Um dos pontos que mais chamaram a atenção dos investigadores da Operação Gutenberg não foi apenas a quantidade de contratos firmados pela Editora Avante com municípios de Mato Grosso do Sul.
Segundo a denúncia apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), a organização investigada teria ido muito além da simples comercialização de livros paradidáticos.
Na avaliação do Ministério Público, o grupo também fornecia às administrações municipais praticamente todo o roteiro necessário para viabilizar as contratações.
O contrato praticamente pronto
Conforme a denúncia, a atuação dos investigados começava antes mesmo da assinatura dos contratos.
O Ministério Público afirma que integrantes da organização orientavam servidores públicos sobre como elaborar os documentos necessários para justificar a contratação da Editora Avante por inexigibilidade de licitação.
Segundo o Gaeco, eram produzidos ou fornecidos modelos de estudos técnicos preliminares, documentos de formalização da demanda, pareceres jurídicos, termos de referência e outros atos administrativos utilizados durante os processos de contratação.
A contratação seguia um roteiro
Para os investigadores, essa padronização não era coincidência.
A denúncia sustenta que havia uma metodologia utilizada para facilitar a celebração dos contratos públicos, reduzindo as etapas normalmente enfrentadas pelos municípios.
Na avaliação do Ministério Público, isso permitia que diferentes prefeituras adotassem procedimentos semelhantes para contratar a Editora Avante.
Não era um caso isolado
Ao longo da investigação, o Gaeco identificou contratos celebrados em diversos municípios de Mato Grosso do Sul.
Miranda, Ivinhema e Ladário aparecem entre as cidades citadas na fase inicial da investigação, todas com contratações por inexigibilidade de licitação que passaram a ser analisadas pelos investigadores.
Segundo a denúncia, a repetição do modelo de contratação foi um dos fatores que reforçaram a suspeita de uma atuação organizada.
O objetivo, segundo o Ministério Público
Na visão do Gaeco, fornecer os documentos e orientar a elaboração dos processos administrativos permitia que a organização mantivesse maior controle sobre as contratações públicas.
Essa conclusão integra a acusação apresentada pelo Ministério Público e será analisada durante a ação penal.
O que é a Operação Gutenberg?
A Operação Gutenberg foi deflagrada pelo Gaeco em 7 de julho de 2026 para investigar uma suposta organização criminosa suspeita de corrupção, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Segundo o Ministério Público, o grupo teria utilizado a Editora Avante para celebrar contratos milionários com municípios de Mato Grosso do Sul e, paralelamente, usado a estrutura da regulação estadual da saúde para pressionar gestores públicos, condicionando a liberação de exames, consultas, cirurgias e leitos hospitalares à contratação da empresa.
A investigação estima que o suposto esquema tenha movimentado cerca de R$ 27 milhões entre 2022 e 2024. As conclusões apresentadas pelo Gaeco representam a linha investigativa do Ministério Público e ainda serão submetidas ao contraditório, à ampla defesa e ao julgamento do Poder Judiciário.