Os campo-grandenses amanheceram nesta quarta-feira (22) sem ônibus circulando. Por cerca de uma hora e meia, veículos do Consórcio Guaicurus permaneceram parados fora dos terminais e pontos de embarque, deixando estudantes e trabalhadores sem transporte.
Segundo apuração exclusiva do O Contribuinte, a paralisação foi motivada por atrasos no pagamento do adiantamento salarial dos motoristas, o chamado vale, que o consórcio atribuiu à falta de repasses da Prefeitura. No entanto, fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o episódio faz parte de uma estratégia deliberada do Consórcio Guaicurus para pressionar o poder público e garantir novo subsídio financeiro.
A manobra ocorre justamente quando o sistema de transporte enfrenta seu pior desgaste político e institucional dos últimos anos.
Pressão em meio a denúncias e investigações
A paralisação desta quarta não é um fato isolado. Ela acontece poucos meses depois da CPI do Transporte Público, conduzida pela Câmara Municipal, apresentar um relatório detalhado com graves irregularidades na gestão do consórcio.
O documento, sob relatoria da vereadora Ana Portela (PL), apontou suspeitas de corrupção, indícios de improbidade administrativa, frota acima da idade máxima contratual e falhas na fiscalização municipal. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que agora analisa a responsabilidade de ex-diretores e gestores do sistema.
Paralelamente, o vereador Maicon Nogueira (PP) elaborou um relatório paralelo, reforçando as denúncias contra o ex-diretor-presidente do consórcio, João Rezende, que hoje ocupa cargo na atual diretoria. Nogueira também protocolou representação no MP com base em suspeitas de corrupção, peculato e desvio de recursos.
Além disso, o parlamentar lidera uma campanha pública por intervenção administrativa no Consórcio Guaicurus, que já reúne cerca de 9 mil assinaturas.
CPI, relatórios e caducidade do contrato
Tanto o relatório da CPI quanto o documento apresentado por Maicon Nogueira apontam para a possibilidade de caducidade do contrato de concessão, firmado em 2012 e nunca relicitado.
As investigações apontam que, durante mais de uma década, o consórcio operou sem fiscalização efetiva da Agereg e da Agetran, mantendo ônibus fora do padrão de idade e com manutenção precária.
A CPI também revelou que o consórcio recebeu sucessivos subsídios públicos nos últimos anos, sem comprovar contrapartidas ou melhorias no serviço e, ainda assim, agora volta a pressionar por novo aporte financeiro às vésperas do fim do ano.
Fontes ouvidas pelo O Contribuinte afirmam que o Consórcio Guaicurus tem usado a instabilidade no sistema como tática de pressão.
A paralisação de hoje, atribuída oficialmente ao atraso do “vale”, teria sido planejada para reforçar o argumento de crise financeira e sensibilizar a Prefeitura e a Câmara a liberarem novo subsídio emergencial.
Na prática, o consórcio busca transformar o caos operacional em argumento político, explorando o desgaste da paralisação para pressionar a prefeita Adriane Lopes (PP) e o presidente da Câmara, Epaminondas Neto, o Papy (PSDB),
Com o relatório da CPI entregue ao Ministério Público e a pressão popular crescendo, o pedido de novo subsídio surge como uma tentativa de sobrevivência financeira e política do próprio consórcio, mesmo sob suspeita de corrupção e com histórico de má gestão.
O contribuinte paga a conta
Enquanto isso, os usuários seguem arcando com as consequências. A cidade parou por mais de uma hora e meia nesta manhã, com ônibus estacionados longe dos terminais, linhas interrompidas e trabalhadores atrasados.
O episódio reforça o sentimento de abandono da população, que vê o serviço se deteriorar, sem transparência, sem punição e com risco de novo repasse de dinheiro público a uma empresa sob investigação. O caso será mais um teste para o Executivo e o Legislativo municipal: ceder à pressão ou cobrar responsabilidade de quem lucra com o caos do transporte.