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Gaeco apura contrato de Ivinhema que recebeu acréscimo de 49% em apenas 22 dias

Contratação por inexigibilidade foi assinada em 14 de julho de 2022 por R$ 586,8 mil e recebeu acréscimo de R$ 287,2 mil em 5 de agosto, elevando o total para R$ 874,1 mil.

Um contrato firmado pela Prefeitura de Ivinhema com a Editora Avante ganhou um aditivo de quase R$ 300 mil apenas 22 dias depois de ser assinado.

A contratação ocorreu durante a gestão de Juliano Ferro, do PL, conhecido nacionalmente como o “prefeito mais louco do Brasil”, e hoje integra o conjunto de negócios analisados pelo Gaeco na Operação Gutenberg.

Em 14 de julho de 2022, o município contratou a empresa Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais Ltda., conhecida como Editora Avante, pelo valor de R$ 586.862,50.

Em 5 de agosto, menos de um mês depois, foi celebrado um aditivo de R$ 287.267,50. Com o acréscimo, o valor total chegou a R$ 874.130. 

O aumento corresponde a aproximadamente 49% do valor original.

Aditivo em apenas três semanas

O intervalo de 22 dias entre a contratação inicial e o aditivo tornou-se um dos pontos mais relevantes do caso de Ivinhema.

Embora a legislação permita alterações em contratos públicos dentro de determinadas condições, a rapidez e o tamanho do acréscimo deverão ser explicados pela administração municipal.

Entre as questões que podem ser examinadas estão:

qual necessidade surgiu após a assinatura do contrato;

por que essa demanda não foi prevista inicialmente;

quem solicitou o aumento;

qual setor técnico justificou o aditivo;

se houve ampliação da quantidade de livros;

como foi formado o novo preço;

e se todo o material adicional foi entregue e distribuído.

O aditivo, por si só, não comprova ilegalidade. No entanto, dentro da Operação Gutenberg, ele passou a ser analisado em conjunto com o modelo de contratação, o fluxo do dinheiro e as mensagens recuperadas pelo Gaeco.

Contrato foi feito sem disputa convencional

A Prefeitura de Ivinhema contratou a Avante por inexigibilidade de licitação.

Essa modalidade permite a contratação direta quando o poder público sustenta que a competição é inviável, normalmente em razão da exclusividade do produto ou da singularidade do fornecedor.

O Gaeco apura se a inexigibilidade foi usada de forma legítima ou se serviu para direcionar contratos de livros paradidáticos a empresas ligadas ao grupo investigado.

O Ministério Público destacou que a Editora Avante havia sido constituída em novembro de 2021, cerca de oito meses antes do contrato com Ivinhema, e questionou se a empresa possuía notoriedade suficiente para uma contratação milionária sem concorrência. 

Gestão Juliano Ferro terá de explicar o aditivo

Ivinhema aparece entre os municípios oficialmente requisitados pelo Gaeco a apresentar toda a documentação relacionada à Editora Avante.

O despacho determinou que a prefeitura entregasse:

o contrato;

o procedimento que antecedeu a contratação;

os documentos da inexigibilidade;

os registros de execução;

as notas fiscais;

os comprovantes de pagamento;

os documentos sobre entrega dos materiais;

e os atos relacionados ao aditivo.

A requisição também alcançou municípios como Campo Grande, Dourados, Miranda, Bonito, Ladário, Douradina, Itaporã, Deodápolis, São Gabriel do Oeste, Rochedo e Cassilândia. 

Juliano Ferro confirmou a compra

Juliano Ferro já confirmou que a Prefeitura de Ivinhema realizou a aquisição em 2022.

O prefeito afirmou que se tratou de uma única compra, que todo o material foi entregue e que a administração estava encaminhando ao Gaeco as informações solicitadas.

“Nós fizemos aquisição, em 2022, uma única aquisição. Todo o material foi entregue perfeitamente. O Gaeco já pediu os modos de contratação. O nosso jurídico da prefeitura está encaminhando, se já não encaminhou, mas estamos bem tranquilos”, declarou. 

Ferro também negou qualquer relação entre o contrato dos livros e uma suposta negociação de procedimentos de saúde.

Segundo ele, a contratação seguiu as normas legais e as contas do primeiro mandato foram aprovadas pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul.

A aprovação das contas, contudo, não impede a apuração individual de contratos específicos caso surjam novos elementos.

Pagamento foi seguido por conversa sobre transferência

O caso de Ivinhema não chamou a atenção do Gaeco apenas pelo aditivo.

O relatório também registra que, em 18 de agosto de 2022, poucos dias depois do acréscimo, Felipe Paroschi Jafar trocou informações bancárias com Rhayane Souza Fanaia para viabilizar uma transferência a uma empresa.

Segundo o documento, a conversa ocorreu logo depois de a Prefeitura de Ivinhema efetuar pagamento à Editora Avante.

Felipe teria indicado uma chave PIX vinculada à Gráfica CGR Ltda. 

Para o Gaeco, o ponto relevante é a sequência:

a prefeitura contratou a Avante;

o contrato foi ampliado em 22 dias;

o município efetuou pagamento;

e integrantes do grupo passaram a trocar orientações bancárias sobre o destino dos recursos.

Quase metade a mais em menos de um mês

Em termos práticos, o contrato de Ivinhema sofreu um aumento de quase metade de seu valor inicial.

O cálculo é o seguinte:

valor inicial: R$ 586.862,50;

aditivo: R$ 287.267,50;

total: R$ 874.130;

aumento aproximado: 48,95%.

Esse percentual próximo de 50% reforça a necessidade de uma justificativa técnica detalhada.

A investigação deverá apurar se o acréscimo respeitou os limites legais aplicáveis ao tipo de contrato e se houve motivação administrativa suficiente.

Mais de 30 prefeituras sob apuração

Ivinhema não é um caso isolado.

Levantamentos sobre a Operação Gutenberg apontam que mais de 30 prefeituras firmaram contratos com empresas ligadas ao esquema investigado e passaram a ser questionadas sobre as compras, realizadas em grande parte sem licitação.

O foco não está apenas na existência dos contratos, mas também em:

como as empresas foram escolhidas;

quem intermediou as vendas;

quais justificativas sustentaram a inexigibilidade;

como os valores foram definidos;

por que houve aditivos;

e para onde o dinheiro foi depois dos pagamentos públicos.

Prefeitos aparecem no radar da investigação

Os relatórios da Gutenberg mencionam tratativas envolvendo várias prefeituras e referências a agentes políticos com prerrogativa de foro, como prefeitos e deputados estaduais.

O Ministério Público, porém, registrou que ainda seriam necessários outros elementos antes da abertura de investigações específicas contra essas autoridades.

Isso significa que a inclusão da Prefeitura de Ivinhema na apuração documental não representa denúncia ou condenação de Juliano Ferro.

A investigação busca determinar se a gestão municipal foi apenas contratante de um produto efetivamente entregue ou se houve participação de agentes públicos em um modelo mais amplo de direcionamento e distribuição de recursos.

A Operação Gutenberg permanece em andamento. Juliano Ferro, a Prefeitura de Ivinhema, os representantes da Editora Avante e os demais citados têm direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.