Prefeita e presidente da Câmara evitaram temas espinhosos que já pressionam Legislativo e Executivo
A sessão inaugural do ano legislativo de 2026, realizada nesta segunda-feira (2) na Câmara Municipal de Campo Grande, foi marcada por discursos institucionais, apelos ao diálogo e promessas de enfrentamento responsável dos desafios da Capital. No entanto, fora da tribuna, o clima político está longe da harmonia pregada nos microfones.
Tanto a prefeita Adriane Lopes quanto o presidente da Câmara, vereador Epaminondas Neto, o Papy (PSDB), optaram por discursos cuidadosamente construídos, com foco em legado, governabilidade, técnica e diálogo. Nenhum dos dois, porém, mencionou os temas que já provocaram desgaste público no início do ano: o aumento no carnê do IPTU, a redução do desconto para pagamento à vista e o impasse em torno da taxa do lixo, a sessão extraordinária para derrubar o aumento e o veto em seguida.
Adriane Lopes usou a tribuna para reforçar a narrativa de que governa sem olhar para o calendário eleitoral. Ao afirmar que não será candidata nas próximas eleições, a prefeita buscou legitimar decisões impopulares, argumentando que medidas duras são necessárias para corrigir erros históricos e deixar um legado de gestão. O discurso foi firme, com ênfase em equilíbrio fiscal, reorganização administrativa e parceria institucional.
Já Papy adotou um tom de construção política. Defendeu o diálogo como método permanente, exaltou a maturidade técnica da Câmara e criticou a polarização ideológica estéril. O presidente do Legislativo posicionou a Casa como espaço de escuta, fiscalização e construção de soluções, afirmando que independência entre os Poderes não significa confronto, mas proximidade com a população.
O que chamou atenção, no entanto, foi o silêncio estratégico de ambos sobre o tema que mais mobilizou a opinião pública nas últimas semanas.
O ano começou conturbado para o Executivo municipal após a população ser impactada pelo aumento nos valores do carnê do IPTU e, principalmente, pela redução do desconto para pagamento à vista, que caiu de 20% para 10%.
A cobrança da população culminou em uma sessão extraordinária realizada no dia 12 de janeiro, quando a Câmara Municipal apresentou um projeto de lei que sustou o aumento da taxa do lixo. A proposta gerou reação dentro e fora do Legislativo e foi vetada pela prefeita Adriane Lopes no dia seguinte, em 13 de janeiro.
Na semana passada, o vereador Rafael Tavares (PL) anunciou publicamente que já teria o número necessário de vereadores para derrubar o veto da prefeita ao projeto relacionado à taxa do lixo, são necessários ao menos 20 votos. A primeira sessão extraordinária para tratar do tema está marcada para esta terça-feira, 3.
Nada disso foi mencionado nos discursos da sessão inaugural.
A opção por não tratar do assunto mais sensível do momento revela uma tentativa clara de separar o rito institucional da batalha política que se desenha nos bastidores. Enquanto Adriane tenta sustentar o discurso de responsabilidade fiscal e legado, a Câmara se prepara para um teste de força logo no início do ano, com potencial de desgaste para ambos os Poderes.
O primeiro dia de trabalhos, portanto, não encerra conflitos; apenas inaugura oficialmente um ano em que o discurso de diálogo será constantemente colocado à prova. A sessão extraordinária desta terça-feira deve mostrar se o método defendido por Papy e a coragem política assumida por Adriane resistirão quando o debate sair do campo simbólico e entrar no voto concreto.