Segundo o relatório da Operação Gutenberg, conversa entre Ed Carlos e Gabriel Taquino ocorreu durante tratativas relacionadas ao município. O Ministério Público utiliza o diálogo como parte da investigação sobre a suposta utilização da Regulação Estadual nas negociações envolvendo contratos da Editora Avante.
Depois de revelar os diálogos “Jamilson cresceu o olho”, “Só opera se fechar, senão vai morrer todo mundo” e as conversas envolvendo a Prefeitura de Ivinhema, O Contribuinte teve acesso a outro trecho do relatório da Operação Gutenberg que amplia um dos principais eixos da investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
Desta vez, o município citado nas mensagens é Nova Alvorada do Sul, administrado pelo prefeito José Paulo Paleari (PP).
Segundo o relatório, o diálogo ocorreu entre Ed Carlos Brito Burgatt, então coordenador estadual da Regulação Assistencial, e o advogado Gabriel Taquino de Paula, durante tratativas relacionadas ao município.
Na interpretação apresentada pelo Ministério Público, a conversa integra o conjunto de elementos utilizados para sustentar a hipótese de que demandas da área da saúde eram discutidas paralelamente às negociações envolvendo contratos da Editora Avante.
É importante destacar que esse trecho do relatório não afirma que o prefeito José Paulo Paleari participou das conversas, tinha conhecimento delas ou praticou qualquer irregularidade. As mensagens reproduzidas são atribuídas aos investigados.
“Ed vai ganhar R$ 80 mil”
Segundo o relatório, Gabriel informa a Ed Carlos que a negociação envolvendo Nova Alvorada do Sul estaria avançando.
Em determinado momento, escreve:
“Ed vai ganhar R$ 80 mil.”
Na sequência, Ed Carlos responde com uma das frases destacadas pelos investigadores:
“Vou dar R$ 300 mil em exames pra eles.”
Logo depois, complementa:
“Fora as cirurgias.”
O diálogo foi reproduzido literalmente pelo Gaeco e integra o conjunto de conversas analisadas durante a investigação.
Uma conversa que reforça a principal tese da investigação
Desde o início da Operação Gutenberg, o Ministério Público sustenta que um dos pilares do suposto esquema era a utilização da estrutura da Regulação Estadual como instrumento de aproximação com administrações municipais.
A conversa sobre Nova Alvorada do Sul é apresentada justamente dentro desse contexto.
Segundo a interpretação do Gaeco, as mensagens indicariam que exames e cirurgias eram mencionados durante tratativas relacionadas ao município.
O relatório, entretanto, não demonstra, apenas com esse diálogo, que os exames foram efetivamente disponibilizados, que houve condicionamento de atendimento ou que a Prefeitura de Nova Alvorada do Sul aceitou qualquer proposta. Essas são hipóteses investigativas que ainda serão submetidas ao contraditório e ao julgamento da Justiça.
O município já vive outros episódios de fiscalização
Embora não tenham relação direta com a Operação Gutenberg, Nova Alvorada do Sul também enfrentou, nos últimos meses, outros episódios de fiscalização envolvendo a administração municipal.
Entre eles, um pedido apresentado pela Associação dos Estudantes Universitários para instauração de uma CPI sobre o contrato do transporte universitário; uma recomendação do Ministério Público para redução de despesas com esse serviço; a recomendação do Tribunal de Contas pela reprovação das contas de 2023 da gestão de José Paulo Paleari; e um episódio em que uma vereadora teve o microfone desligado durante críticas ao prefeito em evento público.
Esses fatos tratam de investigações e questionamentos distintos e não são apontados pelo Gaeco, neste relatório, como relacionados à Operação Gutenberg. Eles ajudam apenas a contextualizar que a administração municipal também enfrenta outros processos de controle e fiscalização.
Por que Nova Alvorada do Sul é importante para a Gutenberg
Ao longo da série de reportagens, O Contribuinte mostrou que a investigação não se limita aos contratos de livros.
O relatório reúne diálogos em que aparecem:
negociações com prefeitos;
contratos em municípios;
discussões sobre vagas hospitalares;
referências a exames e cirurgias;
movimentações financeiras;
e estratégias atribuídas aos investigados para ampliar a atuação da Editora Avante.
Nesse contexto, Nova Alvorada do Sul ganha relevância porque passa a integrar o conjunto de municípios mencionados em conversas que, segundo o Ministério Público, ajudam a reconstruir a dinâmica do suposto esquema.
O que é a Operação Gutenberg?
Deflagrada em julho de 2026, a Operação Gutenberg investiga uma suposta organização criminosa acusada de direcionar contratos de livros paradidáticos para prefeituras de Mato Grosso do Sul.
Segundo o Ministério Público, o grupo também teria utilizado a estrutura da Regulação Estadual da Saúde para influenciar negociações com gestores municipais. A investigação aponta indícios de organização criminosa, corrupção, fraude em licitações e lavagem de dinheiro, estimando que o suposto esquema tenha movimentado cerca de R$ 27 milhões.
As conclusões do Gaeco representam a linha investigativa da acusação e serão submetidas ao contraditório, à ampla defesa e ao julgamento do Poder Judiciári