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EXCLUSIVO: relatório usado por Moraes contra Mendonça levanta suspeita de uso de IA

Análise realizada pelo O Contribuinte identificou padrões compatíveis com redação automatizada no documento anexado contra André Mendonça; confirmação depende de perícia técnica

Uma apuração realizada pelo portal O Contribuinte identificou sinais compatíveis com possível utilização de Inteligência Artificial na elaboração ou revisão de um dos relatórios anexados pelo ministro Alexandre de Moraes ao pedido de investigação contra André Mendonça.

Trechos do documento foram submetidos pelo portal a análises no Grammarly e no JustDone, duas plataformas que oferecem recursos automatizados para identificar padrões associados a conteúdos produzidos com auxílio de IA.

As verificações levantaram alertas sobre a construção textual do material. Entre os elementos identificados estão linguagem excessivamente padronizada, divisão simétrica dos argumentos, repetição de ressalvas metodológicas, classificação sistemática das conclusões e utilização de expressões abstratas pouco usuais em documentos policiais convencionais.

Os resultados, contudo, não constituem prova definitiva de que o relatório foi escrito por uma ferramenta generativa. Detectores de IA trabalham com estimativas e podem apresentar falsos positivos, especialmente diante de textos jurídicos, policiais e administrativos, que naturalmente adotam linguagem técnica e repetitiva.

A confirmação ou exclusão da hipótese depende de uma perícia no arquivo digital original.

Como O Contribuinte realizou a verificação

O portal extraiu trechos das páginas divulgadas e submeteu o conteúdo ao Grammarly e ao JustDone.

As plataformas analisam características como previsibilidade das frases, regularidade sintática, repetição de estruturas, escolha vocabular e padrões estatísticos recorrentes em textos gerados ou revisados por sistemas automatizados.

O Contribuinte não apresenta as classificações fornecidas pelas plataformas como uma sentença definitiva. Os resultados servem como alerta preliminar, não como perícia forense.

Estrutura incomum chama atenção

O documento é intitulado “Relatório de Inteligência — Tópico de Análise de Cenário” e examina uma decisão proferida por André Mendonça na Operação Compliance Zero.

Os tópicos aparecem identificados como “Y.1”, “Y.2”, “Y.3” e “Y.4”. Algumas seções possuem marcações entre colchetes, como “[D/R]” e “[D/A]”.

Nas páginas examinadas pelo portal, não aparece uma legenda que esclareça o significado dessas abreviações.

Outro elemento que chamou atenção foi a organização de três advertências em uma estrutura praticamente idêntica:

“PRIMEIRA — NATUREZA NÃO ACUSATÓRIA E NÃO IMPUGNATIVA.”

“SEGUNDA — SUSPEIÇÃO REVERSA.”

“TERCEIRA — GRADAÇÃO DIFERENCIADA.”

A construção simétrica, a utilização de categorias em letras maiúsculas e a separação rígida entre fatos, riscos e conclusões são compatíveis com modelos de organização frequentemente empregados por ferramentas generativas.

Também é possível, no entanto, que a formatação integre uma metodologia interna da Polícia Federal. Essa possibilidade reforça a necessidade de a corporação explicar qual manual ou padrão técnico orientou a redação.

Expressões abstratas e avaliação de intenções

O relatório emprega expressões como “suspeição reversa”, “risco de raciocínio motivado”, “confiança agregada da conclusão de cenário” e “atribuição de finalidade”.

Esse tipo de vocabulário chamou atenção nas verificações realizadas pelo Grammarly e pelo JustDone, sobretudo quando associado à estrutura altamente padronizada do texto.

O documento não se limita a registrar datas, decisões e atos processuais. Também apresenta interpretações sobre o alcance das determinações de Mendonça e possíveis finalidades de sua conduta.

A utilização de IA nessa etapa, caso confirmada, seria particularmente sensível. Ferramentas generativas podem organizar dados, mas não devem substituir a avaliação humana na atribuição de intenções ou na formulação de suspeitas contra autoridades.

Relatório se declara “sem valor probatório”

Independentemente da suspeita de uso de IA, o documento apresenta uma ressalva que aumenta a controvérsia.

Na capa, o relatório é classificado como:

“DIFUSÃO RESTRITA · DOCUMENTO DE TRABALHO · SEM VALOR PROBATÓRIO.”

Apesar dessas limitações expressas, Moraes anexou o material ao pedido em que atribuiu a André Mendonça indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.

Conclusões de confiança “baixa a moderada”

Outra ressalva consta do sistema de classificação adotado pelo próprio documento.

O relatório afirma que alguns tópicos possuem confiança alta, enquanto outros são “avaliativos” e apresentam confiança “baixa a moderada”.

“Os itens Y.6 a Y.8 são avaliativos, de confiança BAIXA a MODERADA.”

Na sequência, o material recomenda que eventual utilização institucional seja limitada às partes consideradas mais confiáveis.

Essa advertência precisa ser confrontada com o pedido formulado por Moraes. É necessário esclarecer quais trechos foram utilizados pelo ministro e se alguma acusação apresentada contra Mendonça está apoiada em avaliações classificadas pelos próprios autores como de baixa ou moderada confiança.

PF admite interesse no resultado

O relatório também reconhece que a Polícia Federal possui interesse direto na controvérsia analisada.

Ao apresentar a categoria chamada “suspeição reversa”, o documento afirma:

“A Polícia Federal é parte interessada e a determinação examinada recai sobre ela própria, inclusive alcançando seu Diretor-Geral.”

A decisão de Mendonça analisada pelo relatório alcançava a atuação da PF e seu diretor-geral, Andrei Rodrigues. O próprio texto reconhece, por isso, a existência de risco de “raciocínio motivado”.

Na prática, a unidade policial admite que está avaliando uma decisão que afeta seus próprios interesses institucionais.

O que o resultado das ferramentas significa

Grammarly e JustDone identificam padrões linguísticos e estatísticos. Eles não acessam o computador no qual o documento foi escrito, não identificam o programa utilizado e não recuperam o histórico de produção do arquivo.

Portanto, as verificações permitem afirmar apenas que existem características compatíveis com conteúdo produzido ou revisado com auxílio de IA.

O Contribuinte cobra esclarecimentos

Diante dos resultados encontrados no Grammarly e no JustDone, O Contribuinte considera necessário que a Polícia Federal esclareça:

Houve uso de Inteligência Artificial na elaboração ou revisão?

Quais ferramentas foram utilizadas?

Quem redigiu, conferiu e aprovou o documento?

O que significam as marcações presentes nos tópicos?

Qual metodologia originou a expressão “suspeição reversa”?

Quem definiu os graus de confiança?

Por que um documento “sem valor probatório” foi usado para sustentar suspeitas de crimes?

Foram utilizadas contra Mendonça avaliações classificadas como de confiança baixa ou moderada?

Os arquivos originais serão apresentados para perícia?

O espaço permanece aberto para manifestação da Polícia Federal, de Alexandre de Moraes e das demais autoridades envolvidas.

A apuração do O Contribuinte não afirma categoricamente que o relatório foi produzido por IA. A conclusão é mais precisa: duas ferramentas, Grammarly e JustDone, apontaram sinais compatíveis com redação automatizada, o que justifica uma perícia independente.

Se houve auxílio de Inteligência Artificial, a PF precisa revelar sua extensão. Se não houve, deverá explicar os padrões identificados e a metodologia utilizada.

Em qualquer cenário, um relatório cercado por tantas ressalvas não pode sustentar acusações contra um ministro da Suprema Corte sem transparência sobre sua autoria, produção e confiabilidade.

Veja na íntegra: