Presidente da entidade, Paulo Solmucci, estima necessidade de 3 milhões de trabalhadores adicionais e prevê pressão sobre alimentação, serviços e condomínios
Bares e restaurantes poderão reduzir seus dias de funcionamento, contratar mais profissionais ou repassar custos aos consumidores após a implementação do fim da escala 6×1. O alerta é da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que reagiu à aprovação da proposta de redução da jornada de trabalho pelo Senado na quarta-feira (14).
O presidente-executivo da entidade, Paulo Solmucci, classificou a aprovação como uma “tragédia socioeconômica anunciada” e afirmou que as primeiras dificuldades poderão aparecer em atividades que dependem de atendimento diário.
“A aprovação da PEC 6×1 é uma tragédia socioeconômica anunciada e denunciada por nós. Ela terá impactos extraordinários na sociedade, e os primeiros serão percebidos tão logo ela comece a vigorar”, declarou.
A avaliação foi apresentada pelo dirigente em manifestações públicas e em entrevista ao Economic News Brasil.
Abrasel calcula necessidade de 3 milhões de trabalhadores
Segundo Solmucci, aproximadamente 15 milhões de brasileiros trabalham na escala de seis dias de serviço para um de descanso.
Na estimativa da entidade, seriam necessários cerca de 3 milhões de trabalhadores adicionais para compensar as horas reduzidas e manter a mesma oferta de serviços.
O cálculo considera a necessidade de cobrir turnos que atualmente são preenchidos por profissionais submetidos à escala 6×1.
Restaurantes poderão reduzir funcionamento
Para Solmucci, um restaurante que abre seis ou sete dias por semana poderá enfrentar dificuldades para preservar sua rotina.
O estabelecimento terá de escolher entre contratar profissionais, redistribuir turnos, modificar processos ou reduzir o período de atendimento.
“Nós vamos ver restaurantes fechando um dia, trabalhando um dia a menos. Vamos ver serviços essenciais diversos precarizados, e isso, obviamente, a sociedade vai sentir”, afirmou.
A preocupação é especialmente relevante para pequenos negócios, que frequentemente dependem de equipes reduzidas e possuem menor capacidade financeira para ampliar contratações.
Restaurantes, lanchonetes, padarias e estabelecimentos de alimentação também concentram parte de sua demanda em fins de semana e feriados.
Custos poderão subir 20%, diz dirigente
Solmucci calcula que estabelecimentos que mantiverem o mesmo período de funcionamento poderão enfrentar aumento de aproximadamente 20% nos custos operacionais associados à reorganização das equipes, conforme sua projeção.
O percentual não representa um reajuste obrigatório dos preços dos cardápios.
Um restaurante pode absorver parte das despesas, reorganizar a produção, alterar o atendimento ou repassar uma parcela dos custos aos clientes.
A proporção dependerá do número de funcionários, da escala praticada atualmente e da capacidade de adaptação.
Condomínios também poderão ser atingidos
O presidente da Abrasel afirma que os efeitos não se limitarão aos estabelecimentos comerciais.
Condomínios residenciais, por exemplo, dependem de profissionais de portaria, limpeza, manutenção e segurança para manter a estrutura de atendimento.
Segundo Solmucci, a preservação da mesma oferta de serviços poderá elevar determinadas despesas condominiais em 18% a 20%.
O resultado dependerá dos contratos de terceirização, das escalas atuais e das alternativas de organização.
Em prédios que já utilizam jornadas diferenciadas, o impacto poderá ser menor ou exigir outro tipo de ajuste.
Saúde e serviços essenciais exigem atenção
A Abrasel também menciona preocupação com hospitais e clínicas.
Solmucci citou manifestação de Francisco Balestrin, representante do setor hospitalar, durante reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O dirigente da área da saúde teria defendido tratamento específico para atividades que precisam funcionar continuamente.
Hospitais não podem simplesmente interromper atendimentos de urgência por falta de cobertura de turnos.
Por isso, a regulamentação das escalas diferenciadas será um dos pontos decisivos da implementação.
Inflação poderá reduzir poder de compra
Na avaliação de Solmucci, uma eventual elevação generalizada dos preços poderá reduzir o consumo das famílias.
O dirigente prevê um ciclo no qual despesas maiores pressionariam preços, diminuiriam a renda disponível e afetariam a demanda por serviços.
Essa sequência, segundo ele, poderia aumentar o risco de desaceleração econômica e manutenção de juros elevados.
Trata-se de uma hipótese econômica, não de um resultado inevitável.
O impacto dependerá de quanto os custos efetivamente aumentarem, da capacidade de repasse, do comportamento da demanda e da política monetária.
Entidade defende trabalho flexível
Solmucci também apresentou como alternativa uma proposta de ampliação das possibilidades de contratação remunerada por hora.
Na avaliação dele, trabalhadores poderiam ter mais liberdade para organizar os dias e horários de atividade, enquanto as empresas conseguiriam adequar melhor suas escalas.
O dirigente citou diferenças de remuneração entre profissionais horistas e mensalistas em determinados mercados.
Esses exemplos, entretanto, não demonstram que a contratação por hora sempre resulta em renda maior.
Qualquer modelo precisa ser avaliado considerando salário mínimo aplicável, descanso remunerado, férias, 13º salário, proteção previdenciária e demais direitos.
O alerta da Abrasel reforça a necessidade de avaliar os efeitos da mudança sobre empresas e trabalhadores. Mais descanso pode representar ganho de qualidade de vida, mas o desafio será preservar a renda, os empregos e a oferta de serviços sem transferir custos excessivos ao consumidor.