Oficializada pelo PSB para disputar a reeleição, senadora participou da convenção que lançou Fábio Trad e afirmou ter presenciado corrupção, perseguição e ódio, mas não apresentou provas nem citou fatos específicos.
Oficializada pelo PSB como candidata à reeleição para o Senado, Soraya Thronicke escolheu o palanque da convenção do PT para fazer uma das declarações mais contundentes de seu rompimento com o bolsonarismo e tentar se apresentar como uma aliada estratégica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O discurso foi realizado neste domingo, durante a convenção da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, que oficializou Fábio Trad como candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul, Dona Gilda como vice e Vander Loubet como candidato ao Senado.
Embora pertença ao PSB e tenha sido oficializada pelo próprio partido, Soraya participou do principal ato da esquerda sul-mato-grossense como integrante da chapa majoritária que pretende montar o palanque de Lula no Estado.
A presença não foi apenas protocolar.
Em sua fala, Soraya procurou demonstrar à militância petista que não é somente mais uma aliada eleitoral. Tentou apresentar-se como alguém que conhece por dentro o bolsonarismo, rompeu com o grupo e agora poderia ajudar Lula a enfrentá-lo.
“Eu não ouvi falar, eu vi”, repetiu a senadora.
A frase tornou-se o eixo do discurso.
Soraya afirmou ter visto “descaso”, “corrupção”, “falta de transparência”, “perseguição” e “ódio”. Também acusou o antigo campo político de hostilidade contra mulheres, pessoas vulneráveis, integrantes da população LGBTQIA+ e profissionais da imprensa.
Apesar da gravidade das acusações, a candidata não apresentou, durante o discurso, documentos, provas, datas, nomes ou episódios específicos que permitissem identificar a quais fatos ou pessoas se referia.
“Eu vi a corrupção”
O trecho mais grave da fala foi aquele em que Soraya declarou ter presenciado corrupção.
“Eu vi o descaso, eu vi a corrupção, a falta de transparência, a perseguição”, afirmou.
A declaração foi feita de forma genérica. Soraya não explicou qual ato de corrupção teria presenciado, quem estaria envolvido, quando o episódio teria acontecido ou se levou o caso às autoridades competentes.
Também não disse se apresentou denúncia ao Ministério Público, à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República ou a qualquer outro órgão de investigação.
Ao afirmar que “viu a corrupção”, Soraya não se colocou apenas como crítica política. Apresentou-se como suposta testemunha de um fato grave.
Por isso, sua declaração abre questionamentos inevitáveis: o que exatamente a senadora viu? Quem praticou o ato? Quais providências foram adotadas? Existem documentos ou testemunhas que sustentem a acusação?
Nenhuma dessas respostas apareceu no discurso feito durante a convenção petista.
Até que haja detalhamento ou apresentação de provas, a declaração deve ser tratada como uma acusação de Soraya, e não como um fato comprovado.
A repetição do “eu vi”
Soraya repetiu a expressão “eu vi” como forma de conferir autoridade ao próprio relato.
A candidata buscou diferenciar-se de quem critica o bolsonarismo apenas de fora. Sua tese é a de que viveu aquele ambiente, acompanhou o grupo de perto e sentiu pessoalmente os efeitos do que passou a condenar.
“Eu não ouvi falar, eu vi”, declarou.
Em outro trecho, afirmou que sentiu tudo “na pele” e “na alma”.
A construção emocional do discurso teve um objetivo político evidente: convencer o eleitorado de esquerda de que sua antiga proximidade com Bolsonaro não seria uma contradição, mas uma experiência que a qualificaria para enfrentá-lo.
Soraya tenta transformar o vínculo que a levou ao Senado em 2018 em uma espécie de certificado de conhecimento interno sobre o adversário.
Eleita com Bolsonaro em 2018
A tentativa de aproximação com Lula acontece oito anos depois de Soraya ter sido eleita na onda política liderada por Jair Bolsonaro.
Em 2018, ela disputou o Senado pelo PSL, então partido de Bolsonaro. A campanha utilizou material eleitoral em que o candidato à Presidência pedia votos para Soraya em Mato Grosso do Sul.
Bolsonaro foi eleito presidente da República, enquanto Soraya conquistou uma das vagas do Estado no Senado.
Sua candidatura esteve diretamente associada ao crescimento do bolsonarismo e ao forte sentimento antipetista daquele período.
Ela chegou ao Congresso como uma representante identificada com a direita e com o novo grupo político que assumiria o comando do País.
Agora, no entanto, Soraya tenta conquistar um segundo mandato inserida no campo oposto.
Pelo PSB, partido aliado do PT, procura integrar o palanque do presidente Lula e disputar uma das vagas ao Senado ao lado de Vander Loubet.
A mudança coloca a trajetória política da candidata no centro da campanha.
Discurso no palanque do PT
Embora tenha sido oficializada pelo PSB, Soraya utilizou a convenção do PT para marcar sua entrada pública no palanque lulista.
A escolha do ambiente foi simbólica.
Diante da militância petista, a senadora precisava demonstrar que seu rompimento com Bolsonaro é definitivo e que está disposta a assumir o confronto com o grupo que a ajudou a chegar ao Senado.
Por isso, sua fala foi menos voltada à apresentação de propostas para Mato Grosso do Sul e mais direcionada a uma reconstrução de identidade política.
Soraya atacou o bolsonarismo, destacou o sofrimento que diz ter vivido e procurou justificar por que agora deve ser aceita como integrante da base de Lula.
O discurso foi, em grande parte, uma apresentação da “nova Soraya” à esquerda.
“Avise o presidente Lula”
O momento de maior aproximação direta com Lula ocorreu quando Soraya relatou uma conversa com o ex-deputado federal Juliano Lemos, também rompido com Jair Bolsonaro.
Segundo a senadora, ele teria dito:
“Avise o presidente Lula, Soraya. Diga que, se ele quiser acabar com esse extremismo, com esse ódio ou com essa seita, você é o veneno.”
Soraya então repetiu:
“Eu sou o veneno, porque eu vi.”
A frase funcionou como uma oferta política ao presidente.
No palanque do PT, Soraya apresentou-se como alguém capaz de ajudar Lula a combater o bolsonarismo justamente por já ter integrado aquele grupo.
A mensagem foi dirigida não apenas ao público presente, mas também à direção nacional do PT e à coordenação da campanha presidencial.
Soraya quer deixar de ser lembrada como a senadora eleita por Bolsonaro para ser reconhecida como a candidata capaz de confrontar o antigo aliado em nome de Lula.
De candidata à Presidência à base lulista
A trajetória de Soraya também passou pelo União Brasil.
Em 2022, ela foi candidata à Presidência da República e disputou a eleição contra Lula e Bolsonaro. Naquele momento, tentou apresentar-se como uma alternativa aos dois principais polos políticos do País.
Durante a campanha presidencial, ganhou projeção nacional pelos embates nos debates e pelas críticas dirigidas tanto ao petista quanto ao então presidente.
Quatro anos depois, o caminho escolhido é outro.
Soraya já não busca ocupar o espaço de terceira via. Agora tenta integrar uma das pontas da polarização que anteriormente dizia combater.
Sua filiação ao PSB e a aliança com o PT colocam a senadora dentro da base lulista em Mato Grosso do Sul.
Ao lado de Fábio Trad, Dona Gilda e Vander Loubet, Soraya pretende compor a chapa majoritária que defenderá a reeleição de Lula no Estado.
Ataques a mulheres, população LGBTQIA+ e imprensa
Soraya também acusou o bolsonarismo de alimentar ódio contra mulheres, pessoas vulneráveis, integrantes da população LGBTQIA+ e profissionais da imprensa.
A senadora afirmou ter presenciado hostilidade contra esses grupos e disse que, em diferentes momentos, não sabia “onde enfiar a cara”.
Em um dos trechos mais fortes, mencionou pessoas que prefeririam matar um filho a vê-lo fazendo suas próprias escolhas e sendo feliz.
A fala buscou aproximá-la de pautas historicamente defendidas pela esquerda e pelo PSB.
Ao enfatizar mulheres, população LGBTQIA+, vulneráveis e imprensa, Soraya adotou uma linguagem completamente diferente daquela que marcou a campanha conservadora da qual participou em 2018.
Mais uma vez, porém, a candidata não citou episódios concretos nem identificou as pessoas às quais atribuía as condutas mencionadas.
Transformar o passado em argumento eleitoral
A principal operação política do discurso foi transformar o passado bolsonarista de Soraya em argumento para sua aceitação pela esquerda.
A candidata sabe que os vídeos de 2018 serão utilizados durante a campanha. As imagens de Bolsonaro pedindo votos para ela não desapareceram e deverão ser exploradas pelos adversários.
Soraya tenta antecipar essa cobrança.
Sua narrativa é a de que esteve ao lado de Bolsonaro, conheceu o grupo por dentro, viu comportamentos que desaprovou e teve coragem de romper.
O que poderia ser apresentado como incoerência passa a ser descrito como experiência. O que poderia ser visto como mudança oportunista é apresentado como amadurecimento e coragem política.
O desafio será convencer o eleitorado de que a guinada foi motivada por princípios, e não apenas por necessidade eleitoral.
De senadora de Bolsonaro a senadora de Lula
Em 2018, Soraya foi beneficiada pela imagem de Bolsonaro e pela força eleitoral da direita.
Em 2026, tenta renovar o mandato com apoio de partidos ligados a Lula e com um discurso radicalmente contrário ao grupo que a elegeu.
A transformação é profunda.
Ela saiu do PSL, passou pelo União Brasil, concorreu à Presidência e agora está no PSB. De aliada de Bolsonaro, tornou-se crítica. De candidata contra Lula, passou a disputar espaço em seu palanque.
Ao afirmar que é o “veneno” contra o bolsonarismo, Soraya tenta convencer a esquerda de que a antiga ligação não deve ser vista como obstáculo, mas como vantagem.
A convenção do PT foi o palco escolhido para essa apresentação.
Resta saber se a militância petista e o eleitorado lulista aceitarão como sua candidata uma senadora que, oito anos antes, chegou ao cargo impulsionada pelo homem que agora escolheu como principal adversário.
E resta ainda uma questão que o discurso deixou sem resposta: se Soraya realmente viu corrupção, perseguição e outros fatos graves, por que não apresentou nomes, provas ou denúncias concretas no momento em que decidiu tornar essas acusações públicas?