O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, adotou um tom de serenidade ao comentar a rejeição da Medida Provisória (MP) 1.303/2025, que previa a taxação de rendimentos de aplicações financeiras, bets e outros setores para arrecadar R$ 35 bilhões até 2027. A proposta, derrotada na Câmara dos Deputados por 251 votos a 193 em um requerimento que retirou sua urgência, perdeu validade em 7 de outubro de 2025, deixando um rombo no planejamento fiscal do governo Lula. Apesar do revés, Haddad minimizou o impacto, afirmando que a meta de déficit zero para 2026 permanece inalterada, com ajustes orçamentários já em curso para compensar a perda.
Em entrevista coletiva, o ministro destacou que a derrubada da MP, embora indesejada, não compromete a estabilidade fiscal. “Temos instrumentos para recompor o Orçamento. O arcabouço fiscal nos dá margem para trabalhar com bloqueios contingenciados e outras fontes de receita”, afirmou Haddad, sinalizando que cortes em emendas parlamentares e revisões no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026 estão na mesa. Ele também negou que a derrota represente uma crise de articulação política, embora fontes do Planalto apontem tensões com o Centrão, que liderou a obstrução ao lado de partidos como PP e União Brasil.
A MP, apelidada de “MP da Taxação”, era uma tentativa de compensar perdas fiscais após a rejeição de aumento do IOF e outras medidas impopulares. A proposta enfrentou resistência imediata de setores como o mercado financeiro e a bancada ruralista, que a acusaram de ser uma manobra eleitoreira para financiar gastos em ano pré-eleitoral. Haddad, no entanto, defendeu a medida como “essencial para a justiça tributária”, citando a aprovação recente do imposto sobre super-ricos como prova do compromisso do governo com a redistribuição de renda. “Não vamos abrir mão de taxar quem pode pagar mais”, reforçou.
Nos bastidores, a narrativa é menos otimista. A derrota expôs fragilidades na base aliada, com deputados do Centrão citando falta de diálogo do governo e pressão de governadores, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), para barrar a MP. Haddad evitou polemizar, mas admitiu que o governo estuda alternativas, como um novo projeto de lei ou até uma MP reformulada, com mais incentivos ao agronegócio para aplacar resistências. “O diálogo com o Congresso continua. Não é uma guerra, é uma construção”, disse.
Analistas apontam que, apesar do discurso confiante, o governo terá dificuldades para recompor os R$ 35 bilhões sem novas polêmicas. A rejeição da MP pode forçar cortes em áreas sensíveis, como saúde e educação, o que seria um desgaste em ano de campanha. Por ora, Haddad aposta na narrativa de resiliência fiscal, mas a pressão por resultados concretos cresce, enquanto a oposição capitaliza o tropeço para enfraquecer a imagem do Planalto. O próximo Orçamento será o teste de fogo para provar que a derrota, como diz o ministro, foi apenas um “contratempo administrável”.