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Governo Lula culpa para Tarcísio por derrota na MP dos Impostos

Em um capítulo que expõe as fissuras do jogo político brasileiro às vésperas das eleições de 2026, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sofreu um revés significativo na Câmara dos Deputados ao ver a Medida Provisória (MP) 1.303/2025, que previa aumento de impostos para compensar perdas fiscais, ser engavetada e perder validade. Aprovada por 251 votos a 193 em um requerimento de urgência para retirada de pauta, a medida representava uma tentativa desesperada de arrecadar R$ 35 bilhões até 2027, essenciais para equilibrar o Orçamento da União e evitar cortes em programas sociais. Mas, em vez de uma análise técnica, o Planalto optou por uma narrativa de confronto, culpando diretamente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por orquestrar a “sabotagem” que levou à derrota.

A MP em questão surgia como uma resposta ao fracasso anterior do governo em elevar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), derrubado pelo Congresso e questionado no Supremo Tribunal Federal (STF). Para contornar o impasse, o Executivo propôs tributar rendimentos de aplicações financeiras, bets (casas de apostas) e outros setores, com concessões de última hora para poupar o agronegócio e títulos imobiliários. No entanto, líderes do Centrão e da bancada ruralista resistiram, argumentando que a proposta padecia de “problemas de origem” e servia apenas para inflar gastos eleitorais. O resultado? Um buraco fiscal que, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não justificará mudança na meta fiscal, mas forçará bloqueios em emendas parlamentares e no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026.

Lula, em reunião com ministros e líderes aliados, não poupou críticas ao Legislativo, afirmando que votar contra a MP seria “votar contra o povo brasileiro”, evocando memórias da rejeição à CPMF em seu primeiro mandato. “Pobres dos governadores que pensam que estão votando para prejudicar o presidente Lula. Eles estão prejudicando o povo pobre, que precisa de dinheiro para melhorar a saúde”, disparou o petista, em uma clara alusão a Tarcísio. O líder do PT na Câmara, Zeca Dirceu, foi ainda mais direto: acusou o governador paulista de ter ligado para deputados, em articulação com o presidente do PP, Ciro Nogueira, e do União Brasil, Antonio Rueda, para formar uma frente oposicionista. “O governador Tarcísio de Freitas, em vez de governar o estado de São Paulo, está usando o seu tempo para ficar pressionando deputados”, reclamou Dirceu, rotulando a manobra como uma tentativa de “garrotear” o governo federal.

Para os petistas, não se trata de mera discordância fiscal, mas de uma guerra antecipada pela Presidência. Tarcísio, cotado como o principal nome da oposição para substituir o inelegível Jair Bolsonaro (PL), é visto como o beneficiário imediato do desgaste imposto a Lula. Relator da MP, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP) reforçou essa visão: “É uma disputa eleitoral antecipada, capitaneada por partidos do centrão e pelo governador de São Paulo”. A estratégia oposicionista, na ótica governista, visa inviabilizar o arcabouço fiscal do Planalto, forçando cortes em programas sociais e criando instabilidade em ano eleitoral – o oposto da “liberação geral” de gastos que, ironicamente, Haddad comparou à gestão bolsonarista de 2022.

Tarcísio, por sua vez, negou veementemente qualquer interferência, afirmando que seu foco é a reeleição em São Paulo, não uma aventura nacional. Mas o Planalto não parece disposto a recuar: já estuda alternativas, como novas MPs ou projetos de lei, e aposta na opinião pública para virar o jogo. O revés ocorre ironicamente uma semana após a aprovação da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para R$ 5 mil e a criação de um imposto mínimo sobre super-ricos – bandeiras de campanha de Lula que o PT usará como trunfo eleitoral. No fim das contas, essa derrota não é só sobre R$ 35 bilhões perdidos; é sobre quem ditará o ritmo da corrida ao Planalto, com o governo transformando uma perda legislativa em munição retórica contra seus rivais. Resta saber se o eleitorado comprará a narrativa de “sabotagem” ou verá nisso apenas mais um round do eterno embate entre Executivo e Congresso.