,5 mil e R$ 10,5 mil por quilo.
Conforme as informações divulgadas sobre a operação, a Polícia Federal estima que Hoffman tenha obtido pelo menos R$ 15 milhões com o esquema.
Os investigadores também relacionam ao delegado o recebimento de veículos, uma mansão no condomínio Alphaville, em Campo Grande, e um sítio em Pirenópolis, em Goiás.
Essas suspeitas ainda dependem de comprovação judicial.
Organização movimentou mais de R$ 500 milhões em dois anos
A Operação Ifrit investiga uma organização comandada por um núcleo familiar formado por três irmãos, filhos e outros parentes.
Segundo a Polícia Federal, o grupo atua no tráfico de drogas há mais de uma década e mantém forte presença na região de fronteira entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
A organização teria movimentado mais de R$ 500 milhões em dois anos, utilizando contas bancárias, doleiros, empresas de fachada e negócios simulados para ocultar a origem dos recursos.
As drogas e armas eram obtidas principalmente na Bolívia, no Peru e no Paraguai.
Parte dos entorpecentes era distribuída para grandes centros brasileiros. Outra parte seguia para o exterior, especialmente Espanha e Portugal.
O superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Carlos Henrique Cotta Dangelo, afirmou que a organização também utilizava agentes públicos para favorecer suas atividades.
“Uma família dedicada ao tráfico de drogas há mais de uma década e o que chama atenção é que ela usava a estrutura também de agentes públicos, infelizmente, aqui no Estado de Mato Grosso do Sul.”
PF afirma que policiais facilitavam acesso a drogas apreendidas
Durante entrevista sobre a operação, o superintendente explicou que a organização criminosa não dependia exclusivamente de entorpecentes trazidos de outros países.
Segundo ele, o grupo também conseguia acessar drogas apreendidas pelas próprias forças de segurança.
“Ela obtinha tanto dos países vizinhos, como se valendo, por vezes, de apreensões realizadas pelas próprias forças de segurança do Estado. Elas tinham acesso a esse material e recolocavam isso para o comércio.”
A investigação aponta que policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e um policial rodoviário federal de Mato Grosso teriam fornecido informações sigilosas à organização em troca de dinheiro e bens.
Os agentes também são suspeitos de facilitar o acesso a entorpecentes armazenados em unidades policiais.
A Polícia Federal investiga a participação individual dos servidores e a possível utilização da estrutura das corporações para favorecer os criminosos.
PF apreendeu drogas, armas e identificou crimes violentos
A investigação não se limita ao tráfico de entorpecentes.
Segundo a PF, a organização também é suspeita de envolvimento em sequestros, torturas, cárcere privado, atentados e homicídios.
Os integrantes teriam utilizado fuzis, metralhadoras, granadas, lança-foguetes, drones e veículos blindados para intimidar rivais e manter o controle de suas atividades.
Entre 2022 e 2026, a Polícia Federal realizou ou acompanhou pelo menos 12 apreensões relacionadas ao grupo.
As ações resultaram na apreensão de mais de 2,5 toneladas de cocaína, oito toneladas de maconha, 50 quilos de dry e diversas armas.
Esses volumes correspondem às apreensões relacionadas à organização investigada e não devem ser confundidos com as duas toneladas que Hoffman é suspeito de ter desviado.
Operação atingiu sete estados
A Operação Ifrit foi autorizada pela Justiça Federal de Campo Grande e teve diligências em Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia.
Foram autorizados 76 mandados de busca e apreensão, 25 de prisão preventiva e um de prisão temporária.
A Justiça também determinou três medidas de monitoramento eletrônico e o afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul.
Entre os alvos estava o policial civil Douglas Tobias, que também havia sido preso em setembro durante a Operação Infiltrados.
Defesa diz que ainda não teve acesso integral às provas
A defesa de Hoffman informou que ainda não teve acesso integral ao procedimento, à decisão que determinou a nova prisão nem aos elementos utilizados para fundamentar as medidas.
Os advogados afirmaram que seria prematuro comentar as acusações antes da análise dos autos e ressaltaram que prisões preventivas não representam condenação.
A defesa informou que adotará as medidas cabíveis.
A Operação Ifrit é distinta da Operação Infiltrados, embora ambas investiguem suspeitas de desvio de drogas apreendidas e tenham policiais em comum.
O fato novo é que Hoffman, antes investigado principalmente pelo desvio de entorpecentes dentro da estrutura policial, agora também figura como suspeito de integrar uma organização de tráfico internacional. A extensão de sua participação e os crimes que eventualmente lhe serão imputados dependerão do avanço da investigação federal.