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Governo de MS nega aval à Cassems e Ayache entra na mira de escândalo que pode passar de R$ 100 milhões

Em um caso que mistura perpetuidade no poder, operações financeiras obscuras e a suposta utilização indevida do nome do Estado, a gestão de Ricardo Ayache à frente da Cassems (Caixa de Assistência dos Servidores de Mato Grosso do Sul) tornou-se o epicentro de um escândalo que pode ultrapassar a casa dos R$ 100 milhões. Acusado de comandar a entidade como um “senhor feudal”, Ayache vê sua administração ser alvo de denúncias gravíssimas que incluem falsidade ideológica, fraude contra o sistema financeiro e o estrangulamento da assistência médica aos servidores públicos.

O cerne da crise está em uma operação de crédito de R$ 30 milhões realizada pela Cassems com o Sicoob Credicom. Para dar aparência de legalidade, a Cassems, por meio de seu diretor jurídico, Cléber Tejeda, afirmou publicamente que o Governo do Estado atuou como “interveniente anuente” – figura que autoriza e assume responsabilidade subsidiária pela operação.

No entanto, a resposta oficial do Governo de Mato Grosso do Sul, obtida pelo deputado estadual João Henrique Catan (PL-MS), é categórica: não há qualquer registro de que o Estado tenha autorizado, participado ou sequer conhecido essa operação. A declaração transforma a justificativa da Cassems em pó e levanta uma questão gravíssima: quem inseriu os dados oficiais do Estado (CNPJ, endereço) em um contrato milionário sem sua anuência?

Especialistas em direito penal econômico ouvidos pela reportagem alertam que a prática configura indícios robustos de falsidade ideológica, fraude contratual e uso indevido de ente público para obtenção de crédito. O deputado Catan foi além e, em discurso no plenário, classificou o esquema como estelionato, pedindo a prisão preventiva de Ayache.

O “Senhor Feudal”

As denúncias financeiras ganham contornos ainda mais sombrios quando vistas sob a luz da trajetória de Ricardo Ayache. No cargo desde 2010, o cardiologista acaba de ser empossado para seu quarto mandato consecutivo, em uma chapa única que obteve 95% dos votos. Se completar o atual quadriênio (2023-2027), ele terá governado a Cassems por quase duas décadas.

Essa “longevidade” no poder já era criticada pelo próprio ex-governador Zeca do PT (PT), que admitiu um “erro” de seu governo por não ter estabelecido mecanismos de prestação de contas à Assembleia Legislativa. Zeca chegou a classificar os mandatos na Cassems como “ad perpetuam” – perpétuos –, um cenário que, segundo analistas, cria um ambiente fértil para o apadrinhamento e a opacidade.

Esvaziamento do Patrimônio

As irregularidades, no entanto, não se limitam à operação com o Sicoob. As denúncias apontam para um padrão de venda subavaliada do patrimônio da Cassems, em prejuízo direto aos servidores:

  • Campo Grande: Um terreno de 25 mil m², adquirido por R$ 3 milhões e avaliado em R$ 13 milhões, foi vendido por irrisórios R$ 2,8 milhões para empresas ligadas à própria entidade.

  • Aquidauana: Transações imobiliárias envolvendo casas residenciais também seguiram o mesmo roteiro de subavaliação, com tentativas de registro de escrituras com valores inferiores aos de mercado, barradas pelas prefeituras.

Além disso, o deputado Catan denunciou que a Cassems hipotecou créditos da ordem de R$ 500 milhões – correspondentes a repasses do Tesouro para a saúde dos servidores – em uma operação que resultou na venda de um imóvel com deságio de 50% e em um aluguel que elevou custos anuais de R$ 4 milhões para R$ 11 milhões.

O Prejuízo ao Servidor: Descredenciamentos e Saúde Sitiada – Enquanto as operações milionárias se desenrolam, o servidor público paga a conta na pele. Relatos de descredenciamento em massa de médicos, clínicas e laboratórios por falta de pagamento tornaram-se comuns. A falta de transparência chega ao ponto de a direção da Cassems bloquear comentários em pesquisas de satisfação nas redes sociais, numa tentativa clara de abafar a insatisfação dos segurados.

CPI e Ação da Justiça

Diante do volume de provas documentais, a pressão por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa cresce. O Ministério Público e o Poder Judiciário também foram acionados para apurar a fundo as acusações.

A gestão de Ricardo Ayache, outrora um “feudo” inexpugnável, agora enfrenta seu desafio mais sério. O que parecia uma perpetuidade no poder pode terminar com um legado de escândalos, processos judiciais e o descrédito total de uma instituição criada para cuidar daqueles que servem ao Estado. A pergunta que paira no ar é: até quando o “senhor feudal” conseguirá se manter no castelo?