(67) 9 9689-6297 | ocontribuintebr@gmail.com

Dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o Brasil

Mensagem foi enviada em 15 de novembro de 2025; dois dias depois, banqueiro foi detido quando se preparava para embarcar em um jato particular

Daniel Vorcaro perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, se deveria deixar o Brasil apenas dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos.

A mensagem foi enviada no sábado, 15 de novembro de 2025, durante uma sequência de contatos atribuídos pela investigação ao banqueiro e ao ministro.

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”, perguntou Vorcaro.

Na mesma comunicação, o então dono do Banco Master demonstrou possuir informações sobre o avanço das apurações e fez outras perguntas ao interlocutor:

“Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”

A referência ao “juiz Ricardo” seria ao magistrado Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, responsável pela análise das medidas da Operação Compliance Zero na primeira instância.

“Galípolo” seria Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, instituição responsável pela supervisão do sistema bancário e que decretaria a liquidação extrajudicial do Master.

As mensagens foram extraídas do celular de Vorcaro, analisadas pela Polícia Federal e reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Ordem de prisão ainda não estava assinada

Um dos elementos mais graves da cronologia é que, no dia em que Vorcaro perguntou se deveria deixar o país, a ordem de prisão preventiva ainda não havia sido assinada.

A decisão judicial foi formalizada somente às 15h29 da segunda-feira, 17 de novembro, horas antes de o banqueiro ser preso pela Polícia Federal em Guarulhos.

Isso significa que, dois dias antes da assinatura da ordem, Vorcaro já demonstrava preocupação com uma medida que poderia ser executada na segunda-feira e procurava saber se deveria estar fora do Brasil.

A investigação terá de esclarecer como ele obteve informações sobre o avanço da operação, quem transmitiu os dados e por que decidiu procurar um contato identificado como Alexandre de Moraes para pedir orientação.

A pergunta não comprova, isoladamente, que Moraes tenha informado o banqueiro sobre a prisão. Também não revela qual teria sido a resposta do ministro.

O conteúdo demonstra, entretanto, que Vorcaro considerava Moraes um interlocutor capaz de avaliar o risco e eventualmente ajudá-lo em um momento decisivo.

Existe alguma chance disso acontecer amanhã?”

A preocupação continuou no domingo, 16 de novembro.

Na véspera da prisão, Vorcaro voltou a procurar o interlocutor e perguntou:

“Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”

A sequência indica que o banqueiro acompanhava com ansiedade a possibilidade de uma operação policial já no início da segunda-feira.

Em outras mensagens do mesmo período, Vorcaro perguntou se seria possível falar com autoridades, adiar medidas e evitar uma ação que, segundo ele, poderia provocar a quebra do Banco Master.

A comunicação não tinha o caráter de uma conversa genérica sobre o sistema financeiro. Vorcaro buscava informações específicas sobre a iminência de uma medida policial e sobre a possibilidade de deixar o país antes que ela fosse executada.

Prisão em jato particular

Na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando se preparava para embarcar em um jato particular.

O plano de voo tinha Malta como destino inicial, com posterior deslocamento previsto para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Investigadores apontaram, na época, a suspeita de tentativa de fuga. A defesa de Vorcaro negou essa versão e afirmou que ele viajaria para uma reunião com investidores interessados na compra do Banco Master.

Os advogados também alegaram que o Banco Central havia sido avisado sobre o deslocamento e que a viagem estava programada anteriormente.

A versão da defesa, porém, ganha um novo ponto de confronto diante da mensagem enviada dois dias antes:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

A frase precisa ser analisada junto aos planos de voo, às movimentações do banqueiro, aos registros de comunicação e às informações que ele possuía sobre a operação.

Mensagens de visualização única

Segundo o relatório policial, Vorcaro escrevia mensagens sensíveis no aplicativo de notas de seu celular, fazia capturas da tela e enviava as imagens pelo WhatsApp com o recurso de visualização única.

Na véspera de ser preso, cinco imagens foram enviadas para um número salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

A PF conseguiu recuperar os arquivos produzidos por Vorcaro antes dos envios, mas não teve acesso às eventuais respostas do destinatário.

Por isso, a formulação mais precisa é que Vorcaro escreveu e destinou as mensagens ao contato atribuído a Moraes. O material conhecido ainda não permite reproduzir uma resposta do ministro nem afirmar que ele recomendou ao banqueiro deixar o país.

Para comprovar a comunicação completa, a investigação precisará confrontar os dados do aparelho de Vorcaro com registros telefônicos e telemáticos do número identificado.

Moraes nega ter recebido os textos

Alexandre de Moraes negou ter recebido as mensagens e classificou as revelações como ataques contra ele e contra o STF.

A negativa torna ainda mais necessária a realização de uma perícia independente sobre os aparelhos, números, registros de conexão e encontros entre os dois.

A Polícia Federal identificou indícios de ao menos seis encontros entre Vorcaro e Moraes entre novembro de 2024 e agosto de 2025. O banqueiro também teria procurado o ministro repetidamente nos dias anteriores à prisão.

Esses elementos não substituem a prova técnica do recebimento das mensagens, mas reforçam a necessidade de esclarecer a natureza da relação e o motivo pelo qual Vorcaro tratava o ministro como uma fonte de orientação.

Ministro era tratado como interlocutor privilegiado

A pergunta sobre deixar o Brasil não apareceu de forma isolada.

Nas mensagens encontradas pela PF, Vorcaro pedia ajuda para tratar com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Também perguntava sobre o Banco Central, citava o juiz responsável pelo caso e solicitava encontros.

Em outro texto, enviado três dias antes da prisão, afirmou ter “gratidão” por Moraes e disse que sua família, seus funcionários e seus parceiros mantinham uma “dívida de vida” com o ministro e sua família.

A sequência mostra que, ao menos na percepção de Vorcaro, Moraes não era apenas o marido da advogada cujo escritório mantinha um contrato milionário com o Master. Era alguém a quem o banqueiro recorria para tratar do avanço das investigações e de decisões que poderiam atingir diretamente sua liberdade e seu patrimônio.

O que a investigação precisa esclarecer

O caso exige respostas objetivas:

Moraes recebeu a mensagem em que Vorcaro perguntou se deveria deixar o país?

O ministro respondeu ou transmitiu alguma orientação?

Como Vorcaro sabia, dois dias antes da assinatura da ordem, que uma operação poderia ocorrer na segunda-feira?

Houve vazamento de informação sigilosa?

Qual era o significado da referência ao juiz Ricardo Augusto Soares Leite?

Moraes procurou Paulo Gonet, Andrei Rodrigues ou Gabriel Galípolo depois dos pedidos?

A viagem para Malta e Dubai estava relacionada à negociação do banco ou à tentativa de evitar a prisão?

Essas questões não podem ser respondidas por especulação política. Dependem da análise dos registros telefônicos, mensagens, agendas, deslocamentos e decisões tomadas pelas autoridades citadas.

Caso chega ao plenário do STF

Os elementos foram encaminhados ao ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo.

Mendonça determinou o aprofundamento da apuração, solicitou manifestação da Procuradoria-Geral da República e levantou o sigilo dos autos.

O ministro também defendeu que os novos elementos sejam examinados publicamente pelo plenário presencial do STF. A data da sessão deverá ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin.

O O Contribuinte continuará acompanhando todos os desdobramentos e analisando os documentos liberados. Na próxima reportagem, o portal mostrará como Vorcaro pediu a Moraes uma intervenção junto a Andrei Rodrigues para tentar adiar a operação da Polícia Federal.