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Intolerância política: esquerda ataca Flavio Cabo Almi e até a memória do pai após apoio a Flavio Bolsonaro

Filho do ex-deputado petista Cabo Almi, Flávio cobra respeito e lembra que o pai sempre defendeu o diálogo, independentemente de partido.

O que deveria ser apenas uma manifestação democrática de apoio político acabou se transformando em uma onda de ataques pessoais, ofensas e desrespeito à memória de um parlamentar que marcou a história de Mato Grosso do Sul. Entre quinta-feira (8) e esta sexta-feira (9), o vereador de Campo Grande Flávio Cabo Almi (PSDB) passou a ser alvo de comentários ofensivos nas redes sociais após declarar publicamente apoio ao candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno das eleições de 2026.

O episódio ganhou proporções ainda mais delicadas quando as críticas ultrapassaram a escolha eleitoral do vereador e passaram a atingir seu pai, o saudoso ex-deputado estadual Cabo Almi, que construiu grande parte de sua trajetória política no Partido dos Trabalhadores (PT).

Nas publicações, usuários que demonstraram insatisfação com o posicionamento de Flávio chegaram a mencionar o ex-parlamentar, já falecido, com expressões ofensivas, colocando em dúvida o legado deixado por ele e atacando a honra de sua família.

Em um dos comentários, um usuário escreveu: “Conheci seu pai e a luta dele. Onde ele estiver, deve estar com vergonha de você.”

Outro foi ainda mais agressivo: “O cabo Almir está se remoendo no caixão por saber quanto o filho dele é traidor da Pátria.”

Em outra manifestação, um perfil escreveu: “Inútil, seu pai deve tá se revirando na cova de tanta vergonha.”

Os comentários, registrados em capturas de tela obtidas pelo O Contribuinte, demonstram como a divergência política acabou dando lugar a ataques pessoais envolvendo até mesmo a memória de alguém que já não está mais vivo para se defender.



Cabo Almi construiu sua história no PT, mas era respeitado por diferentes correntes políticas

A situação chama atenção especialmente pela trajetória do ex-deputado estadual Cabo Almi, que, apesar de sua longa ligação com o Partido dos Trabalhadores, construiu uma carreira marcada pelo diálogo com diferentes forças políticas.

Cabo Almi foi vereador de Campo Grande e posteriormente deputado estadual. Ao longo de sua trajetória, tornou-se conhecido pela simplicidade, pelo contato direto com a população e pela defesa de famílias de baixa renda.

Mesmo integrando um partido identificado com a esquerda, manteve relações de respeito com lideranças de outras siglas e correntes ideológicas.

Sua principal bandeira não era perguntar em quem determinada pessoa votava antes de prestar atendimento. Era ouvir as demandas de quem procurava seu gabinete, especialmente moradores de bairros periféricos e comunidades mais carentes.

Esse comportamento ajudou a construir um legado político que ultrapassou as fronteiras partidárias e que hoje é reivindicado pelo filho.

A contradição apontada por apoiadores de Flávio é justamente essa: um político que ficou conhecido por respeitar as diferenças agora tem sua memória utilizada em ataques contra o próprio filho por uma escolha eleitoral.

Filho seguiu os passos do pai, mas escolheu construir carreira fora do PT

Flávio Cabo Almi nunca escondeu a admiração pelo pai, tampouco a intenção de dar continuidade ao trabalho social e político que ele desenvolveu durante décadas.

Entretanto, decidiu construir sua trajetória em outras legendas, uma escolha que, segundo o próprio vereador, sempre contou com o respeito e a liberdade concedida por Cabo Almi ainda em vida.

Em 2022, Flávio disputou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Podemos. Dois anos depois, nas eleições municipais de 2024, foi eleito vereador de Campo Grande pelo PSDB.

Já no último domingo (4), concorreu ao cargo de deputado estadual, novamente pelo PSDB, terminando a disputa na segunda suplência da legenda.

Apesar de seguir caminhos partidários diferentes daqueles escolhidos pelo pai, Flávio manteve características que marcaram a atuação de Cabo Almi: a simplicidade, a proximidade com os moradores e o atendimento direto à população.

Uma das práticas que simbolizam essa continuidade é manter as portas de sua residência abertas para receber moradores que procuram ajuda, apresentam reivindicações ou levam demandas de diferentes regiões de Campo Grande.

Para o vereador, o compromisso com a população não depende de ideologia, preferência partidária ou voto.

Apoio a Flávio Bolsonaro desencadeou reação nas redes sociais

A nova onda de ataques começou depois que Flávio Cabo Almi tornou público seu apoio ao senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em uma publicação nas redes sociais, o vereador manifestou sua escolha eleitoral, acompanhada de uma mensagem de apoio ao presidenciável.

A decisão desagradou parte dos seguidores identificados com a esquerda, especialmente aqueles que associam a trajetória política da família Cabo Almi ao histórico de militância do ex-deputado no PT.

A partir daí, surgiram críticas questionando a fidelidade de Flávio ao legado do pai.

Entre as mensagens registradas, uma pessoa ironizou: “O pai deve estar muito ‘feliz’ com a escolha do filho.”

Outra questionou simplesmente: “Legado??????”

Também houve comentários favoráveis à manifestação política do vereador, demonstrando que a publicação provocou reações distintas entre os seguidores.

Segundo o relato apresentado à reportagem, as hostilidades não ficaram restritas aos comentários públicos. Familiares de Flávio também teriam recebido mensagens privadas ofensivas, ampliando o desgaste provocado pela discussão eleitoral.

Flávio reage e pede respeito à memória do pai

Diante da repercussão, Flávio Cabo Almi decidiu se manifestar por meio de um vídeo publicado nas redes sociais nesta quinta-feira (8).

Em sua manifestação, o vereador demonstrou indignação com os ataques envolvendo a memória do pai e reforçou que divergências políticas não justificam ofensas pessoais ou ataques contra familiares.

Flávio lembrou que Cabo Almi sempre respeitou suas escolhas e, ainda em vida, lhe deu liberdade para decidir por qual partido iniciaria sua trajetória política.

O vereador também ressaltou que não pretende abandonar os princípios que aprendeu com o pai, especialmente o compromisso de atender a população sem fazer distinção entre eleitores de direita, esquerda ou centro.

Segundo ele, se parte de seus eleitores apoia Lula ou possui identificação com a esquerda, isso não representa qualquer problema. Seu papel como vereador é trabalhar por todos os campo-grandenses.

Em um dos momentos centrais da manifestação, Flávio deixou claro que está preparado para receber críticas e enfrentar os ataques direcionados a ele, mas pediu que seus adversários não envolvam a família e a memória do pai nas disputas políticas.

Em síntese, seu recado foi direto: podem criticá-lo, questionar suas decisões e confrontar suas posições, mas devem respeitar a história de Cabo Almi e os familiares que não têm participação na disputa.

O vereador também alertou para a possibilidade de responsabilização em situações nas quais manifestações ultrapassem a crítica política e configurem crimes contra a honra.

Divergência política não apaga legado

O episódio levanta uma discussão que vai além da disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro: até onde pode chegar a intolerância política?

No caso de Flávio Cabo Almi, a escolha de apoiar um candidato de direita passou a ser utilizada por alguns usuários como justificativa para questionar não apenas sua trajetória, mas também a memória de um ex-deputado que dedicou décadas à vida pública.

O fato de Cabo Almi ter sido filiado ao PT não significa que seu filho esteja obrigado a seguir a mesma orientação partidária. Da mesma forma, a opção eleitoral de Flávio não apaga a história construída pelo pai.

O próprio ex-deputado, segundo o relato do vereador, defendia a liberdade do filho para construir seu caminho na política.

A democracia pressupõe justamente o direito de discordar, criticar e escolher candidatos diferentes, inclusive dentro da mesma família.

A crítica política é legítima. Já a utilização da morte de um familiar como instrumento de humilhação pessoal representa um tipo de hostilidade que ultrapassa o debate de ideias.

Em meio à polarização do segundo turno, Flávio Cabo Almi reafirma que continuará defendendo suas posições políticas, sem abrir mão de uma das principais lições que atribui ao pai: atender e respeitar as pessoas, independentemente de partido, ideologia ou preferência eleitoral.